Verbos-de-encher

O ministro da Cultura e o subsídio que Fernando Relvas não recebeu

Carlos Completo - Domingo, 17 Dezembro, 2017

FernandoRelvasHá indivíduos que passam pela política, nomeadamente ministros, que ficam embevecidos com os cargos, as honras e as benesses que lhes atribuem, mas não são capazes de assumir minimamente as responsabilidades que daí lhes advêm. Vem isto a propósito de um caso concreto passado com o actual Ministro da Cultura. Certamente que há muitos casos análogos, e não menos importantes, não apenas na Cultura, como noutros campos de actividade. Este será mais um caso exemplar do tipo de comportamento habitual de alguns dos nossos políticos burgueses.
Em Novembro último, faleceu em Lisboa, aos 63 anos, o conhecido autor de banda desenhada Fernando Relvas, considerado um dos criadores mais importantes e um dos inovadores da BD portuguesa contemporânea. Fernando Relvas, a quem fora diagnosticada há algum tempo a doença de Parkinson, tinha sofrido duas quedas, fora operado à coluna e estava internado no Hospital Amadora-Sintra, onde viria a falecer, numa situação de carência económica extrema e antes de chegar a receber o subsídio, que esperava há dois anos. Isto é, parafraseando Brecht, os decisores não compreendem estas coisas: eles já comeram.

Após a morte do artista e de um voto de pesar do Ministro da Cultura, Viriato Teles, escritor e jornalista, amigo de longa data de Fernando Relvas, ciente do direito que este tinha ao subsídio, dirigiu uma carta ao Dr. Luís Filipe de Castro Mendes, onde denuncia vigorosamente a situação que fora vivida por Relvas. Pela sua clareza, ironia e expressividade, dela destacamos algumas das partes mais significativas:

Tomei conhecimento do voto de pesar emitido por V.Exa. e difundido pelo seu gabinete a propósito do falecimento do artista Fernando Relvas, meu Amigo de quase 40 anos, razão pela qual me sinto obrigado a dirigir-lhe algumas palavras.

É com muita satisfação que constato que V.Exa. reconhece Relvas como «um dos mais criativos autores contemporâneos de banda desenhada» e «uma referência enquanto artista visual». Apraz-me verificar que V.Exa se deu conta de que o trabalho de Relvas se destacou «pela inquietude e pela originalidade ao longo de mais de quatro décadas de percurso artístico». Gosto de saber que V.Exa tem a noção de que «Fernando Relvas encontrou uma expressividade única e, simultaneamente, experimental em todas as suas obras e acções».

Acontece também que, em 2015, nos tempos finais do governo PPD/CDS de má lembrança, Fernando Relvas, no limiar do desespero económico, venceu o seu natural orgulho de artista e homem livre e candidatou-se ao subsídio de mérito atribuído pelo Fundo de Fomento Cultural. Da aplicação da lei ficou incumbido o ministro da Cultura a quem, através do Fundo de Fomento Cultural, competiria analisar e decidir sobre os subsídios a atribuir.

Em circunstâncias normais, a atribuição desse subsídio a Fernando Relvas não deveria levantar dúvidas. De facto, se «um dos mais criativos autores contemporâneos de banda desenhada» que é também «uma referência enquanto artista visual» que se destaca «pela inquietude e pela originalidade ao longo de mais de quatro décadas de percurso artístico», se um artista digno desta apreciação não tem mérito cultural, não sei quem o terá.

Mas acontece também que essa candidatura ficou perdida nas gavetas, submetida com certeza aos trâmites sempre insondáveis da burocracia. E assim o tempo foi passando, sem que nunca o Relvas tenha tido, sequer, uma resposta do FFC. De uma das últimas vezes que falámos, o Relvas, com o sentido de humor ácido que nunca perdeu, dizia-me: «Devem estar à espera que eu morra.» Tinha razão.

Há mais de um ano, em Outubro de 2016, perante o agravamento da situação (física e económica) do Relvas, e alertado para a candidatura ao subsídio que, mais de um ano depois, continuava sem resposta, alguns amigos que também eram, simultaneamente, do círculo de conhecimentos de V.Exa e do Fernando Relvas, tentaram sensibilizar V.Exa. e os serviços de V.Exa. para a urgência da situação. Esses contactos foram feitos, em várias ocasiões, mas o certo é que entretanto outro ano se passou, e nada aconteceu.
Assim foi, até que o Relvas morreu. E esta foi a única altura em que os serviços que V.Exa superiormente dirige funcionaram com celeridade, na modalidade do supra-citado voto de pesar. É bonito, as palavras são simpáticas, mas chega tarde e não serve para nada.

Deste modo, na qualidade de Amigo que fui, que sou, do Fernando Relvas, agradeço, por boa educação, mas declino, por indignação, o voto de pesar expresso por V.Exa. Do ministro da Cultura de Portugal, exige-se que esteja atento em tempo útil aos artistas e autores do seu país. Palavras amáveis quando morrem de pouco servem, se quem as profere deles não fez caso enquanto vivos.

Por delicadeza e decoro, escuso-me a reproduzir aqui o que, estou certo, o Fernando Relvas diria, se pudesse, ao receber os pêsames e o profundo lamento de V.Exa. Mas V.Exa., vate medalhado, não terá dificuldade em chegar lá, mesmo tratando-se de vocábulos que não fazem parte do léxico culto de V.Exa.
Queira pois V. Exa meter o voto de pesar onde melhor lhe aprouver.
 Ao Relvas não serve nem para papel de rascunho.






Um Comentário a “Verbos-de-encher”

  1. leonel clérigo disse:

    SANTOS DA CASA…NÃO FAZEM MILAGRES?

    Situações como esta de que nos dá conta Carlos Completo, parecem não serem raras. Mas, felizmente, que há outras com destino diferente.

    Quando das últimas Autárquicas me dei conta que a Presidência da Câmara Municipal da Anadia ficou a cargo da Srª Engenheira Teresa Cardoso, eleita “primeira mulher na Presidência da Câmara Municipal”, enviei à nova Presidente um “email” de felicitações acompanhado de uma sugestão onde e dadas as circunstâncias, me parecia ser altura de uma homenagem a uma cidadã anadiense ilustre: Maria da Conceição Tavares, detentora uma obra científica invejável no domínio da Economia além de responsável pela formação de prestigiados economistas e governantes brasileiros.
    Para além disso, Maria da Conceição Tavares “foi forçada” a emigrar para o Brasil – onde vive – no tempo da Ditadura Fascista de Salazar. Também por isso e pelo seu percurso, julgo eu, não é de negar uma justa homenagem a esta emérita anadiense de 87 anos, até porque escasseiam entre nós quem se consegue libertar do nosso endémico “subdesenvolvimento teórico”.
    É minha convicção que não vai suceder a Maria da Conceição Tavares algo de “parecido” ao que sucedeu a Fernando Relvas. Além do mais, talvez a homenagem à emérita professora anadiense, ajude também a “refrescar” por cá as “ideias económicas”, dado que a Anadia se situa num ponto estratégico entre os centros universitários de Coimbra, Aveiro e Porto.

Deixe o seu Comentário