Editorial

Liberdade a sério

Quarta-feira, 3 Maio, 2017

Tirando as manifestações populares, as comemorações do 25 de Abril são de há muito uma exibição das forças do poder. Discursos sobre os seus planos para o país, condecorações aos seus servidores ou aos seus personagens emblemáticos, às vezes ocasião para guerrilhas partidárias.

Mesmo as manifestações de rua se mostram cada vez mais saudosistas, sem real capacidade de intervenção política. Fala-se, claro, do que “ainda falta fazer” (Catarina Martins, BE) ou garante-se, num suplemento de ânimo, que o 25 de Abril “está carregado de futuro” (Jerónimo de Sousa, PCP). Mas a verdade é que tudo não passa de uma evocação momentânea, em que as massas, quando muito, soltam os seus gritos de alma, deixando depois “aos políticos” e ao Estado a tarefa de fazerem no resto do ano o que o povo está impedido de fazer: transformar a vida pelas sua próprias mãos, dar outro caminho ao país. E, no entanto, se houver memória, foi isto que aconteceu no breve ano e meio de Abril a Novembro.

Rituais à parte, o que permanece é a descrença do povo nas instituições, justamente vistas como os bastiões das classes dominantes; a descrença na estrangulada democracia, vendida como o máximo da vida pública, mas de facto capturada pela gente rica e influente; a descrença numa liberdade que esbarra a cada passo com os interesses privados do capital e dos poderosos.

Esta descrença da gente comum que constitui o país vem da verificação de que essas instituições, essa democracia, essa liberdade são incapazes de desempenhar o papel que lhes é atribuído — o bem geral, a justiça, a igualdade, a melhoria da vida — e que funcionam exactamente ao contrário.

Falta a condição evocada nos versos de Sérgio Godinho: “Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir”, lembram-se?






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