Um combatente que parte

Faleceu, com 93 anos, o coronel Varela Gomes

Quarta-feira, 28 Fevereiro, 2018

VarelaG2João Varela Gomes começou por se destacar no combate à ditadura ainda no tempo de Salazar. Nos anos de chumbo em que se inicia a guerra colonial, participa na revolta de Beja, na madrugada de 1 de Janeiro de 1962. O assalto ao Regimento de Infantaria 3 pretendia ser rastilho para que mais unidades militares se rebelassem; e, nesse aspecto, segue a linha de outras tentativas de subversão do regime que fazem do “acto exemplar” e do golpe militar a via para o derrube do fascismo. Isolada, a revolta fracassa, mas deixa o sinal de que a ditadura podia e devia ser enfrentada também à mão armada.

Varela Gomes fica gravemente ferido, é julgado em 1964 e condenado a pena de prisão pela ditadura.

Doze anos mais tarde, já com o regime marcelista em decomposição, sobretudo por força do desgaste provocado pelas guerras de libertação nacional, faz parte dos militares de Abril que derrubaram a ditadura. Mantém vivo o sentido de vigilância antifascista combatendo o golpe spinolista de 28 de Setembro de 1974 e, pouco depois, o golpe, igualmente de inspiração spinolista, de 11 de Março de 1975.

Integra, nos meses do Verão Quente que se seguem, a ala esquerda do MFA, que acabaria derrotada e afastada dos cargos de poder por mais um golpe: o de 25 de Novembro. Este, meticulosamente montado, foi, como se sabe, operacionalizado pela ala direita do MFA (liderada pelo Grupo dos Nove), apoiado pelos serviços secretos norte-americanos e alemães, e suportado internamente por uma ampla coligação de direita que ia dos grupos fascistas ao PS soarista.

Alvo de mandado de captura, Varela Gomes foge então do país, passando por Espanha e Cuba e estabelecendo-se em Angola. Só regressa em finais de 1979 quando entrou em vigor uma lei de amnistia.

Nunca aceitou, porém, render-se ao 25 de Novembro, nem à tão louvada “democracia representativa” então imposta e cujos frutos podres estão à vista. Chamava ele a essa democracia — “filofascista”. Nesse sentido, fez parte dos que classificam o novembrismo como aquilo que foi: uma contra-revolução destinada a esmagar a iniciativa popular que floresceu nos breves 19 meses de Abril a Novembro.

Hoje, dia 28, realiza-se o velório na Basílica da Estrela, em Lisboa, e amanhã o corpo será cremado no cemitério do Alto de São João.






3 Comentários a “Um combatente que parte”

  1. leonel clérigo disse:

    Em primeiro lugar, presto aqui a minha modesta homenagem a este grande combatente pelo seu país.
    E nunca é demais ressaltar que foi um homem de convicções e não um “pastel” da “dependência exterior” de que – quase no seu todo – esta Nação é hoje um exemplo acabado, um capacho enrodilhado da célebre “Europa conosco”, Europa que, mais recentemente, nos vem impingindo “tretas desenvolvimentistas” e onde a mais “moderna” – tal como a anterior vocação lusa para os “serviços” – nos parece reenviar agora para a nobre “missão” de camponeses “modernos” ao serviço do “gourmet”.
    Não deixa de ser curioso verificar o facto de “Bruxelas” nunca nos “aconselhar” – e apoiar expressamente para deixarmos de ser um “peso morto” – o nosso empenho na “Industria”, nem “aconselhar” os Luxemburgueses a abandonarem esta e dedicarem-se agora à “pesca” no Mosela. Ainda bem que Mário Soares nos convenceu das delícias duma certa “Europa Connosco”.

    Em segundo lugar gostaria de deixar aqui uma nota a propósito das “notícias” sobre a morte de Varela Gomes.
    Nestas, não consegui encontrar nada sobre o “conteúdo” dos seus importantes combates: toda a sua vida parece confinar-se ao “Golpe de Beja” e à “anti-democrática” 5ª Divisão. Tudo o que ele pensava que a Revolução de Abril poderia fazer em prol do seu País, é deixado no “tinteiro”, naquele “vazio” que a “democracia dos democratas” tem por hábito fazer tudo empalidecer e sistematicamente. É como se Varela Gomes fosse um “descabelado” sem ideias, andasse no mundo, vestido de “marionete”, a “ver andar os automóveis” e onde tudo se configura numa espécie de “fixação” anti-fascista sem mais, o que cai como “sopa no mel” nos propósitos intencionalmente “recuados” desta “nossa” burguesia – essa sim! – descabelada.

  2. António Louçã disse:

    Caro Leonel Clérigo, subscrevendo embora a sua apreciação mais geral sobre as notícias referentes à morte de Varela Gomes, sublinho como honrosa excepção o site da RTP, que foi bastante pluralista para publicar os artigos contidos nestes dois links:

    https://www.rtp.pt/noticias/pais/varela-gomes-ou-as-arestas-do-caracter_n1061166

    https://www.rtp.pt/noticias/politica/morreu-varela-gomes-figura-historica-da-resistencia-a-ditadura_n880941

  3. leonel clérigo disse:

    Caro António Louça

    Agradecendo a sua chamada de atenção, anoto com agrado o “pluralismo” da RTP que, permita-me, ainda não tinha apreciado devidamente.

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