Em memória de Alípio de Freitas

Quarta-feira, 14 Junho, 2017

Alipio_flipMorreu Alípio de Freitas. Nos seus 88 anos de vida podem contar-se várias vidas. Nascido em Trás-os-Montes, foi padre. Viajou para o Brasil e empenhou-se, ainda como sacerdote católico, na luta dos pobres. Passou pela URSS e por Cuba. Regressou ao Brasil depois de 1964, já não como padre, e integrou a luta amada contra a ditadura. Foi preso em 1970 e torturado. Após 9 anos de cadeia, foi libertado na condição de apátrida. Rumou a Moçambique para junto dos camponeses pobres. Regressado a Portugal em 1983, participou nas acções populares e nas lutas da esquerda. Integrou, desde 2004, a Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque.
No início deste ano, inúmeros amigos prestaram-lhe homenagem na forma de um livro — “Palavras de Amigos” (*) — com mais de uma centena de depoimentos. Como evocação do lutador incansável, deixamos aos leitores o texto em que Alípio de Freitas, nesse mesmo livro, conta em traços largos a sua própria vida.

Alípio de Freitas por ele próprio

«Alípio de Freitas, mais propriamente Alípio Cristiano de Freitas.
Nasci em Bragança, Trás-os-Montes, nos contrafortes da Serra de Montesinho, em 1929. O meu pai era funcionário público dos CTT, a minha mãe, mulher de grandes qualidades (e grandes ambições) era apenas dona de casa. Frequentei a escola primária na Escola da Estacada, sendo meu primeiro mestre o Professor Pires. Fui logo matriculado na 2.ª classe, pois, quando cheguei à escola oficial, já sabia ler, escrever, e fazer contas.

Ensinou-me a minha mãe, embora quanto a ler, acho, até hoje, “sempre soube fazer”. A oficina de ferreiro do Alfredo, na rua do Loreto, era em frente à minha casa. Como trabalhador, andarilho e militante frequentei outras escolas que não a da Estacada e do Abade Buíça (Vinhais) e tive outros professores: as oficinas de ferreiro e mecânica do Alfredo e do “seu” Manuel Brasileiro, e ainda “as lições particulares” do tio Baptista e do Tita. Todos tiveram grande importância naquilo que foi a minha vida, cada um a seu modo e a todos recordo, ainda hoje, com uma saudade que dói.

Na oficina do Alfredo eu passava todo o meu tempo disponível, vestindo uma bata de ganga e calçando umas botas grossas. Lá, eu fazia tudo o que a prudência do Alfredo permitia: puxava o fole da fornalha, deitava carvão, arrumava as ferramentas e via o que ele fazia e “como” o fazia e, mais do que tudo, ficava atento às conversas que as pessoas tinham com ele, quando chegavam para consertar ferramentas, ferrar carros de bois ou arados.
Tudo gente pobre, que trabalhava de sol a sol e, mesmo assim, vivia mal. Também ia para a oficina mecânica do “seu” Manuel Brasileiro. Também de bata de ganga e botas cardadas, “ajudava-o” ou ficava a ouvi-lo falar do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro.

Quando ele começava a falar do Brasil comigo, parava o que estava a fazer, limpava as mãos num trapo, puxava um cigarro Kentucky e falava de ficar comovido. Perguntei por que tinha voltado. Respondeu-me apenas: “P’ra me casar”. Puxou uma fumada forte e disse-me: “Quando puderes, vai p’ra lá, deixa esta miséria, aqui. Faz como o teu tio Guilherme, que é rico, feliz, até já é doutor. Nem que fosse p’ra morrer, eu queria voltar lá.”

O tio Baptista era uma pessoa singular. Sei que, na sua juventude, ele e o meu avô paterno foram muito amigos. Aliás, foram-no sempre. “Menino da Roda” foi acolhido por um casal de camponeses remediados e sem filhos, que dele cuidaram e até lhe garantiram uma boa educação. Quando os seus padrinhos fecharam os olhos, o tio Baptista comprou uma carta de chamada para o Brasil, embarcou no rio Tuela, desceu o Douro e desembarcou em Santos, no Brasil.

