Enquanto os trabalhadores apertavam o cinto

Fuga de milhares de milhões de euros a coberto do governo PSD/CDS

Carlos Completo - Quarta-feira, 1 Março, 2017

VGasparMLAlbuqEntre 2011 e 2014 saíram de Portugal para vários offshores mais 10 mil milhões de euros do que tinha sido inicialmente apurado, num total de 17 mil milhões, que terão escapado a qualquer controlo da Autoridade Tributária (AT). E, de acordo com um requerimento do PS, visando um esclarecimento da situação, “durante os mandatos dos ex-ministros das Finanças Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque e do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, ficaram por tratar cerca de 20 declarações de instituições financeiras”, envolvendo diversas empresas e pessoas, que representavam mais de 9800 milhões de euros. Com um significativo pico das transferências financeiras efectuadas para offshores na proximidade das eleições legislativas de 2015, que previsivelmente iriam derrubar o odioso governo do PSD/CDS.

As primeiras estatísticas divulgadas sobre o assunto foram as de 2009. Depois, não foram publicadas durante vários anos, não tendo sido divulgadas pelo governo de Passos Coelho, que tinha Paulo Núncio como secretário de Estado. Como oportunamente refere Paulo Ralha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, estará a ausência de publicação relacionada com a elaboração de uma lista VIP, que se destinava a proteger tubarões que não podiam ser vistoriados pelos funcionários das finanças?

Só em Abril do ano passado é que as listas voltaram a ser publicadas, tendo sido actualizadas a 30 de Dezembro. Assim, aparecem pela primeira vez as estatísticas de 2015 e foi nessa altura que a AT reviu os dados dos anos anteriores, com uma diferença de cerca de 10 mil milhões de euros.
Num esclarecimento enviado à comunicação social, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), Azevedo Pereira, garante ter solicitado, por duas vezes, ao ex-secretário de Estado Paulo Núncio autorização para publicar dados relativos às transferências de dinheiro para offshores, mas “em nenhum dos casos” esta lhe foi concedida. Na primeira vez, Paulo Núncio pediu-lhe uma “alteração na estrutura da informação a divulgar” e, depois desta feita, não respondeu. Quanto ao segundo pedido, Azevedo Pereira esclarece que Paulo Núncio limitou-se a despachar com um “visto”, “mas não autorizou a sua divulgação, tal como lhe foi solicitado”.

VGasparMLAlbuqPNunO PCP foi o primeiro partido a apresentar um requerimento para ouvir Paulo Núncio e Rocha Andrade (o actual secretário de Estado) sobre o assunto. PS e BE também solicitaram depois idênticos esclarecimentos. E o PSD, assim como o CDS, acossados e procurando sacudir as responsabilidades do governo PSD/CDS na sua encarniçada defesa dos capitalistas, também se afirmaram dispostos a envidar todos os esforços para esclarecer a situação. Todos sabemos, porém, pela política que Paulo Núncio e o governo PSD/CDS defendiam, que tinham motivos suficientes para sonegarem estas listas aos portugueses.
Mas o maior escândalo que aqui se revela — normal em sistema capitalista — é a existência de elevadas quantias de dinheiro na mão de uns poucos (proveniente da exploração dos trabalhadores, da corrupção, da fraude, da droga, etc.) circulando livremente, e, com certeza, também, a descarada fuga aos impostos, enquanto a generalidade dos trabalhadores e do povo apertava o cinto e o país estava submetido às garras dos agiotas e da chantagem imperialista (via FMI, CE, BCE). Para já não falar do “patriotismo” dos nossos capitalistas e da evidente responsabilidade última do governo então vigente.

Cabe agora perguntar: que medidas rigorosas, sem as costumadas ambiguidades, e abrangentes (pondo em causa o próprio papel dos offshores) vão tomar o actual governo e os grupos parlamentares que o sustentam visando erradicar as habituais situações deste tipo?






