Marrocos: de novo a revolta árabe

Manuel Raposo - Quinta-feira, 10 Novembro, 2016

MarrocosÀ vista das manifestações de rua realizadas em Marrocos há dias, no final de Outubro, as declarações sucessivas de que a Primavera Árabe de 2011 estaria morta mostram-se prematuras. Uma onda de revolta abalou as principais cidades marroquinas depois de um vendedor de peixe de 30 anos, Mouhcine Fikri, ter morrido de forma bárbara, em Al-Hoceima, no norte do país. Abordado pela polícia, Fikri teve a mercadoria apreendida e acabou por morrer esmagado dentro do camião de lixo chamado para recolher o peixe confiscado. Milhares de pessoas saíram às ruas logo no dia 28, dia da morte, e até 30, altura do funeral — não apenas em Al-Hoceima, mas também em Tetuão, Casablanca, Marraquexe e na capital Rabat.

Esta revolta indignada e espontânea lembra os acontecimentos na Tunísia, em Dezembro de 2010, em que um vendedor ambulante, a que a polícia confiscara as mercadorias, se imolou pelo fogo. A onda de manifestações que se desencadeou não só derrubou o ditador tunisino Ben Ali (há décadas no poder) como se espalhou a todo o mundo árabe. Também Marrocos na altura foi palco de protestos e cinco jovens de Al-Hoceima, precisamente, foram raptados e assassinados. O Movimento 20 de Fevereiro que então se gerou exigiu mudanças políticas, a que o rei respondeu com uma promessa de reforma constitucional.

Agora, de novo as reclamações políticas — com larga presença de mulheres e de jovens — ganharam de imediato o primeiro plano dos protestos, contestando as instituições reais e exigindo o fim da “hogra”, expressão que designa o desprezo pelo povo, o abuso do poder e a injustiça.

Questão política interessante a considerar é o porquê destas explosões de massas, envolvendo multidões de milhares, com origem em acontecimentos aparentemente comuns, que noutras condições o poder trataria como “acidentes” — como de resto tentaram fazer o rei e o ministro do Interior marroquinos, instaurando o proverbial “inquérito”. Porque é que as massas encaram a morte de um vendedor ambulante como uma causa sua? Só pode ser pelo facto de sentirem isso como o espelho da sua própria vida colectiva e de não suportarem a situação por muito mais tempo.

As razões de hoje dos marroquinos são as mesmas de todos os árabes em 2011. Cedo demais se deu por encerrado o capítulo das “Primaveras” de então — até mesmo entre alguma esquerda, que criticou o “espontaneísmo” das movimentações, os seus fracos resultados políticos, ou mesmo o “efeito contraproducente” ilustrado pela ascensão dos “islamitas” e a instauração de nova ditadura militar no Egipto.

Estas críticas tratam o assunto superficialmente, esquecendo a base da questão: os povos do Norte de África e do Médio Oriente vivem em condições deploráveis, insuportáveis, em grande parte em resultado da “colonização” levada a cabo pelas potências capitalistas europeias.
Se o sul da Europa constitui uma semi-periferia da União Europeia, o mundo árabe do Mediterrâneo é a periferia mais pobre e mais explorada desse centro de acumulação de capital. Tudo isto mais agravado ainda pelo quadro geral de crise do capitalismo, que bloqueia as possibilidades de progresso e desenvolvimento, e que só deixa aos povos expectativas negras sobre o futuro.

Essa situação é a fonte que alimenta a revolta social, que lhe dá de imediato carácter político e a vira contra os poderes instalados. E que por isso lhe confere potencial revolucionário.






Um Comentário a “Marrocos: de novo a revolta árabe”

  1. leonel clérigo disse:

    UM “JOGO DE SOMBRAS” BURGUÊS…À DISTÂNCIA DE UM SÉCULO

    Há já um certo tempo que o termo “populista” vem acotovelando tudo e todos, na esperança de ganhar estatuto de “palavrão” científico no quotidiano burguês. Mas, a recente chegada ao poder do poderoso “populista” Trump, ameaça liquidar o esforço, reenviando-nos de novo para o Dicionário da Porto Editora, um resistente à ofensiva “neoliberal”: “Populista: pessoa que é amiga do povo”.

