Jornalismo livre?

Carlos Completo - Quarta-feira, 2 Agosto, 2017

caesO tipo de tratamento que alguns órgãos da comunicação social deram aos dolorosos acontecimentos recentes em Pedrógão Grande foi pretexto para a vinda a lume de fortes críticas a parte do jornalismo que hoje se pratica em Portugal. Ecos de falsos suicídios e manchetes sobre listas ampliadas de mortos tiveram grande repercussão na comunicação social, causando grande indignação mesmo até entre muitos dos que ainda acreditavam na independência e seriedade de órgãos da comunicação social como o Expresso do dr. Balsemão. Já não falamos sequer de notícias veiculadas por pasquins como o CM, SOL ou i.

Sobre as duras críticas a algum do tratamento jornalístico dado a estes acontecimentos, Filipe Santos Costa, indignado, fala de ódio ao jornalismo livre e dá como exemplos desse ódio os ataques ao Expresso e ao Observador. Como se um Ricardo Costa, um Bernardo Ferrão, um Henrique Raposo ou um José Gomes Ferreira, dirigentes e colaboradores daquele grupo, fossem um exemplo de jornalismo minimamente sério, dignos de ser defendidos! E, do Observador, basta consultar a lista de colaboradores deste órgão para ficarmos conversados sobre a isenção desta gente. Lá encontramos, entre outros: José Manuel Fernandes, Alberto Gonçalves, Portacarrero de Almada ou Helena Matos. Enfim, o jornalista Filipe Santos Costa defende mal as suas damas, oferecendo maus exemplos de isenção jornalística.

Nalgum tipo de tratamento jornalístico dado ao caso de Pedrógão Grande (independentemente das responsabilidades objectivas dos dirigentes do actual sistema económico e político português) misturou-se uma espécie de concurso de audiências com o ódio visceral à “geringonça”, simultaneamente com a obrigação dos jornalistas entregarem lucro ao patronato. Certamente que o dr. Balsemão, assim como os outros capitalistas e os grupos económicos detentores dos chamados órgãos de comunicação social, não são beneméritos que andem a gastar dinheiro e a pagar salários para termos um jornalismo livre e independente. A informação e as opiniões veiculadas pelos média do sistema são, em geral, marcadas pelas classes dominantes. A ingenuidade devia ter limites, pois a má-fé não tem!






3 Comentários a “Jornalismo livre?”

  1. leonel clérigo disse:

    ESTOU “LIVRE”!…LEVE-ME AO ESTÁDIO DA LUZ!…

    Este pequeno “trecho” que faz parte duma bela “rábula” de Raúl Solnado (História da minha vida), só é comparável à ficção da “Liberdade” na Sociedade Capitalista, uma outra rábula que teima em permanecer como “verdade universal” e que só um falso “distraído” – e com muita “lata”… – pode acreditar isso existir numa sociedade que trás no seu ADN a “exploração do trabalho alheio”.

    1 – Ainda não há muito tempo atrás, numa conversa longa que tive com o saudoso João Mesquita, julguei aperceber-me das “transformações” que se preparavam na Imprensa (e não só: em toda a Comunicação Social em Portugal). Homem inteligente e atento ao seu “tempo”, o seu ofício de Jornalista (com suas vicissitudes “finais” no “Público” do Director José Manuel Fernandes) mais a sua passagem pela Presidência do Sindicato dos Jornalistas, deram-lhe a possibilidade de ver mais longe do que um simples mortal como eu. Nessa conversa amena – entre duas “cervejolas” – aprendi muito do pouco que sei sobre o que parecia poder vir a ser o futuro da Comunicação Social. E posso dizer que do que lhe ouvi e do que hoje aprecio, ele acertou em cheio.

    2 – Em minha opinião modesta, muito da crítica que se faz aos jornalistas “em si” (o próprio nome parece ser já hoje uma “sobrevivência” inadequada) da Comunicação Social, só numa parte me parece justa: a que diz respeito à postura face à “honestidade” pessoal, intelectual e profissional”. Quanto ao resto – e não é pouco – é preciso ter presente que os jornalistas não são o “patronato” do “ramo”, os “donos” do Monopólio. Claro que há os jornalistas “prima-donas” que, por “posição” e ideologia, ocupam “lugares-chave” nos “braços armados” dos “patrões”. Mas isso não é surpresa: em todo o lado há dessa gente.

