Revolução Soviética . 100 anos

Uma mudança de época

Tom Thomas (*) - Segunda-feira, 4 Dezembro, 2017

RodchenkoO fracasso dos processos revolucionários na ex-URSS e na China, seguido de um rápido retorno ao capitalismo “clássico”, levou alguns ideólogos a proclamar que o capitalismo planetário era o fim da história. A análise da crise actual mostra que é antes a sua história que se aproxima do fim. O capitalismo só pode subsistir, degradando-se, por meios que são catastróficos para as condições de vida dos povos, sem sequer falar da destruição maciça de todas as espécies.
Ao mesmo tempo, as condições materiais para a abolição do capitalismo — portanto, da condição proletária — estão hoje infinitamente mais maduras do que estavam para essas revoluções, inclusive na componente internacional. Senilidade do capitalismo, necessidade vital e possibilidade do comunismo são as características gerais da época presente: uma nova época.

Nas circunstâncias, hoje ultrapassadas, em que o trabalho compulsivo, em quantidade massiva, era uma necessidade absoluta, e não podia ser reduzido dada a imaturidade do desenvolvimento capitalista — os proletários têm no espírito sobretudo a exigência de um melhoria da sua sorte material e não, na maioria, a abolição da sua existência como proletários. Melhoria que o capital pode dar em certa medida por ter possibilidades de ganhos de produtividade. Esta situação dá sustento a duas ideias: a de que uma tal luta “reformista” compensa, e a de que a ocupação do Estado pode permitir arbitrar o conflito de interesses sobre a repartição das riquezas. Esta orientação marcou a maior parte do movimento operário do século XX, mesmo quando se reclamava do comunismo.

Mas, seja qual for a opinião sobre o movimento operário dessa época, não se pode negar que as circunstâncias do século XXI são completamente outras — caracterizadas pela diminuição drástica da quantidade de trabalho proletário e pela estagnação do crescimento capitalista.

Ou seja, as condições são hoje tais que a luta “tradicional” dos proletários pela melhoria da sua condição, ou mesmo para obter um emprego, esbarram contra o muro de um capitalismo senil. O que não quer dizer que não devam ser travadas. Mas é preciso ter consciência de que, enquanto os proletários permanecerem na ilusão de que uma solução para os desastres que sofrem poderá vir do Estado, da pressão que possam exercer sobre ele pelo voto, manifestações ou mesmo greves — mais não conseguirão do que resistir assim-assim às necessidades de valorização do capital, a qual implica, inevitavelmente, a degradação drástica da sua condição de trabalhadores.

A luta dos proletários só pode desenvolver-se positivamente se tirarem todas as consequências das circunstâncias da época actual. É preciso pois decretar o fim do velho movimento operário, já anunciado em certas lutas dos anos 68 e seguintes e confirmada pelas derrotas sofridas nos anos Thatcher, Mitterrand e Cª.
Decretar a nova situação é começar por romper com a velha ideologia de que o Estado poderia colocar o capitalismo ao serviço do “humano”. Há que tomar consciência de que não há nada a esperar de uma luta por mais crescimento do capital, na esperança de que daí resultem mais empregos proletários.

A luta sempre necessária para arrancar aquilo com se vive tem de ser independente da quantidade e trabalho proletário que o capital pode fornecer, independente dos altos e baixos do crescimento económico, independente das formas legais da dominação burguesa, mesmo quando se pretendem democráticas, afrontando o Estado em vez de esperar dele a salvação.
É sobre estas bases gerais que os proletários podem colocar a primeira pedra da construção do seu poder: organizar-se em força independente face e contra a força da classe burguesa: o Estado. O contrário do que propõem os ideólogos do socialismo vulgar.

A escolha do socialismo vulgar

A expressão “socialismo vulgar” empregue por Marx, designa um socialismo capaz de denunciar certo número de taras, desastres e iniquidades da sociedade, mas incapaz de ver as causas na relação de apropriação capitalista, incapaz portanto de dar remédio.
É um socialismo que desvia os proletários que influencia da actividade revolucionária dando-lhes a miragem de um “bom capitalismo” verbal, promessa de um Eden de bem estar material.

Os anos próximos exigem uma escolha crucial. Se a maioria do movimento proletário escolher ficar pelas tradicionais reivindicações reformistas-estatistas, então isso conduzirá ao mesmo tipo de catástrofes que já conheceu, como na crise dos anos 30. Mas para pior porque a crise de hoje é bem pior.
Esta via pode conduzir a um triplo resultado. Um, o crescimento de medidas proteccionistas, o aumento da concorrência entre nações e grupos de nações, e entre os proletários. Tudo isto levando às “uniões sagradas” e às guerras segundo uma engrenagem bem conhecida e infelizmente experimentada. Dois, agravamento das condições de trabalho e de vida dos proletários e ainda das camadas populares e médio burguesas. Condição esta incontornável para o capital tentar, mesmo sem resultados práticos, dar de novo algum vigor ao crescimento. Três, em consequência, agravamento dos conflitos de todos os géneros e do seu nível de violência. O que só pode ampliar a tendência já em curso de desenvolvimento de Estados abertamente ditatoriais.
Em conjunto, isto significa o esmagamento dos proletários e a sua destruição aos milhões.

A escolha do comunismo

Um dos pontos que distingue radicalmente a posição comunista da do socialismo vulgar, é que ela não se baseia na ilusão dum crescimento do capital, que permitiria, alegadamente, melhorar não só o emprego mas também a condição dos proletários. Pelo contrário, a posição comunista denuncia-a e propõe, ao invés, diminuir a quantidade de trabalho proletário, mais ainda que o capitalismo já fez e continua a fazer, mostrando a sua imperiosa necessidade e possibilidade.
A luta imediata por um nível de vida decente, o mais elevado que permita a relação de forças, independentemente da valorização e do crescimento do capital ou da quantidade de trabalho que ele possa empregar, é a única que os proletários podem conduzir se não quiserem ser triturados pelo capital.