Do patrício que lhe vendera a carta de chamada e lhe garantira emprego, nem sombras. Arranjou trabalho lá mesmo, começou a conhecer gente do porto de estiva e a interessar-se pelos seus problemas e, não muito tempo depois, já estava participando de movimentos operários.
Viveu as greves. Veio a repressão e, para não ser preso, tornou-se embarcadiço. Foi o tempo de conhecer o mundo. Até que um dia, em plena guerra civil espanhola, desembarcou em Espanha e juntou-se às forças republicanas.

No final da guerra, regressou a Portugal como se estivesse voltando do Brasil. É então que eu o conheço, na quinta do meu avô. Dele guardo muitas histórias e estórias, muitas, muitas, muitas. Mas agora quero apenas contar esta. Numa noite de céu estrelado, teria eu uns nove anos, ele perguntou-me: “Quantas constelações tu conheces?” Lá lhe fui repetindo o que já tinha aprendido na escola. Todavia, ele foi acrescentando outras e situando-as, como marinheiro que tinha sido. Por fim, disse-me: “Mas há uma que não vem nos livros, a mais importante de todas.” Fiquei calado, à espera que ele ma revelasse. Por fim, disse: “É a constelação da Utopia. É uma constelação de que os livros não falam, nem os telescópios alcançam.”

Continuei a ouvir em silêncio, e ele continuava: “Nessa constelação de muitas, muitas e sempre brilhantes estrelas é que está a memória de todas as pessoas que, desde sempre, e por toda a sua vida, lutaram pelo progresso da Humanidade.” Depois de um demorado silêncio, perguntei-lhe: “E o senhor vai p’ra lá?”. “Trabalho todos os dias para isso”, disse-me.

O tio Baptista ficou por cá até depois do fim da II Guerra Mundial. Um dia, saiu de viajem e nunca mais voltou. Mas muitos viram a sua estrela.
Por exemplo, o Tita, que era camionista. Fazia a viajem entre Vinhais e o Porto, levando e trazendo mercadorias. Todo o mundo o achava um tipo esperto e informado, mas não fazia parte da roda dos aduladores dos “doutores” da vila.

Um dia, já eu estava no seminário, passando junto da porta de sua casa, pediu-me para entrar. Entrei, como já o fizera noutras vezes. Deu-me uns jornais desportivos e, depois, perguntou-me muito sério. “Tu és capaz de guardar segredo?”. Acenei que sim com a cabeça. Então, ele tirou do bolso do casaco um envelope, abriu-o e tirou de lá um jornalzinho! “Está aqui, é para tu leres, só tu, mais ninguém e, depois de o teres lido, pegas-lhe fogo com um fósforo que ele arde num segundo. Lês e queimas e nem o padre a quem te confessas pode saber de nada.” Foi assim que eu travei conhecimento com o ”Avante!”.

Mais tarde, quando ele soube que eu já lia bem francês, foi-me emprestando alguns escritos de Marx, até chegar ao “Manifesto Comunista”. Nunca me falou do PCP , ainda que eu depreendesse que ele deveria ter alguma ligação com ele. Nas minhas opções políticas e sociais, há também raízes nas sementes que ele foi deixando cair na minha alma. Depois que fui para o Brasil, perdi-lhe o rasto. Soube, mais tarde, que se tinha mudado para Setúbal, onde terminou a sua vida de lutador.

Estas foram algumas das portas que se foram abrindo para o meu entendimento do mundo e da vida. Uma outra dessas portas foi também a da biblioteca do seminário, onde encontrei tudo o que poderia e deveria ler, e tudo o que eu podia mas não deveria ler – os livros proibidos ou do índex. Os meus poderes eram, segundo o padre Campos que me nomeou seu ajudante, emprestar e recolher os livros emprestados aos padres professores e manter a biblioteca em ordem. Havia alguns livros, numa estante especial, que só podiam ser entregues e lidos com licença expressa do bispo. Foi aí que encontrei, entre muitos outros, o meu mestre Baruch Spinoza.

