Editorial

A prédica

Domingo, 8 Janeiro, 2017

Bastou que o presidente da República, pelo Ano Novo, em oito minutos de generalidades, invocasse pela enésima vez uma “estratégia de crescimento económico sustentado” para o país “crescer muito mais” — bastou isso para que um coro de comentadores prestimosos visse aí a grande aposta para 2017 e a chave para tirar o país da fossa.

Nenhum deles se interessou em perguntar porque estamos estagnados há 20 anos; porque não crescem a Europa, os EUA ou o Japão; porque sofrem os “tigres” de ontem (da China a Angola) quebras tremendas dos seus PIB, com desemprego e pobreza a rodos. Ninguém quer encarar o facto de todo o sistema capitalista estar empanado, sem esperança de arrancar de novo — de ter chegado a um beco sem saída.

O crescimento económico falece, não porque não haja recursos, mas porque o capital de hoje, hiperdesenvolvido, o bloqueia. Por isso, também, se assiste quase só a uma transferência da riqueza existente do trabalho para o capital e de umas para outras mãos — chave de mais esse “mistério” que é o alargar do fosso entre pobres e ricos.

A prédica do PR soa bem a quem não quer ver o fundo da questão. Repete a ilusão cómoda de que tudo pode ser alterado “se bem quisermos” — com “rigor” e “boas medidas”. Nada mais falso, como os factos mostram. Assim como o governo Coelho-Portas nada pôde para arrancar o país ao marasmo, apostando apenas em roubar o mais possível ao trabalho para amparar o declínio do capital, o governo de Costa só tem como alternativa moderar a selvajaria da política anterior, mas não está ao seu alcance inverter a trajectória do capitalismo luso.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, retomar o progresso significa pôr fim à propriedade privada capitalista, que é o verdadeiro obstáculo. Enquanto a massa trabalhadora não vir isto, não estará em condições de virar o rumo do país e da sua vida.

Exigir melhores salários, férias, saúde, etc. é obrigatório. Mas que não seja esse o alfa e o ómega da luta de classes.






3 Comentários a “A prédica”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Pretender que a classe trabalhadora veja a realidade social e política espontaneamente é uma ilusão tão grande como pretender que uma criança nasça a saber ler e escrever. E isso é frequente nas nossas paragens entre a pequena burguesia intelectual que está permanentemente a dizer ao povo que acorde de uma vez por todas. Sabemos que isso não é possível e melhor que ninguém sabe o poder burguês que diariamente aliena e ilude como faz o actual Presidente da República e os restantes partidos parlamentares. Enquanto subsistir esta ladaínha o capital mesmo moribundo não se destrói a si próprio, antes pelo contrário desfaz a classe trabalhadora numa massa amorfa e desfalecida.

  2. jml disse:

    O comentário de Afonso Gonçalves até tem a sua razão, mas pergunta-se:

    Que fêz Afonso Gonçalves para modificar tal situação?

  3. António Alvão disse:

    (…) – “O revisionismo foi sobretudo obra de intelectuais burgueses, cujas convicções democráticas e desejo de justiça social os leva a integrarem-se nos partidos operários, mas que não se libertam por completo da ideologia da classe de origem. Na Alemanha, o caso de Eduard Bernstein é o mais exemplar de todos. Em França, são os casos de Jean Jaurés e de Georges Sorel, os quais edificam sistemas que utilizam o marxismo para dele se afastarem consideravelmente” (…) – Marx Depois De Marx, de Pierre e Monique Favre – P. Dom Quixote.
    Foi a este tipo de gajos que Lenine chamava a corrupção burguesa! Vejamos o que não temos de corrupção burguesa?!!!

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