Sobranceria da União Europeia na cimeira com África

O que conta é abrir caminho aos interesses do capital europeu

M. Raposo - Sexta-feira, 7 Dezembro, 2007

Como a hostilidade grosseira do ministro Luís Amado contra Robert Mugabe não chegou para afastar o presidente do Zimbabué da cimeira UE-África, a dra Ana Gomes (PS) chegou-se à frente com declarações mais bombásticas. Segundo ela, bom número de dirigentes africanos não deveriam estar na cimeira mas sim na prisão, por despotismo e violação de direitos humanos.
O concerto a duas vozes do governo português e dos seus roncadores é patente nestes episódios e reflecte a cínica e sobranceira posição da UE nas suas relações com a África.
O que conta para a cimeira é a possibilidade de fazer penetrar em África os interesses económicos do capital europeu. Como o terreno se encontra em boa parte ocupado pelos EUA, mas sobretudo pela China, cujos capitais fizeram uma progressão vertiginosa em quase todo o continente, um dos expedientes da UE (como dos EUA) é abalar os regimes políticos instalados, sejam os que por via de um nacionalismo remanescente ainda levantam obstáculos à penetração ocidental, sejam os que, por entendimentos com os chineses, podem regatear os termos das relações com o imperialismo europeu ou norte-americano.

É esse o papel desempenhado pela campanha em torno dos “direitos humanos”. O propósito não é democratizar a África, menos ainda libertar os seus povos – é vencer as resistências que restam à influência política ocidental. Claro que, em questão de direitos humanos, liberdade, democracia há pano para mangas também em África. Mas é bom lembrar que a maioria dos regimes ditatoriais que, já depois do colonialismo, têm amordaçado os povos africanos foram sustentados (talvez como em nenhum outro continente) pelo ocidente; e os maiores morticínios foram levados a cabo sob instigação, quando não a participação directa, das potências imperialistas.

Não há memória de a dra Ana Gomes ter exigido a prisão de Clinton por ter mandado bombardear um complexo farmacêutico no Sudão com a desculpa de ser uma fábrica de armas químicas e biológicas; ou de Bush por financiar e armar a Etiópia para invadir a Somália; ou de Mitterrand por ter sido responsável pelo massacre de centenas de milhares de ruandeses. Ou de todos eles juntos, e vários outros, por alimentarem dezenas de anos de guerra civil em Angola e em Moçambique, financiarem o terrorismo na Argélia, instigarem guerras regionais no sul do Sudão e agora no Darfur, terem destroçado a Somália, terem sustentado Mobutu até ao fim. Ou por privarem milhões de africanos de medicamentos, levando-os à morte, para defenderem os lucros das multinacionais farmacêuticas. A lista é interminável, mesmo sem contar com o período colonial.

Para efeitos imediatos, como é bom de ver, o que conta nesta cimeira é conseguir vantagens para a União Europeia. Mas a pressão política mantém-se, como uma espada suspensa, a fim de vencer resistências dos regimes mais renitentes. Isto mesmo ficou à vista em declarações da deputada do CDS-PP Teresa Caeiro (SIC, dia 6) que ajudam a colocar a vozearia de Ana Gomes no devido lugar, confirmando o que acima se disse. Contra a possibilidade de os direitos humanos serem assunto da agenda da cimeira (hipótese que comprometeria qualquer acordo), Teresa Caeiro acha que “os governos têm de ser realistas e de ter sentido de estado” – concluindo que “nestas situações devemos deixar de lado questões emocionais”. O “sentido de estado” é o interesse imperialista da Europa; as “questões emocionais” é a liberdade dos povos africanos.






2 Comentários a “Sobranceria da União Europeia na cimeira com África”

  1. João Machado disse:

    Está correcta a análise feita acima. E com a ânsia de salvaguardar interesses económicos, vai-se perder mais uma oportunidade de estabelecer laços para uma cooperação positiva, benéfica para os povos dos dois continentes. Para quando uma acção séria para proteger a floresta equatorial? Para combater a sida? Para desenvolver a investigação? Quanto à promoção da mulher (nos dois continentes), quando será possível desenvolver acções que não tresandem a paternalismo neo-colonial?

    Um abraço

    João Machado

  2. germano disse:

    Palavras para quê? Tá tudo dito. Quando é que o juíz Baltazar Gárzon começa a meter em tribunal as multinacionais do crime(bancos, telefónicas, seguros, petrolíferas…)?

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