Quando tinha nove anos, o meu pai foi transferido para Vinhais e lá fomos nós atrás dele. Terminada a quarta classe, a única possibilidade que eu tinha de prosseguir estudos era entrar no Seminário. Ainda que os objectivos da minha família e os meus não coincidissem, sempre achei que a minha entrada para o seminário foi apesar de tudo providencial. Tudo o que foi a minha vida e o quê hoje sou, começou a se construir ali.

O seminário, apesar de tudo, abriu-me todas as portas por onde eu teria de passar para poder chegar feliz aos oitenta, ter travado todas as lutas que travei e continuar decidido a lutar para realizar a Utopia.

Fui professor, vigário de Rio de Onor e Guadramil, protegi os meus paroquianos camponeses de Deilão que se dedicavam ao contrabando; fui pároco de paróquias de subúrbio em São Luís do Maranhão; lecionei em universidades; organizei associações de moradores de bairros pobres, escolas (que denominei “De pé no chão, também se aprende a ler”); incentivei as organizações estudantis; cooperei na organização de associações de camponeses; fui militante e dirigente de Ligas Camponesas do Brasil; presidente da Liga de Favelados do Rio de Janeiro; fui agitador na Frente de Mobilização Popular; estive como convidado no Congresso Mundial da Paz, em 1962, em Moscovo, e viajei pela antiga URSS e outros países socialistas; relacionei-me com os grandes nomes da cultura e da política.

Em 1962 desliguei-me oficial e publicamente da Igreja Católica, por razões de natureza político-ideológica.
Em 1962, e depois em 1963, fui sequestrado e preso pelo IV Exército em Recife e em João Pessoa (Paraíba), respondi a dois Inquéritos Policiais Militares (IPM). Em 1964, após o golpe militar, na impossibilidade de permanecer no Brasil, exilei-me no México, partindo depois para Cuba. Passado algum tempo, regressei à América Latina, clandestinamente, e, finalmente, ao Brasil.

Aqui, participei da luta armada revolucionária contra a ditadura militar, e percorri grande parte do país, muitas, muitas vezes a pé. Conheci realidades que sedimentaram a minha convicção de contribuir para a construção de um mundo mais justo e solidário.

Fui preso em 1970, torturado, sobrevivi, andei de presídio em presídio, fui condenado em diversas Auditorias Militares, a cerca de 150 anos… Saí da prisão em 1979, como apátrida, pois tinham-me sido cassadas as cidadanias portuguesa e brasileira. Sem trabalho e sem direitos políticos, parti para Moçambique, onde estive integrado num projeto de apoio a organização de cooperativas do setor familiar da agricultura. Foi um tempo muito feliz. Gostei de voltar ao contacto com a terra e os camponeses e, acima de tudo, sentir-me útil, perceber que o meu trabalho e a minha experiência podiam melhorar a vida das pessoas.

Regressei a Portugal em finais de 1983. Em 1984 fui admitido na RTP como jornalista, atividade que exercia desde 1958, sob diversas condições e em distintos lugares e países.

Vivi a ilusão e a desilusão do Alentejo. Voltei para Lisboa para retomar o meu lugar no movimento social e político, e também para lecionar na Universidade Lusófona. Regressei também ao meu mundo, à participação nos Fóruns Sociais, ao MST, às Ligas Camponesas dos Pobres, e nem poderia ser de outro modo, pois, mais do que tudo, sou um andarilho e um agitador social dedicado às causas do povo. A minha pátria é a luta do povo. O meu objetivo de vida a construção da Utopia.»

(*) Alípio de Freitas – Palavras de Amigos, Edições Pangeia, Janeiro de 2017






Um Comentário a “Em memória de Alípio de Freitas”

  1. leonel clérigo disse:

    A minha modesta homenagem a este velho transmontano lutador de causas nobres.

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