Editorial

Que saída?

Quarta-feira, 29 Junho, 2016

O referendo no Reino Unido (tal como antes várias eleições europeias) confirmam um fenómeno de fundo que se vem repetindo na Europa: boa parte das classes médias tendem a virar costas aos tradicionais partidos do centro e enjeitam as suas propostas políticas. No caso do referendo, uma maioria de britânicos abandonou Conservadores e Trabalhistas e apoiou, em última análise, as posições da extrema-direita.

Os votos podem ter destinos diferentes. Mas as causas do desarranjo são as mesmas: a crise capitalista atinge, depois do proletariado, as próprias classes pequeno e médio burguesas, aproximando parte delas da condição precária dos proletários. E é isso que elas recusam. Por isso, as respostas políticas que esperam se confinam aos limites do sistema social capitalista, procurando apenas reformá-lo — nuns casos pela direita, noutros pela “esquerda”.

A crise, porém, não se limita à questão económica e às condições de vida. Ela tem dimensões muito mais vastas. O fluxo imparável de refugiados, os sinais de enfraquecimento e desarticulação das instituições, a perda de controlo dos próprios actos políticos (como acabou por ver-se no referendo convocado por Cameron) são sintomas de uma sociedade à beira da ruptura, incapaz de responder às necessidades mais básicas de milhões de pessoas que nela vivem ou lhe batem à porta, quanto mais às necessidades de liberdade e de progresso.

Não é pois o “projecto europeu” — pintado em tons de rosa pelas classes dominantes e por sectores reformistas, e que a lamúria oficial agora se pôs a carpir — que está em causa com o abandono britânico. Isso será apenas um episódio mais. O que realmente fica à vista é a decadência de toda a sociedade capitalista, com a novidade de ser o mundo desenvolvido o foco dessa decadência. Contra isso, de nada vale procurar saídas para a crise do capitalismo — a resposta terá de encarar a necessidade de sair do capitalismo em crise.






Um Comentário a “Que saída?”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Julgo que em última análise o apoio maioritário do povo inglês à saída da UE se deve sobretudo ao próprio espírito que o caracteriza. Lembremo-nos por exemplo do seu espírito de independência que já vem desde o Império Romano, passou depois pela independência face à soberania do Vaticano quando Henrique VIII se tornou chefe da Igreja anglicana, depois foi a derrota estrondosa de Filipe de Espanha seguindo-se Napoleão e a Alemanha Nazi. Julgo que não é subjectivamente um apoio explícito à extrema direita mas sim uma mera coincidência de posições dado que o chamado centro democrático burguês pôs-se de joelhos face a um directório, esse sim de extrema direita encapotado de liberal e democrata. Pena é, mais uma vez que a chamada esquerda colabore com a “reforma europeia” recorrendo ao argumento tanto a seu gosto do perigo da extrema direita como se estivéssemos ainda em 1929. Quanto à força do proletariado ela é bem visível, cuja realidade exige uma análise bastante profunda que não pode ser tratada num mero comentário circunstancial.

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