Editorial

O pânico

Quinta-feira, 5 Novembro, 2015

A direita portuguesa anda de cabeça perdida. Porquê? Habituou-se, em 40 anos e sobretudo nos últimos quatro, a fazer o que queria sem réplica à altura: distribuir lugares entre si, roubar à vontade, impor todos os sacrifícios à massa trabalhadora. Em 4 de outubro a autoridade formal para o fazer sofreu um abalo inesperado. Tanto bastou para que se seguisse o pânico.

O pânico da direita tem a ver com a fragilidade que, como toda a burguesia bem sabe, afecta o seu próprio poder, debilitado por uma crise interminável que lhe estreita a capacidade de comprar o sossego das classes assalariadas — e ao mesmo tempo a obriga a espoliá-las cada vez mais.

As alusões exaltadas ao fantasma do PREC traduzem o receio das classes dominantes do retorno da luta de classes, da luta anticapitalista. Um fantasma mais temível ainda que o PREC propriamente dito porque um movimento desses, hoje, não se levantaria contra uma ditadura caduca — mas contra uma democracia apodrecida e sem saída.

Não teria por alvo meia dúzia de favoritos protegidos por um regime fechado — mas uma classe inteira de capitalistas que estendeu a exploração assalariada a todos os cantos do país.

Não teria como tarefa expandir e modernizar um capitalismo nacionalista, incipiente, dependente da mama colonial — mas suplantar um capital senil, internacionalizado, parte integrante de uma teia imperialista, que constitui ele mesmo um obstáculo ao crescimento material e ao progresso social.

Não teria de arrastar o peso morto de um campesinato analfabeto e temente a deus — mas soltaria as energias de um proletariado muito mais numeroso e instruído.

Porque, enfim, um tal movimento não seria desencadeado por uma tropa cansada da guerra, nem tutelado por nenhum MFA — mas seria gerado pelas contradições do regime de exploração e tenderia por isso a mobilizar a massa dos assalariados e a assumir a forma de um confronto de classe contra classe.






Um Comentário a “O pânico”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    É um facto indesmentível, a ala mais fascista do poder está sem norte. Mas isso não significa que uma outra parte da classe capitalista fique completamente desorientada e entre em desespero, até porque não há qualquer razão para isso. Depois de quatro anos de aviltamento sobre quem vive do seu trabalho ou é assalariado é tempo de recorrer a um certo alívio provisório e equilibrar o descalabro da crise capitalista. O capitalismo europeu vai pois oferecer uma pequena folga aos enormes sacrifícios dos trabalhadores e depois voltar a acertar contas. Nada ficou alterado: o desemprego sobe e desce uns décimos, o salário mínimo promete outro salário mínimo e o capital sobem em flecha graças à especulação financeira e a outros critérios de mais valias que arrastarão para a pobreza mais refugiados do capitalismo belicista.
    Os arautos da rebelião do poder nas ruas, de mãos vazias, nada poderão fazer contra isso por mais boa vontade que manifestem nos seus intentos.

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