Mais dinheiro para a NATO?

Da conversa de Trump à de Azeredo Lopes

Pedro Goulart - Terça-feira, 30 Maio, 2017

NatoBruxelasNa cimeira da NATO, recentemente realizada em Bruxelas, Donald Trump acusou “23 dos 28” países membros desta Organização de não cumprirem as suas “obrigações financeiras”, avisando que 2% do Produto Interno Bruto “é o mínimo” exigível para reforçar a defesa colectiva. E afirmou que tal “não é justo para as pessoas e contribuintes dos Estados Unidos”, salientando que algumas destas nações “devem massivas quantidades de dinheiro dos últimos anos”. Trump referia-se ao compromisso, assumido na cimeira desta organização imperialista, em 2014, de, no espaço de uma década, todos os aliados destinarem 2% do respectivo PIB a despesas militares.

Os EUA pretendem exigir um pagamento proporcional aos países europeus da NATO, escamoteando o facto dos dirigentes norte-americanos, incluído Trump, terem sempre utilizado esta aliança sobretudo em benefício próprio, isto é, com vista a atingirem e manterem o seu objectivo central de dominação económica, militar e política do mundo. E, aqui, os negócios do armamento, nomeadamente dos EUA, não são um factor despiciendo.

Mais. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou que os membros da Aliança concordaram em aumentar a luta contra o terrorismo e em “investir mais e melhor” nesta. A NATO, explicou, vai “aumentar o apoio à coligação para derrotar o ISIS (Estado Islâmico), aumentar a vigilância aérea e partilhar mais informação”, mas sem entrar em combates no terreno. E, sobre o financiamento, Stoltenberg salientou que “todos os aliados devem cumprir” o compromisso assumido em 2014, de acordo a mensagem deixada em Bruxelas pelo presidente dos EUA, acrescentando que os países membros da Aliança se comprometeram a apresentar planos nacionais para a partilha de encargos. Parece que Donald Trump encontrou em Stoltenberg o homem certo que, à semelhança dos seus antecessores, se tem revelado um dedicado capataz dos norte-americanos!

Assim, no calor dos acontecimentos, e sob o pretexto da luta contra o terrorismo e de defesa perante a Rússia, pretendem os governantes capitalistas ocidentais reforçar a NATO, aumentando o seu poder bélico e sacando mais dinheiro ao povo. Os dirigentes e os apologistas da NATO fazem fortes esforços para que os povos esqueçam ou, quando tal se revele impossível, procuram branquear o papel, as responsabilidades e as cumplicidades criminosas dos governantes desta aliança imperialista, pelas chantagens e pelas guerras levadas a cabo, nomeadamente na Jugoslávia, no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, assim como pelos massacres por ela perpetrados em numerosas partes do mundo. E embora as memórias, muitas vezes, pareçam andar ausentes, quem já esqueceu os tenebrosos locais de prisão, tortura e morte das democracias da NATO, como os acontecimentos observados em Abu Graib e Guantânamo?

Simultaneamente com a cimeira da NATO, activistas e pacifistas de diversas organizações participaram numa contra-cimeira, para manifestarem a sua oposição à militarização e como resposta à cimeira que Donald Trump e os líderes da Aliança Atlântica, capitaneada pelos EUA, realizavam em Bruxelas. Cerca de 140 pessoas foram detidas em dois protestos, segundo afirmaram os organizadores das várias iniciativas anti-NATO. Manifestações justas, mas longe das mobilizações e combatividade alcançadas no passado.

Portugal e a NATO

Segundo os dados do relatório da NATO, de 2016, publicado em 13 de Março último, no ano passado apenas cinco países desta aliança imperialista atingiram ou ultrapassaram o objectivo acordado, designadamente Estados Unidos (3,61%), Grécia (2,36%), Estónia (2,18%), Reino Unido (2,17%) e Polónia (2,01%). Nesta lista, Portugal surge na 12.ª posição entre os 28 Estados-membros, ao ter consagrado 1,38% do PIB a despesas na área da defesa.

Apesar de António Costa não ter estado presente na conferência de imprensa que se seguiu à cimeira, aí compareceram os ministros dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, e da Defesa, Azeredo Lopes, indicando este, de modo claro, que “a posição portuguesa, expressa pelo primeiro-ministro, foi a de que Portugal honrava evidentemente todos os compromissos assumidos e obrigações internacionais”. Azeredo Lopes acrescentou ainda que está a ser elaborado um plano português para cumprir estes compromissos e “esperar que na reunião de Junho de ministros da defesa da NATO já haja algumas ideias um pouco mais claras sobre o assunto”.

