A Catalunha e a “democracia” espanhola

Pedro Goulart - Sábado, 23 Setembro, 2017

catalunha_manifO comportamento do governo de Madrid, dirigido por Mariano Rajoy, e com a cumplicidade dos outros partidos espanholistas assim como dos média do sistema, face à vontade dos catalães decidirem em referendo sobre a sua independência, é mais uma demonstração de como os dirigentes da democracia burguesa são capazes de recorrer a todos os meios, mesmo ilegais ou ilegítimos, quando são postos em causa os seus interesses de classe.
Sob a capa da legalidade, a 12 dias do referendo para a independência da Catalunha, e servindo-se do aparelho jurídico burguês do estado espanhol (o mesmo aparelho que foi usado para a repressão dos militantes independentistas bascos e suas famílias) o governo de Madrid desencadeou uma vasta operação repressiva sobre a região, que nos faz lembrar velhas acções autoritárias do estado centralista sediado em Madrid.

Recordamos que após um conselho de ministros extraordinário, Mariano Rajoy avisara, ameaçador, que esse referendo não se iria realizar e ninguém iria vacilar na hora de cumprir o seu dever, isto é, de exercer a repressão do estado espanhol. E, pouco depois, a previsível caução do Tribunal Constitucional ao governo de Madrid, anunciando ter suspendido a Lei do Referendo aprovada pelo Parlamento da Catalunha.
Que rica democracia!

O aparelho repressivo do Estado espanhol realizou agora buscas em três ministérios da Generalitat: Economia, Negócios Estrangeiros e Presidência. O objectivo indicado seria investigar o envolvimento destas entidades na organização de uma consulta popular, dita ilegal, pela independência da Catalunha. E as detenções, ao todo 16, aconteceram, na sua maioria, antes que os visados chegassem aos locais de trabalho. Foi o que aconteceu com os 13 responsáveis da Generalitat, membros dos departamentos de Economia, Presidência, Exteriores e Governação.
Ao longo do dia da investida governamental de Madrid, registaram-se vários momentos de tensão entre a polícia e os manifestantes mobilizados diante do Departamento de Economia da Generalitat ou em redor da sede CUP (Candidatura de Unidade Popular), um partido de esquerda que, somado aos deputados da coligação Juntos pelo Sim (Esquerda Republicana da Catalunha mais Partido Democrata Europeu Catalão), constitui a maioria independentista no parlamento catalão.

Durante a intervenção da Guardia Civil, o presidente da Assembleia Nacional Catalã usou o Twitter para apelar à resistência pacífica. E, no início da noite chegaram a estar várias dezenas de milhares de pessoas concentradas no centro de Barcelona, entre a Gran Via e a Praça da Catalunha, para defender a Generalitat e o direito ao voto. Também noutras localidades da Catalunha e Estado espanhol (no País Basco, na Galiza, na Andaluzia, nas Astúrias ou em Madrid) realizaram-se manifestações de solidariedade com o povo catalão. Mesmo daqueles como os que recentemente gritavam em Madrid: “Isso não é um acto pela independência, mas sim um acto pelo direito do povo catalão a decidir sobre seu próprio futuro”. E começam agora a desencadear-se manifestações de solidariedade internacional com o povo da Catalunha.

Para o presidente catalão “o estado de emergência está em vigor”na Catalunha e a “autonomia já foi suspensa”. A escalada aumenta. Para o próximo domingo, estão marcadas mobilizações diante de todos os municípios catalães. E uma semana depois, segundo Puigdemont: “Levaremos o boletim de casa e iremos votar”.

Não confundindo a vontade de autodeterminação popular com os interesses e os jogos da burguesia catalã, manifestamos a nossa solidariedade com o direito à expressão do povo da Catalunha, assim como apoiamos o direito à independência de todos os povos.






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