Mais de 1500 presos palestinos em greve de fome

Greve geral em 27 de Abril na Cisjordânia e Jerusalém Leste

Urbano de Campos - Quarta-feira, 17 Maio, 2017

BargutiEntre 1500 e 2000 palestinos detidos nas prisões israelitas entraram em greve de fome a 17 de Abril, exigindo o fim dos maus tratos a que são sujeitos e reclamando condições de detenção dignas, de acordo com as regras do direito internacional. Liberdade e Dignidade é a bandeira do movimento.
O protesto responde a um apelo lançado inicialmente por Maruan Barguti, um dos líderes da Fatah da Cisjordânia, preso desde 2002 e condenado por Israel a cinco penas de prisão perpétua por ter organizado e conduzido as Intifadas de 1987 e 2000. Negociações feitas nas próprias prisões entre militantes da Fatah e do Hamas estabeleceram um acordo para esta greve de fome conjunta, depois aprovada pelos dirigentes políticos da Cisjordânia e de Gaza.

A partir da prisão de Hadarim, Barguti fez chegar ao jornal norte-americano New York Times uma carta, que enfureceu as autoridades israelitas, em que explica as razões do protesto e denuncia as violências cometidas sobre os presos.
Diz ele a dado passo:
“Décadas de experiência provaram que o desumano sistema de ocupação colonial e militar de Israel visa quebrar o espírito dos prisioneiros e da nação a que pertencem, infligindo sofrimento aos seus corpos, separando-os das suas famílias e comunidades, usando medidas humilhantes para compelir a subjugação. Apesar desse tratamento, não nos renderemos.”
E acrescenta:
“Israel estabeleceu um duplo regime jurídico, uma forma de apartheid judicial, que prevê a impunidade virtual para os israelitas que cometem crimes contra palestinos, ao mesmo tempo que criminaliza a presença e a resistência palestinas. Os tribunais de Israel são uma farsa da justiça, claramente instrumentos da ocupação colonial e militar. De acordo com o Departamento de Estado [dos EUA], a taxa de condenação para os palestinos nos tribunais militares é de quase 90 por cento.”

Presentemente, estão presos mais de 6500 palestinos, entre os quais 62 mulheres e 300 menores. Quinhentos deles estão detidos sem culpa formada, sem julgamento, por tempo indeterminado. Desde a fundação dos estado de Israel, em 1948, entre 800 mil e um milhão de palestinos passaram pelas prisões sionistas.
Os prisioneiros são vítimas de tortura, de tratamento desumano e degradante e de negligência médica. De acordo com a Associação de Prisioneiros Palestinos, cerca de 200 morreram desde 1967 em resultado de maus tratos.
As cinco principais prisões israelitas, entre elas a de Ketziot no deserto do Neguev, situam-se fora dos territórios palestinos, violando o direito internacional que impede as forças ocupantes de retirar os prisioneiros dos seus locais de origem. Por este processo, Israel dificulta em extremo o acesso dos familiares aos presos, não só pela distância mas também pelas barreiras à deslocação dos palestinos.

A reacção de Israel não se fez esperar. Logo no primeiro dia da greve, Barguti e Karim Yunis, o preso há mais tempo detido, 35 anos, foram postos em isolamento. A segurança interna israelita ameaçou com mais sanções: segredo, outras punições, proibição de visitas, interdição de advogados e até impedimento de receber fotos de familiares.
Junto da prisão de Ketziot foi instalado um hospital de campanha para evitar levar os presos em risco de vida para hospitais civis. Por uma razão: apesar de o tribunal supremo israelita ter aprovado a alimentação forçada de prisioneiros (em violação do direito internacional), os médicos civis podem recusar-se a fazê-lo por razões de ética médica. Tudo leva a crer portanto que a alimentação forçada seja feita nesses hospitais de campanha, sob condução dos militares.
Perante notícias que denunciavam o agravamento do estado de saúde de Barguti, um porta-voz da administração penitenciária israelita disse cruamente à AFP: “Se Barguti se sente mal, o que tem a fazer é alimentar-se”.

O movimento dos presos foi secundado por manifestações populares em Gaza e na Cisjordânia. De vários sectores surgem apelos a uma nova Intifada se algum dos presos morrer.

Greve geral

As principais cidades da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, bem como Jerusalém Leste, aderiram em 27 de Abril a uma greve geral, convocada pela Fatah, em apoio dos presos palestinos quando cumpriam o 11.° dia da greve de fome.
Lojas, bancos, fábricas e as instituições públicas dos territórios palestinos permaneceram fechadas e contaram com o apoio da zona oriental ocupada de Jerusalém. O transporte público também foi afectado. Em Jericó, Ramala, Hebrom e Gaza, manifestantes desfilaram com cartazes em apoio aos presos e centenas de simpatizantes fizeram uma greve de fome simbólica de um dia.

Houve confrontos com as forças de segurança israelitas no campo de refugiados de Yazalon e no posto de controle de Qalandiya, que une Jerusalém com a Cisjordânia.
A greve teve lugar um dia antes da convocação para o “Dia da Ira”, também em solidariedade com os prisioneiros palestinos.






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