A vitória da Síria

Notas sobre a viragem militar e política na guerra

Manuel Raposo - Terça-feira, 31 Janeiro, 2017

AlepoA conferência de Astana, Cazaquistão, realizada em 23 e 24 de Janeiro, que juntou os dirigentes sírios e representantes da oposição (basicamente o chamado Exército Livre da Síria), marcou uma importante viragem política na situação vivida na Síria nos últimos seis anos, depois da viragem militar que representou a reconquista de Alepo em final de Dezembro.
Mesmo não podendo para já considerar-se uma vitória definitiva, a mudança que agora se pode observar — traduzida no cessar-fogo, no reconhecimento da legitimidade do regime sírio, na abertura de negociações, no isolamento dos rebeldes — representa uma derrota dos planos dos imperialistas norte-americanos e europeus de fazerem da Síria o que fizeram do Iraque e da Líbia.

1. A reunião de Astana estabeleceu as bases para o diálogo entre o regime e a oposição, consolidou e estabeleceu regras de supervisão do cessar-fogo e criou melhores condições para dar rumo às negociações políticas que decorrem desde há meses, sem resultados, em Genebra, sob a égide da ONU.
A legitimidade do regime de Bashar Al-Assad ficou assim reconhecida, nomeadamente pela Turquia que, pela voz do seu vice-primeiro-ministro, não teve outro remédio senão reconhecer (logo em 20 de Janeiro) não haver condições para reclamar o afastamento do presidente sírio.

Foi ainda assumido o compromisso, entre a Rússia, a Turquia e o Irão de apoiarem o regime sírio no combate aos rebeldes do Estado Islâmico e da Al-Caida, que ficaram de fora do acordo.
Igualmente de fora da reunião de Astana colocaram-se os EUA e a UE bem como os seus agentes mais directos na promoção da guerra: a Arábia Saudita e o Catar. Apesar de convidados, escusaram-se a participar, certamente para ficarem com as mãos livres para futuros assaltos.

2. A reconquista da metade leste de Alepo (a única que estava sob controlo dos rebeldes, desde 2012) pelo exército sírio foi a chave do êxito político firmado em Astana, na medida em que fez pender a balança da guerra para o lado do poder sírio. O regime de Damasco passou a dominar toda a região oeste do país, com as suas cinco principais cidades (Damasco, Homs, Hama, Alepo e Latiquia) — que é o centro económico e a zona mais populosa do país. Em termos práticos, restam a cidade de Idlib, onde os rebeldes estão acantonados, e as zonas rurais. Esta viragem só pode ser vista como uma derrota, militar e política, dos propósitos do imperialismo norte-americano e europeu que pretendia derrubar Al-Assad para se apoderar do país, a qualquer preço.

3. A situação a que agora se chegou, após seis anos de guerra e centenas de milhares de mortos, ganha mais relevo se comparada com o que sucedeu, com consequências hoje bem visíveis, no Iraque e na Líbia — casos em que os propósitos “democratizadores” dos EUA e da UE passaram por acções militares arrasadoras para “mudar o regime” a pretexto de removerem do poder os “tiranos”.

O mesmo pretendeu o imperialismo (norte-americano e europeu) na Síria com o slogan “Assad tem de partir” e com a tentativa (frustrada na ONU por russos e chineses) de criar uma zona de exclusão aérea, exactamente como no Iraque e na Líbia. Como disse o líder do Hezbolá libanês num discurso após a reconquista de Alepo, o afastamento de Assad era apenas a porta de passagem do imperialismo para tomar conta da Síria.

4. A intervenção russa, iraniana e do Hezbolá libanês foi decisiva para derrotar os manejos da parelha EUA-UE. Estas três forças estrangeiras actuam na Síria a pedido do regime de Damasco — alvo de uma evidente agressão estrangeira — o que, do ponto de vista do direito internacional, confere inteira legitimidade à sua intervenção.
O mesmo não sucede com a intervenção capitaneada pelos EUA, que tem uma face aberta que eles próprios batizaram de “Coligação internacional”, e uma face escondida que se traduz na instigação de todos os outros capangas menores que actuam no conflito (sauditas, cataris, turcos, israelitas…). A acção desta “Coligação internacional”, representa uma agressão armada, ilegítima portanto à luz do direito internacional, porque viola a soberania da Síria que sempre rejeitou e condenou a sua intromissão na guerra.