    3 – Esta “nova situação” – para além da influência das “tecnologias .com” – deve-se essencialmente ao Neo-liberalismo, uma ofensiva “total” e bem definida, logo no seu início, por M. Thatcher: “Não há alternativa!” o que englobava já a “experiência económica” do golpe de Pinochet no Chile como resposta à grande “crise cíclica (de Kondratieff)” do final dos anos 60. Dessa “totalidade”, fazia parte – como peça decisiva para o dominio das “mentes” forçadas agora a “esquecer” (com a crise do Capital) os “anos dourados” do Estado do “Bem-estar”- a “Comunicação Social” centralizada pela monopolização, com o objectivo de “assegurar” o ficcionado “pensamento único”. Na estrutura do poder na Comunicação Social isso vai ser bem visível e o papel de domínio coordenado das “centrais de informação” é “thatcherismo” puro. Disto, julgo, o grupo profissional dos jornalistas vão ser também vítimas.

    4 – Mas em tudo isto, há uma questão “prática” curiosa: face ao apodrecimento visível da Comunicação Social capitalista – a sua perda de influência é notória assim como suas “invisíveis” falências – e à contestação crescente que já se “ouve”, a Burguesia Capitalista não está a arriscar-se a “matar a galinha dos ovos de oiro”?
    Não!…se continuar a imperar na Comunicação Social – como em tudo – a formula “thatcheriana” do “Não há alternativa!”. De facto, não se percebe muito bem e face ao “vazio existente” que a Comunicação capitalista já dá mostras, porque não existe um “simples” “orgão” que seja – pelo menos – uma “alternativa diferente”…A “frente única” – ao contrário do que alguns “descrentes” pensam – tem inúmeras possibilidades…

  2. afonsomanuelgonçalves disse:

    Sobre a situação da imprensa em geral, incluindo TV, rádio, jornais e revistas que se amontoam em todos os escaparates das livrarias e nos quiosques das diversas avenidas cuja atração de centenas de criaturas pelas vidas íntimas e privadas dos seus ícones reflectidos em si próprias fazem as delícias das ansiedades reprimidas das gentes que de ansiedades têm sobretudo a angústia de uma vida difícil e por vezes insuportável. O jornalismo português que não informa, não esclarece e distorce a realidade contribui para este drama cultural e consciente que leva a sociedade à degenerescêncial e quase à demência irreversível. Afinal quem são na sua maioria os jornalistas que escrevem ou comentam os acontecimentos hoje? Julgo que a maior parte não passam de mercenários ao serviço das redações que lhes impigem o que têm a dizer. O público que os ouve (uma minoria paciente e acrítica torna-se a voz do dono e começa a pensar com os ouvidos). Desta fatalidade comunicacional não sairemos tão cedo e bem podem os contestatários continuarem na luta pela isenção da verdade e objectividade, porque isso é uma coisa que eles também não percebem muito bem, ou por outra percebem até muito mal, mas o importante é estarem convencidos que percebem.

  3. leonel clérigo disse:

    O PRÓ-IMPERIALISMO DA TV PORTUGUESA E SUAS MÁS CONSEQUÊNCIAS

    Não resisto a colocar aqui mais um comentário a propósito da “nossa” “Impressa Livre”.

    Ontem, dia 4 ao fim do dia, abri a TV na SIC do “patriota” pró-imperialista Francisco Balsemão, visto que um acontecimento “único” e anunciado se ia ali passar: um “debate” frente a frente sobre a Venezuela e onde um dos intervenientes era Agostinho Lopes do PCP.
    Confesso, no entanto, que a determinada altura das “paixões” argumentativas, fiquei assustado: instalou-se-me a convicção que a entrevistadora da SIC – mais o seu auricular – se iria levantar e dar uma dentado no pescoço do Agostinho Lopes transformando-o em vampiro.
    Felizmente isso não aconteceu. Mas fiquei tão impressionado que só adormeci às 5,30 da manhã com dois “Valium” em cima do “pelo”…

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