Hoje, a primeira actividade livre dos proletários é organizar-se num partido comunista novo, em ruptura com os do velho movimento operário. É uma necessidade urgente.
A compreensão da situação do movimento histórico do capital, das possibilidades e dos limites que contém, é uma das duas qualidades essenciais de um partido comunista como “vanguarda”; a outra é a actividade prática dos seus membros na luta revolucionária, consagrando-se a ela.
Se, no plano da teoria, os comunistas têm, como dizia o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “a vantagem sobre o resto do proletariado duma compreensão clara das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário” é porque “as suas concepções teóricas (…) são apenas a expressão geral das condições reais duma luta de classes existente, dum movimento histórico que decorre sob os nossos olhos”.

É este o papel de “vanguarda” do partido comunista, tantas vezes denegrido porque confundido com uma espécie de “Guia Supremo”, de Pai dos Povos, venerado e infalível, a que se teria de obedecer porque “ele é que sabe”. O partido comunista só é “vanguarda” na medida em que é revelador e catalisador do movimento histórico real.

(*) Extractos de Necessidade e possibilidade do comunismo, Tom Thomas, Éditions Jubarte, Paris, 2013.
Ver http://www.demystification.fr/category/blog/






Um Comentário a “Uma mudança de época”

  1. leonel clérigo disse:

    DUAS REALIDADES: O “NORTE” E O “SUL”

    Quem olha hoje o mundo procurando compreendê-lo, uma das questões centrais com que de imediato se depara, é a crua constatação da existência de um pequeno conjunto de países designados “Desenvolvidos”, “Industrializados” e onde a grande parte da sua população – apesar das “manchas de pobreza” lá existentes – vive de acordo com um conjunto de padrões de vida que se considera “razoável” para os tempos de hoje. E tanto assim é que a maioria do resto do mundo – “Subdesenvolvido”, “não Industrializado” com uma maioria populacional que roça uma vida de indigência e fome – o entende assim e, por isso, pressiona a “salto” a emigração para aquele “mundo privilegiado” na esperança de alcançar uma vida melhor.

    Esta dupla realidade insofismável tem, naturalmente, consequências na “teoria” e na “ideologia” que hoje se nos apresenta e é assim que os “privilegiados” – como sempre – parecem preferir optar pelo velho aforismo “quem está bem deixa-se estar”, enquanto os inúmeros “deserdados da sorte” optam por outro: “a fome e o frio põe a lebre a caminho”.

    É certo que se pode dizer que a realidade das classes sociais que divide as sociedades, nos mostra “exploração em todo o lado” e é isso bem verdade. Mas também parece ser verdade que, tal como se diz que “uns são mais iguais que outros”, também se pode dizer “que uns são mais explorados e miseráveis que outros”. E é neste sentido que, pessoalmente, posso afirmar que preferia ser “operário” na Dinamarca do que o ser no Zimbabwe.

    Mesmo na célebre e “democrática” Comunidade Europeia e apesar da generalizada “exploração capitalista do trabalho alheio”, isso não evita que se diga que há uma grande “diferença” entre as sociedades Grega, Espanhola, Portuguesa, Irlandesa… – “periferias” subdesenvolvidas da Europa – e a Suécia, Alemanha, Holanda e até França. Os europeus do Norte que cá passaram a viver com suas “reformas”, vêm aproveitar o Sol, a pacatez provinciana, a “vida barata” e não “bulir” sob as ordens dos analfabetos “rentistas” lusos tipo Saraiva da CIP, hoje “disfarçada” em CEP para ocultar as “incapacidades” congénitas da burguesia Tuga.

    Naquele célebre debate sobre a “troca desigual” – anos 60 – esta questão tomou forma aguda quando o grego Arghiri Emmanuel “partiu a loiça” e levou ao centro do debate – infelizmente colocado por muitos debaixo do tapete – a “realidade” de “um proletariado explorador” – o proletariado do “Norte desenvolvido” – e do seu percurso “deslizante” rumo à aliança “social-democrata” com seu patronato capitalista e da qual a Internacional Socialista foi sua fiel depositária.

    Tudo isto julgo ter todo o interesse nos tempos que correm: como diz Tom Thomaz “a luta dos proletários só pode desenvolver-se positivamente se tirarem todas as consequências das circunstâncias da época actual.” Mas é aí que reside o busílis da questão. Em primeiro lugar, há que passar a ter sempre presente as duas reais “existências” do proletariado e que já não podem ser escamoteadas face à realidade da duvidosa “oposição” do “Norte” à onda migratória de assalto ao Mediterrâneo. Em segundo lugar, a sua aceitação passiva do mundo do Prof. Pangloss onde nem sequer já ressoa qualquer eco “crítico” do Cândido final: “É preciso é cultivar o nosso jardim.”

    Julgo e salvo melhor opinião, que Tom Thomaz parece, por vezes, não tirar as devidas consequências deste facto: a realidade do “mundo subdesenvolvido” do “Sul” e como diziam Marx & Engels nos textos sobre a Ibéria “periférica”, não fez surgir “uma forte classe operária” fruto de “uma Industrialização que se não fez”. E se a realidade é aqui outra, os desejos “nortistas” não vingam cá no “sul”, pela simples razão da sua própria “especificidade” que exige um “outro olhar”. E sem descortinar hoje essa “especificidade”, podemos deslizar novamente para o “Eurocentrismo” ou seja, voltarmos a tropeçar num caminho que já foi percorrido.

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