O PCP reflecte sobre o socialismo

António Louçã - Domingo, 18 Junho, 2017

SeminarioPCPNum seminário realizado em Lisboa, no fim de semana de 17 e 18 de Junho, o PCP debruça-se sobre a actualidade de um projecto socialista, a cem anos da Revolução de Outubro. Em entrevista ao “Público”, o “ideólogo comunista” Albano Nunes produz uma afirmação de aparência inovadora sobre a visão que o partido tem do regime socialista: “Nós não defendemos o regime de partido único”.
Mas a explicação que antecede esta frase dá-nos uma ideia mais precisa sobre o pluripartidarismo admitido pelo PCP para o regime socialista: “O Partido Comunista tem de ter um papel dirigente, naturalmente ao lado de outras forças políticas, como o nosso programa estabelece”.

Na verdade, em alguns países do Pacto de Varsóvia, existiu este tipo de pluripartidarismo. De cor, podemos citar os exemplos da RDA, da Polónia, da Roménia. Só na RDA, existiam quatro partidos (democrata-cristão, camponês, liberal e nacional-democrático), além do partido dirigente, SED, resultante da fusão entre estalinistas e social-democratas.

Angela Merkel recebeu as primeiras lições da sua carreira política como jovem democrata-cristã da RDA. O que ela nunca pôde fazer, nem nenhum dos outros partidos tolerados nos regimes do Leste europeu, foi apresentar-se como candidata em eleições pluripartidárias. A sua tarimba política, Merkel fê-la a propagandear o Governo do SED e o Muro de Berlim. Aqui está, portanto, uma ilustração do que Albano Nunes entende por “papel dirigente” do Partido Comunista.

Mas, se o PCP prefere este pluripartidarismo sem eleições, também não é esquisito nem sectário, e encontra justificações para um regime de partido único, puro e duro, que é por acaso o garante político de uma lei da selva ultra-liberal no domínio da economia: o actual regime chinês. Entre essas justificações está a de ser preciso “desenvolver as forças produtivas para, depois, sobre elas assentar a construção da nova sociedade”.

Um dos motivos para este carinho do PCP pelo regime chinês encontra-se no facto de que “o maoismo na sua essência esquerdista, cisionista, foi abandonado”. Depois desse passado maoista, “extremamente prejudicial ao Movimento Comunista Internacional e à revolução portuguesa”, tudo parece tolerável. No presente, só existem “interrogações e contradições”.

O massacre de Tien Anmen, os salários miseráveis do proletariado chinês, a expansão internacional do capital chinês (de que a EDP em Portugal é apenas um minúsculo exemplo), a opressão do Tibete e as contínuas provocações contra o Vietname, o corredor da morte como banco de órgãos para o mercado dos transplantes, a censura da internet – tudo isso e muito mais são apenas “contradições que observamos com a máxima atenção” num “processo de desenvolvimento das forças produtivas e da inserção da China na divisão internacional do trabalho”.

Depois de ter idolatrado o regime soviético, o PCP branqueia agora o regime chinês. É andar de cavalo para burro.

O regime soviético, intolerável para os povos da URSS, teve pelo menos o efeito colateral de pressionar o imperialismo a fazer concessões aos proletariados ocidentais. Entre outros factores mais decisivos, ele contribuiu para que os regimes imperialistas do pós-guerra tivessem de organizar um “Estado-providência” e tivessem de apresentar como montra resplandecente do capitalismo a chamada “economia social de mercado”.

Quando algum trabalhador ocidental manifestava simpatias pelo comunismo, a propaganda ocidental replicava, apontando as regalias existentes: “Aqui vivemos melhor”. Hoje, se algum trabalhador ocidental defende o seu salário, o pensamento único neo-liberal replica, apontando para a China: “Lá ganham pior”. Os efeitos colaterais do regime chinês, que o PCP envergonhadamente justifica, são, se possível, mais nocivos à luta emancipatória no ocidente do que foram, em seu tempo, os da URSS.






2 Comentários a “O PCP reflecte sobre o socialismo”

  1. afonsomanuel61@hotmail.com disse:

    Ao ler a entrevista de A. Nunes, salta à vista com facilidade a forma como o autor ignora sem pestanejar o problema do revisionismo soviético, coisa que para ele, pelos vistos, nunca existiu. Existiu sim o «esquerdismo maoista» embora não revele factos pobatórios, “esquerdismo” esse que levou Mao a formar uma aliança com o Kuomintang na Guerra contra o Japão. Em contra -partida o muro de Berlim também nunca existiu e o bombardeamento sobre Budapeste não passou de um erro aceitável “erro de cálculo”. Se na década de 40 a Jusgoslávia tivesse sido bombardeada pela força aérea soviética a propósito da política do renegado Tito, os legítimos defensores dos oprimidos teriam feito caír o carmo e a trindade mas como nada disso aconteceu, ficou tudo em águas de bacalhau, Louçã aproveita a embalagem do crítico da esquerda para reforçar o ataque à China ainda maoísta com as provocações sobre o Vietname. Como sabemos o Vietname nessa altura entrou militarmente no Cambodja e derrubou sem apelo nem agravo o governo de Pol Pot depois de ter expulso do seu território em aliança com o Príncipe Shianhouk o exército americano. A China sem intervir foi levemente ameaçada e também resolveu penetrar em território fronteiriço vietnamita tendo retirado dois ou três dias depois. Finalmente Louçã considera sem provar que a alternativa de Keines se deve em parte aos grandes resultados da política soviética depois do grande triunfo do exército Vermelho sobre o nazismo. Talvez tenha razão porque os êxitos económicos do povo soviético foram, nessa altura, deslumbrantes.