5. Ao longo de seis anos de guerra, toda gente fez preces pela paz e chorou a triste sorte da população síria. Mas é bom não esquecer que foi a acção conjugada do exército sírio, dos militares russos, das milícias iranianas e dos combatentes libaneses do Hezbolá que conseguiu pôr termo à guerra — ou, pelo menos, conduziu ao cessar fogo actual. Foi isso que tirou base à ofensiva militar (essa sim terrorista) do Ocidente imperialista, e inclusive obrigou a Turquia a mudar de campo.

Na verdade, os apelos de última hora pelo fim dos combates não podiam ter outro fim prático senão o de tentar parar a ofensiva militar de Damasco sobre o leste de Alepo, que, por meados de 2016, ficou a ser o último reduto importante dos rebeldes em todo o país, depois da ofensiva iniciada pelo exército sírio em Setembro de 2015, com o apoio da aviação russa. Era o que restava ao imperialismo para tentar salvar a chamada “oposição democrática”.

6. A aparente “inconsequência”, chamemos-lhe assim, dos EUA e da UE (bem como da Turquia) em combater tanto o ramo sírio da Al-Caida como o Estado Islâmico (atacado ferozmente no Iraque, mas tolerado na Síria), deve-se à necessidade de terem um aliado (pelo menos tácito) no ataque ao regime de Damasco, uma vez que a desordem, as rivalidades internas e a fraqueza militar dos rebeldes ditos “bons” não permitiam levar por diante a guerra de forma vencedora.

Deu-se mesmo o caso de os EUA e o exército iraquiano, empenhados na reconquista de Mossul, no Iraque, terem deixado “escapar”, por corredor seguro, forças do Estado Islâmico que acabaram por participar no ataque e reconquista de Palmira, na Síria. O mesmo fez a Turquia durante anos de guerra: não só comprava o petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico, financiando-o, como lhe dava facilidades logísticas no território turco (passagens seguras e campos de treino) por lhe interessar usá-lo tanto no combate contra Assad como contra aos curdos.

7. Desde o início da guerra, ficou evidente que a questão não era, como a propaganda de guerra do Ocidente pretendeu, uma escolha entre democracia ou ditadura. Era sim fazer da Síria mais um Iraque ou uma Líbia — ou defender um regime nacional, independente e a soberania de um país. A agressão à Síria é mais uma guerra imperialista pelo domínio da região em que se cruzam interesses diversos, regionais e mundiais. Se se perder este norte não se entende nada do que se passa por aquelas bandas.

A partir do momento (logo em 2011) em que a luta se passou a travar entre os bandos armados pelo Ocidente (via Arábia Saudita e Catar, sobretudo) e o regime sírio, não havia terceira via em termos políticos: ou se apoiava o campo imperialista ou se defendia o regime de Damasco e a integridade da Síria.
É isto que as vozes “pacifistas”, que se mostravam horrorizadas com o morticínio, não entenderam.

8. Os clamores de Paz! Paz! das últimas semanas do conflito, só se fizeram ouvir depois de o exército sírio estar à beira de recuperar Alepo. Antes, para a maioria da opinião pública ocidental, Alepo era considerada “zona libertada”. Antes, quando os bandos armados pelos EUA e a UE sequestravam a população civil e liquidavam opositores em massa, essa opinião pública não se ouvia — e as agências noticiosas ocidentais encobriam os factos, esperando ainda que o reduto de Alepo (se se mantivesse por longo tempo) permitisse aos rebeldes desgastar o regime, fazê-lo ruir ou mesmo, se recuperassem forças e apoios, aventurarem-se até Damasco.

Comprometida a capacidade de levar de vencida os seus planos pelas armas, restou ao Ocidente, nos últimos meses, arregimentar a opinião pública na tentativa de salvar alguns dos seus interlocutores no conflito, para ainda poder ter uma voz contra o regime de Assad.

9. Se se consolidar, esta vitória síria vai marcar os próximos tempos. Pode mudar a balança de forças no Médio Oriente. Mostra as vulnerabilidades do imperialismo (como a guerra do Vietname, noutra situação). Dá um suplemento moral à luta política dos povos árabes e muçulmanos — que, no caso, note-se, derrotou norte-americanos e europeus e também os bandos terroristas que o Ocidente tanto diz condenar.

E se tudo isto for bem evidenciado, pode inclusive mostrar à desanimada esquerda revolucionária europeia e norte-americana que há exemplos a seguir que rejeitam a chantagem do Ocidente — a chantagem que (sob a capa da “democracia”) consiste afinal na alternativa: ou terrorismo ou domínio imperialista.






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