Será que António Costa vai resistir às ordens de Trump ou, seguindo o exemplo dos governantes seus predecessores (vg Durão Barroso e o seu papel criminoso na guerra do Iraque) vai ceder aos amantes e fautores da guerra (internos e externos), esbanjando mais dinheiro com a NATO? Já não ousamos falar sequer em o actual chefe do governo português poder ter a clarividência, a humanidade e a coragem de se afastar daquela aliança imperialista.






2 Comentários a “Mais dinheiro para a NATO?”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    É do conhecimento dos povos que a célebre OTAN foi constituída pelos países capitalistas desenvolvidos sob a égide dos Estados Unidos para fazer frente ao perigo comunista que ameaçava o “globo terrestre” e só em 1955 a URSS se lembrou de ripostar com uma formação militar idêntica em Varsóvia. Por “mero acaso” o 1º país a ser alvo de um bombardeamento foi a Hungria pela força aérea soviética em 1956, ambos irmanados no Pacto de Varsóvia. Agora é a Nato que está sozinha depois da derrota estrondosa do revisionismo russo que abalou toda a “esperança no socialismo” que ainda prevalecia em muitos espíritos incautos e ingénuos. Resta saber agora qual será o país a ser alvo da própria Nato, se um aliado ou pelos vistos a continuidade dos que se atrevem a fazer frente ao imperialismo sem medo de terem contra si todas as forças políticas que emergem no panorama actual.

  2. leonel clérigo disse:

    ”RECORDAR É VIVER” ou…
    “DE RECORDAÇÕES NÃO SE VIVE”?

    Para entendermos qualquer acontecimento, julgo que somos forçados a refazer a sua História ou seja, “recordá-lo”. Sendo assim e em primeiro lugar, há que “esgravatar” o seu passado – recente ou distante – e trazer à luz do dia a “necessidade” que o fez “nascer” – a sua “origem”. De seguida, procurar percorrer os seus “desenvolvimentos posteriores”. Tudo isto é essencial se quisermos evitar “comer gato por lebre” que alguns “malandros” profissionais vendem no talho ao desbarato. Para estes, a História não interessa para nada e até já tiveram a desfaçatez de anunciar o “seu fim”.

    1 – O comentário de Afonso Gonçalves (AG) é oportuno: como o caso do “Pacto de Varsóvia”, as “histórias mal contadas” são mato e a maior parte da gente acaba por ver o mundo de “pernas para o ar”: morre, sem nunca entender as aldrabices que lhe enfiam no crânio. E aproveito a “boleia” de AG para dar dois exemplos que causam, geralmente, larga surpresa.

    1A – Um deles, refere-se ao grande “democrata” Churchill e ao desconhecimento geral duma das suas mais “brilhantes” invenções: a “Operação Impensável”. Sucintamente, quando Churchill se apercebeu que a URSS de Estaline – ao contrário das expectativas – concretizara uma vitória estrondosa na Batalha de Kursk e desencadeava, na sequência, uma imparável ofensiva sobre Berlim, Churchill procura organizar um “novo” exército de “aliados” – que inclui agora as próprias forças que restavam dos exércitos de Hitler – para dar continuidade à guerra contra a URSS e, finalmente, vence-la. É evidente que se este “acontecimento” fosse analisado seriamente e dele retiradas as devidas consequências, a maioria das tretas manhosas da História burguesa “oficial” que enche a lixeira das bancas das livrarias, caia por terra. Por isso, pouco dele se fala.

    1B – Outro, diz respeito à “Reunificação alemã”. Logo que terminou a Guerra, a URSS do “totalitário” Estaline propôs aos “vencedores ocidentais” a “Reunificação da Alemanha”. Curiosamente, a proposta esbarrou no “democrático” USA que “preferiu” que a Nação alemã fosse repartida pelos vencedores. Percebe-se o truque: o Imperialismo “americano” estava “em alta” e ter agora um “território” dele no “centro” da Europa, era “ouro sobre azul”. Hoje, para a Alemanha se ver livre das “bases militares” americanas que ainda lá tem (disfarçadas de NATO), vai ser o diabo…Será mais fácil o sr. Schäuble deitar no lixo a “sua” preciosa Austeridade do que os States saírem das bases que têm na Alemanha.

    2 – Espero que um dia AG nos traga, na oportunidade, uma outra “deliciosa” aldrabice: a do “ramo de rosas” oferecido por Mao a Pinochet…

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