    1 – Foi este, de facto, o sentido que encontrei na obra de Lenine – “ O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia”, a sua grande “análise concreta da situação concreta” mas sempre “esquecida”… – que vai servir de base à “longa marcha” da sua vida: a Revolução Russa de 1917. Dizia ele que, “Os amigos do Povo” – os Populistas russos – eram portadores da “ideia” – que Lenine combatia – de como a Rússia poderia sair do seu estado de “atraso económico” (coisa parecida com Portugal, mas que a nossa burguesia oca e descabelada nunca fez por alcançar, sequer, os calcanhares dos populistas russos). A “ideia” dos ”Amigos do povo” (os Populistas) era simples, como geralmente o são todas as que procuram agarrar “os bois pelos nomes”. Com a crescente ruína, diziam, do campesinato russo – a grande maioria da população russa – o “mercado” restringia-se drasticamente e, com esta situação, o capitalismo não podia vingar na Rússia. Havia outra alternativa, diziam os “populistas russos”, para o capitalismo vingar na Rússia: “conquistar mercados exteriores” – um Império – mas, as “grandes potências” europeias e os USA, já os tinham tomado, não havendo possibilidades de a Rússia – que “acordara tarde” – obter algum para ela. Estando estes dois “caminhos impedidos” – a Alemanha nunca irá desistir de um deles (o segundo) e para isso desencadeará duas “guerras mundiais” – só restava à Rússia “saltar” por cima da etapa do capitalismo: é a tese populista do “socialismo agrário” que estaria na “ordem do dia”. É contra esta “tese” e seus diferentes aspectos, que Lenine se irá bater – e desmontar ponto por ponto.

    2 – Tal como os “populistas russos” que procuravam – bem ou mal – equacionar os problemas do seu país para os tentar resolver, o intelectual marxista brasileiro Octávio Ianni – entre outros – também há muito que procurou clarificar um problema “parecido” no seu país: a contínua “derrapagem do desenvolvimento” fruto do “bloqueio” deste pelas grandes potências capitalistas, especialmente o “vizinho” USA. No seu livro “O colapso do populismo no Brasil”, Ianni procura esclarecer os problemas colocados à sociedade brasileira ao tempo de Getúlio Vargas, um outro “populista de fina água” no dizer da lusa “intelectualidade” manhosa “neoliberal”. E logo no início do seu livro – no prefácio à 1ª edição -, põe ele o “dedo na ferida” ao referir que “O populismo, que é um dos núcleos da discussão, é focalizado como uma estratégia política de desenvolvimento económico”. Certo! Uma coisa com aspectos bem diferentes da “estratégia ideológica neoliberal” rentista, com o seu combate a tudo o que cheira a tentativas de desenvolvimento das periferias. Para estes senhores – e senhoras -, toda a luta pelo desenvolvimento e contra a dependência, é carimbada simplesmente de “populismo”.

    3 – A nossa intelectualidade balofa universitária, que vem dando uns “coloridos” à comunicação social do nosso Balsemão “Bilderberg” e de seus colegas de “ofício” televisivo (e outros), precisava duma enorme vassourada “populista” para se arejar as consciências. É o próprio tema “populismo” serve de exemplo: uma “convidada” do ISCTE considerava há dias o “populismo…o uso dos medos”. Brilhante definição do “conceito”. E ninguém me venha dizer que os professores do “secundário” estão “mal preparados”…

    4 – Mas que tem tudo isto a ver com um comentário ao texto acima de Manuel Raposo? As “Primaveras” árabes não foram, ao fim e ao cabo, verdadeiros “populismos”, como cospe o neoliberal? Não foram aspirações ao “desenvolvimento”, eternamente “bloqueado” pelo “imperialismo “ocidental” que não hesitou em fazer dos países “terra ardente” quando o “perigo” se aproximou da necessária “exploração”, “do enriquecer à custa de outros”? É este “barril de pólvora” que deveria “meter medo” à Professora do ISCTE e não o “populismo”. Quanto a este, a História já se encarregou de demonstrar os seus erros. Mas também de desmontar o “jogo de sombras” duma burguesia cada vez mais encurralada e sem imaginação, para além dos “velhos truques”. Agora, é o Imperialismo e a Dependência que necessitam subir à ribalta do quotidiano…

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