Editorial

Mais além

Sábado, 21 Maio, 2016

As previsões pessimistas da Comissão Europeia sobre a economia portuguesa; as organizações patronais em coro a apontarem o ‘irrealismo’ das metas do governo; finalmente a quinta coluna PSD/CDS a fazer eco dos ‘avisos’ vindos da União Europeia e da Alemanha — tudo isto se conjugou nas últimas semanas para apertar o cerco ao governo de Costa. O sentido disto é claro.
Não se trata, obviamente, de combater qualquer extremismo de que o PS ou os seus aliados sejam mentores. O capital nacional e europeu, pura e simplesmente, não admite nenhuma veleidade fora da regra absoluta que é degradar o trabalho e valorizar o capital. É esse o núcleo da ‘austeridade’ de que a burguesia não abdica.

Há um quadro objectivo que fundamenta os receios do capital: o marasmo evidente e os presságios de uma recaída mundial na crise, que os cálculos recentes do FMI apontam. Esta percepção segura leva a burguesia de todos os azimutes a adoptar as medidas mais extremadas no confronto diário com os trabalhadores.

Mas isto significa que os trabalhadores são forçados pelas circunstâncias a ter de enfrentar o capital com o espírito de lhe resistir e de inverter a relação de forças que lhes é desfavorável. Não há hipótese de dividir a meio os custos da crise.
Não será pois com as panaceias do PS que vamos lá. Os poucos ganhos obtidos desde Dezembro só servirão se forem tomados pelos trabalhadores como o sinal de que podem e devem ir mais longe. Não servirão de nada e voltarão para trás se alimentarem a ilusão de que, grão a grão, se faz ceder o capital.

Não basta exortar o PS a resistir à pressões da UE. Não basta, nem é essa a via: a via é criar nos trabalhadores a certeza de que só a força de um grande movimento social pode fazer a burguesia temer os efeitos de uma confrontação de classes.
Tudo ao contrário das juras de moderação da UGT no 1.º de Maio. E muito para além da semana de lutas reivindicativas avançada pela CGTP.






2 Comentários a “Mais além”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Por enquanto, os trabalhadores e os pensionistas ainda estão a perder em relação àquilo que lhes foi roubado pelo anterior governo. Esse verdadeiro assalto à sua carteira que não teve correspondência na luta sindical nem na revolta ainda está por recuperar em relação ao seu vencimento resultante da venda de trabalho ao Estado e de certo modo ao patronato. O subsídio de Natal continua nos cofres do Estado dado que o “seu pagamento” em duodécimos não cobre os vencimentos auferidos antes de Vítor Gaspar ter recorrido ao saque praticado pelo governo de P. Coelho. Por isso não existem ganhos obtidos mas apenas uma pequena recuperação do dinheiro que lhes foi espoliado. Quanto à questão da “força de um grande movimento social” a desencadear, só um milagre o pode originar, e só quem acredita em milagres o pode imaginar…

  2. leonel clérigo disse:

    FAZER “BAILAR O SOL”…

    1 – Se em Fátima o “O Sol Bailou ao Meio-dia” no começo do Século XX, será assim tão difícil encontrar um novo Padre Formigão que o faça bailar 100 anos depois?…
    Esta uma questão curiosa à qual julgo que Afonso Gonçalves responde negativamente acima: “milagres”, são só para uns quantos – já que é necessário muito saber, trabalho e organização. Estou de acordo com ele. Se mesmo os que se movimentam no mundo dos “milagres” têm, por vezes, dificuldade em realizá-los – como o “milagre” das escolas “privadas” sustentadas pelo “orçamento”, à maneira dos Bancos -, que dizer dos alheios a esse mundo “milagroso”?

    2 – Em minha modesta opinião, os “movimentos sociais” têm, de facto, regras próprias: não basta “assobiar” ou pegar num “altifalante” e aí está o “movimento” a correr a galope. Aliás, se olharmos o “passado” e meditarmos nos resultados de se tentar “abrir a crise” em “período de refluxo”, talvez se esclarecesse que o “vontade” é coisa de grande importância, mas é curta. Não se trata então de se cultivar “manjericos”, como alguns ainda julgam: é só regar e pôr ao luar. Nestas questões, há aspectos “objectivos” que é preciso acautelar e saber, no que alguém já designou por “análise concreta da situação concreta”. Não é fácil fazê-la mas se não fôr feita, nada feito. Ou melhor: se ao poeta lhe bastava saber “…que não vou por aí”, nesta questão temos que saber igualmente “para onde vamos” (estratégia) e, sobretudo, “por onde vamos” (táctica).

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