Um Comentário a “Enquanto os trabalhadores apertavam o cinto”

  1. leonel clérigo disse:

    LAPELAS VS OFFSHORES

    Sempre me despertaram curiosidade a “função” das “lapelas” nos casacos: se servem, preventivamente, para “aconchegar o pescoço” nos dias invernosos ou se são daqueles “feitios” – um “formalismo” – que não servem para nada mas que os “chiques” acham “very nice”. Mas, a partir de certa altura, comecei a reparar numa sua “sólida” utilidade: as ditas lapelas estavam, com alguma frequência, ornadas de coloridos “Emblemas” de Clubes de Futebol, indicando assim o clube da simpatia do “proprietário” do casaco.

    1 – A foto que está acima e acompanha o texto de Carlos Completo, mostra precisamente o “nosso” ex-ministro Vitor Gaspar com o emblema da “Bandeira de Portugal” na lapela. Ou seja: Victor Gaspar indica assim o clube da sua simpatia ou, pelo menos, indicava na altura: era um valente “torcedor” por Portugal, um membro, digamos assim, da “Juve Portuga”. (Já da Ministra Maria Albuquerque não posso, por esta foto, garantir nada, visto o écran do “portátil” – o do célebre “Excel”, ou dos “mails”, não sei… – não permitir que se veja a sua “lapela”).
    Confesso que sempre tive algumas dúvidas sobre as simpatias “nacionalistas” do Ministro Gaspar (um “neoliberal globalizador” e hoje ferrenho “anti-populista”) como, igualmente, de todo o Governo PPD/CDS visto que, quem deposita todas as suas “esperanças” nas “soluções” (e nos “mails”) que os “estrangeiros” (dos países ricos) nos ditam, sem levantar a mínima dúvida e oposição, ou é parvo ou um grande “malandreco”. Vejamos melhor sem ir muito longe: já o economista alemão F. List (um ferrenho “protecionista” alemão) e independentemente de tudo resto, teve a coragem de mandar a Economia Política Inglesa “dar uma volta ao bilhar grande”, acusando-a de querer bloquear o desenvolvimento dos outros países mais “atrasados”, como era a Alemanha na altura. E com ela, agora “globalizada”, valha-nos Nª Senhora da Agrela…

    2 – Mas, surpresa das surpresas, surge agora a notícia que Carlos Completo refere acima: a dos offshores, parecendo revelar que, afinal, os nossos “nacionalistas de lapela” eram “nacionalistas” da treta. Andavam, afinal, a vigarizar o “discurso”, deixando “voar” o Dinheiro dos “ricos”, precisamente a tal célebre “riqueza” que juravam a pés juntos ser necessária no bolso deles para poderem “investir”, “fazer indústria”, “criar empregos” e “desenvolver o País”. E as minhas antigas “dúvidas” sobre a “lapela” de Vitor Gaspar e de todo o Governo PPD/CDS, cresceram agora a olhos vistos, para não dizer à velocidade da luz.

    3 – O PPD e o CDS são “frescos” e é preciso “olho vivo” com eles. Ainda guardo na memória (na Má Memória, à maneira da “grande invenção” de Carlos Costa do BdP, outro “sábio”) quando apareceram em cena vestidos com o “bibe” dos “bons alunos” e preparados para “salvar Portugal”, ar de “portugueses de gema” e o “canudo” de “sábios da economia” debaixo do braço, na TV do nosso PPD Balsemão. Vinham em sequência lavar-nos o cérebro, convidados do Maestro José Gomes Ferreira, um outro “lente” da Economia: os Catroga, Duque, Campos e Cunha, Confraria, Medina Carreira, César das Neves, Ângelo Correia. Nogueira Leite, a grande sábia Teodora Cardoso (o Governo devia trocá-la já por Maria da Conceição Tavares), eu sei lá…, uma fila maior que a “Marcha Popular” da Penha de França. E por “detrás do arbusto” o nosso ultra “sábio” Cavaco Silva. Ainda hoje me pergunto como foi possível a gente do meu País, ter enfiado uma “tanga” destas e até aos pés. E uma destas deveria, precisamente, ficar de emenda: PPD e PSD, nunca mais!…

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