Notas soltas a pretexto do Brexit (VIII)

Direita, esquerda regimental, esquerda

Manuel Raposo - Sábado, 10 Setembro, 2016

TerrenoExpropriadoPor mais que as forças nacionalistas da direita exaltem as virtudes nacionais, e advoguem o regresso à “soberania” e às tradições, não podem fazer voltar atrás a fusão capitalista que esteve e está no âmago da União Europeia, e que lhe forma hoje a ossatura. O resultado objectivo da campanha dessas forças será, então, colocar num outro patamar, atrás do biombo das fronteiras nacionais, a mesma caminhada inexorável para a concentração de capital — simplesmente pondo de lado, cada vez mais, preconceitos democráticos e de justiça social, tornados empecilhos ao poder das classes dominantes.

A extrema-direita encarna de forma aberta aquilo que já está presente, mas ainda sob juras democráticas, no próprio processo de fusão capitalista na Europa: o esvaziamento final da representação popular, democrática — evidenciando a incompatibilidade entre democracia e capitalismo, porque uma pressupõe igualdade e outro alimenta-se da desigualdade. Por isso, apesar de ligeiras e sempre tímidas demarcações, o que prevalece é a contiguidade e a continuidade política entre centro, direita e extrema-direita, os mais moderados abrindo caminho aos mais extremistas ou mesmo adoptando deles as linhas mestras da acção política sob a pressão das circunstâncias.

É assim que a promoção do terrorismo à categoria de inimigo externo, o acirrar dos conflitos étnicos e religiosos (batizados como “confrontos de civilização”), a instauração prolongada do estado de emergência implicando suspensão de direitos (como em França e na Bélgica), as alianças partidárias que levam forças fascistas ao poder, as razias militares em países da periferia europeia, a montagem do golpe fascista na Ucrânia, etc. — são ajudas preciosas ao crescimento e afirmação das forças da extrema-direita.

À conta de uma fictícia defesa de interesses nacionais e “civilizacionais”, a extrema-direita quer obter da massa dos eleitores um mandato para levar a cabo de forma mais decidida aquilo que as forças partidárias actuais levam a efeito de modo hesitante e conflitual.

Apesar de terem emergido um pouco por toda a Europa central e de leste, as grandes forças de extrema-direita capazes de marcarem o curso político do continente são as das grandes potências económicas. A sua política não será a do respeito “nacionalista” pelos pequenos países e pelas economias dependentes — bem pelo contrário será a de aplicar um golpe definitivo nas já enfraquecidas pretensões dos países que giram na sua órbita.
Os efeitos práticos da sua acção seriam, pois, acelerar a concentração de capital e potenciar, sem peias, tudo o que de pior a UE actual vai fazendo — acções militares, espoliação de países periféricos, discriminação de imigrantes, corte de liberdades civis e de trabalho, mão de ferro sobre os protestos sociais, etc.

Porque não tem a esquerda um papel determinante na evolução dos acontecimentos? Porque se auto-limita à defesa de um outro passado que já se desfez: um nacionalismo dito “de esquerda” assente na ilusão de um crescimento económico “autónomo”, um capitalismo caseiro supostamente dedicado “às necessidades das pessoas”, tentativas de “aperfeiçoamento” de democracias caducas em que a vontade popular não conta, busca de “melhorias” num sistema de exploração cada vez mais brutal pela sua própria natureza e por isso irreformável, aposta em melhoramentos num aparelho de Estado inteiramente ao serviço das classes dominantes e nas mãos de uma clique de dirigentes cada vez mais restrita — tudo o que a experiência dos últimos anos mostra ter entrado em colapso, sem emenda possível, o que leva o grosso das classes médias a preferir a direita, pelo menos nas potências dominantes.

E porque, principalmente, esta esquerda regimental abdicou de chamar à luta política — com bandeiras próprias — essa força decisiva, hoje sem voz, que são as massas trabalhadoras. Bandeiras próprias significa: fim da propriedade privada capitalista (para se poder relançar o progresso económico); poder popular (para instaurar uma verdadeira democracia); socialismo (para abrir caminho à justiça social).

A miopia dessa esquerda leva-a a insistir numa reforma impraticável da UE a partir “de dentro”, quando a tarefa é mobilizar, sob objectivos políticos próprios, as forças capazes de subverter a UE a partir “de fora”.
É nesta demarcação de raiz entre as bandeiras anticapitalistas das classes trabalhadoras e a política de melhoramentos democráticos no quadro do capitalismo, cara às classes pequeno burguesas, que está a chave para criar uma alternativa de massas à direita.






2 Comentários a “Direita, esquerda regimental, esquerda”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    No texto apresentado surge um paradoxo que se tem acentuado com muita frequência na crítica às chamadas forças de esquerda. Como se pode considerar de esquerda uma força que defende os enunciados descritos a partir do 6º parágrafo do artigo? Será de esquerda a burocracia sindical bastante acentuada no discurso rançoso dos dirigentes sindicais que organizam as greves e demais manifestações dos trabalhadores cujos resultados são apenas meros protestos piedosos? Não; há que reconhecer que a esquerda é inexistente e que os trabalhadores se quiserem ganhar este combate têm que o enfrentar com outras forças, com outra prática sindical e com outro discurso político.

  2. António Alvão disse:

    Durante o PREC, os que prometiam socialismo e poder popular, quando chegaram ao poder deram provas de que a mentira em política resulta para enganar as “massas” e tomar o poder – (“que é uma coisa muito boa para o verdugo oportunista”). Foi assim um pouco por todo o Planeta, ao longo dos tempos e, ainda é hoje em alguns países. Estas estruturas “superiores” – foram fabricas de monstros e criadoras das maiores tiranias, onde a matéria-prima era a matança e os genocídios para as conquistas de territórios e para impor suas religiões e suas ideológicos. Por estas e por outras, já há muito que me vacinei contra todo o oportunista que me pretenda representar no parlamento. E quando me abordavam para o efeito, eu perguntava se não quereriam eles serem representados por mim? Já lhes não agradava a conversa!!!
    Hoje ninguém morre na luta pelos valores do socialismo, como no passado; mas sim como mais depressa subir a pirâmide do poder, para mais depressa chegarem ao “tesouro”… A emancipação dos mais humildes, reside, dentro dos possíveis – sermos alunos e professores de nós mesmos.

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