Justiça de classe e justiça de clã

Carlos Completo - Terça-feira, 6 Fevereiro, 2018

Justiça obesaComo já temos afirmado (nunca é demais repeti-lo), a justiça que se pratica num estado capitalista, como Portugal, é uma justiça de classe. Nela, os trabalhadores e os pobres não podem confiar. Segundo as leis das classes dominantes, os patrões podem continuar “legalmente” a explorar os trabalhadores e os explorados acabam geralmente a perder nos pleitos judiciais com o patronato.
Mas também há a justiça de uma ou mais fracções das classes dominantes contra outras, como actualmente acontece no Brasil. Ali, as classes trabalhadoras e os mais pobres ficam nitidamente a perder, além de, se confiarem nessa justiça, estarem, também, a alimentar o movimento fascizante a ela acoplada.

Em Portugal, o problema é análogo ou para lá caminha. Muito raramente os elementos das classes dominantes são verdadeiramente atingidos, mas aqueles que caírem em desgraça (também para dar o exemplo ou salvar as aparências), podem ter de arcar com um calvário na “justiça” e nos média do sistema, além das eventuais condenações. Há que reconhecer que isso acontece com algumas pessoas por quem não podemos ser acusados de ter simpatias. Embora alguns dos atingidos acabem por beber do próprio veneno, que ajudaram a fabricar ou manter.

O exercício de uma justiça de clã e de vingança, parece ser o que aconteceu recentemente e de forma descarada com o ministro Mário Centeno. E lá estavam os “jornalistas” do costume a promoverem e a alimentarem o “escândalo”. O ministro vendeu-se por dois bilhetes para ir ver a bola? Ridículo. A mesma justiça que “não tem formação nem meios” para defender quem é vítima da violência doméstica , como arranja tempo e meios para isto? Tragicamente significativo do que gente mesquinha e vingativa é capaz.

E andam vários magistrados atarefados (e bem amparados por certos sectores da direita) à procura de consensos legislativos e/ou organizativos para o sector judiciário, assim como de benefícios pecuniárias para os seus membros. Ao mesmo tempo que são fortes os indícios de que tal ofensiva justicialista não fica por aqui. Não será que estamos a passar por uma fase de forte pressão/chantagem do aparelho judiciário sobre o actual governo? Se o diabo não vem de um lado pode vir por outro?






Um Comentário a “Justiça de classe e justiça de clã”

  1. leonel clérigo disse:

    O SEGREDO ESTÁ NAQUILO COM QUE SE COMPRAM OS MELÕES…

    É provável estar a “ler mal” o texto de Carlos Completo mas entendi que, para ele, a luta que hoje podemos apreciar no interior da burguesia lusa dependente – e invade até o futebol… -, não vai além de mera “justiça de uma ou mais fracções das classes dominantes contra outras”.
    Assim, tudo parece resumir-se a uma “vingativa” luta de “clãs” – antiquíssima “sobrevivência pré-classista” – e que dá assim “conteúdo” a uma interpretação da coisa.

    Em minha modesta opinião, julgo ser o contrário disso o que se verifica: as lutas entre as “fracções das classes dominantes” – como as que hoje vemos surgir na “justiça” e bem vestidas com o velho “dominó” de Carnaval – são “lutas reais” e não meras “vinganças” de “clãs”. Seu “conteúdo real” vai direitinho às “clientelas” dos Poderes Económicos e que se enquadram na “divisão” que os Imperialismos vêm engendrando ao interferirem na economia dos povos “subdesenvolvidos”, a fim de “deforma-las”, “dividir” internamente o nosso lumpen-capitalismo e assim angariar “aliados” para as suas “causas” de dominação…
    Já estamos esquecidos dos “velhos tempos” quando os EUA “formavam” generais – hoje já não, têm asas de “anjos”… – para fomentarem depois “golpes de estado” na América Latina (e noutras paragens) como aconteceu no Chile de Pinochet?
    E que fez o “clã” Pinochet? Não foi – sob a capa do perigoso “comunista” Allende – concretizar no Chile a primeira experiência “Neoliberal” no terreno, “assessorada” pela “rapaziada de Chicago” do sábio Milton Friedman?…

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