  2. leonel clérigo disse:

    DIGA A VERDADE E SAIA CORRENDO
    Provérbio Iugoslavo

    Quando, em pleno Parlamento Italiano, Mussolini tentou definir o fascismo como uma “revolução”, recebeu do deputado marxista Gramsci uma sábia resposta: o fascismo não é nenhuma revolução, mas uma “simples substituição de um pessoal administrativo por outro. Só é revolução aquela que se baseia em uma nova classe; o fascismo não se baseia em nenhuma classe que já não esteja no poder”.

    1 – Se aplicarmos esta concepção de Gramsci ao 25 de Abril, somos forçados a admitir que este, afinal, não se saldou numa “Revolução”: quanto muito, foi uma tentativa “falhada” de Revolução. A burguesia capitalista portuguesa apenas mudou o seu “pessoal administrativo”: aos “fascistas”, sucederam-se os “democratas” e, no essencial, tudo continuou por fazer, salvo a “cosmética” exigida pela “Europa desenvolvida”, condição essencial para lá entrarmos. Para não se dizer que sou um azedo “maldizente” de “extrema-esquerda”, poderia encher aqui uns valentes parágrafos com “justificações” de gente que ocupou lugares como “pessoal administrativo”. Mas basta-me referir aqui o “desiludido” sociólogo António Barreto – ele próprio ministro da Agricultura” – o próprio Mário Soares – com alguns dos seus últimos “desabafos” – assim como a escandalosa permanência do poder do corpo da “justiça do passado”.

    2 – Os velhos problemas estão, assim, todos por resolver, encaixotados na Torre do Tombo. Depois do “fogacho” dos Descobrimentos o vírus da decadência atacou-nos aos poucos mas de modo sistemático. Por “fim”, Salazar teve, durante 50 anos, o beneplácito da Nação ao “prometer”, a uma burguesia apodrecida e oca, que era o “homem certo no lugar certo” e destinado a “aguentar” um Império já cadáver. Efectivamente, a sua “imagem de marca” condizia com um fascismo “muito especial”, adaptado à realidade portuguesa: enquanto os “outros” lutavam por “impérios” – novos ou a recuperar – o nosso “botas”, com seu casaco preto, calças à “Definitivos”, chapéu “à diplomata” – a sua “missão fascista” não impunha farda de “cabo de guerra” como aos outros – e manhas de jesuíta em “falar doce”, diferenciava-se – da Alemanha ao Japão, da Itália à Espanha – por não querer conquistar “coisa nova imperial” mas apenas “defender o que já tinha”. Por isso, o “jogo” táctico preferido de Salazar revela muito da alma “portuga”: conciliar com “manha” em vez de “arreganhar” o dente ou seja, fazer “dominó para os dois lados” e não enfrentar a coisa de frente. Salazar “dava” aos “aliados” os Açores para a “Batalha do Atlântico”, enquanto o faroleiro do Espichel fazia “sinais de luzes” aos “vasos” alemães que vinham abastecer-se, pela calada da noite, à Costa da Galé.

    3 – As “tarefas” que, em “banho Maria”, há anos são necessárias levar a cabo pelos portugueses, são muitas e duras, se é que nós estamos decididos a não ser uma “Nação pária” e a cair de podre. Por tudo isto, julgo que as preocupações – justas – de António Louça com a “democracia” na China e na Rússia, não são a “nossa prioridade”. E isto porque o que eu “vejo” é que, apesar de tanto “discurso democrático”, estamos afogados em dívidas e não conseguimos sair da “cepa torta”. Tudo ao contrário dos chineses que, mesmo com o massacre de “Tien Anmen”, a expansão do capital chinês, a opressão do Tibete, as provocações ao Vietname, o corredor da morte, a exploração do proletariado,…eu sei lá!…já não são os mesmos que há 20 anos atrás: é aos chineses que nós andamos a “pedinchar” e não o contrário. É sobre os chineses que cai agora a “palavra incendiada” que revela por detrás o “susto” originado pelo seu poder económico crescente que promete “crises agudas” e muita “América first”.
    O que nós precisamos é de “cuidar” da nossa “pele” e, quanto aos outros, já todos têm idade para se “desenrascarem” por si: não precisam de “paus de cabeleira”. Cada um que trate de si e depois…Deus – se existe?… – acabará por tratar de todos os seus filhos.

    4 – Resumindo, o que eu julgo é mais ou menos isto: passar a pôr em cima da mesa os nossos graves problemas reais para os tentar resolver. É evidente que há por aí alguns “malandrecos” que “adoram” derivar: enquanto se fala dos “venezuelanos” não se fala “deles” e do que “fazem” – ou não fazem…
    Foi mesmo o “cavaquista” Álvaro Bissaya Barreto que “acabou com a agricultura”? E quem foram os “amigos” de Assunção Cristas – e de Passos – que infestaram o país de eucaliptos?…E quem acabou com as “pescas” e em nome de quê?…Quanto à Indústria, já estou como o saudoso Vasco da Gama Fernandes: “Esperem aí um pouco que eu vou ali e já volto…”

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