Crise, soberania nacional e luta de classes (I)

Uma crise passageira, ou o sinal da falência do capitalismo?

Por uma Plataforma Comunista - Terça-feira, 4 Agosto, 2015

barcoencalhadoProsseguindo a divulgação de temas debatidos em torno do manifesto Enfrentar a crise, lutar pelo socialismo — Uma perspectiva comunista, publicamos o resultado de discussões tidas a respeito da natureza da crise actual do capitalismo e das questões políticas que ela coloca aos comunistas.
A questão que o texto seguinte procura tratar é esta: A crise é passageira? pode comparar-se às crise cíclicas passadas do capitalismo? se não, que desafios políticos se levantam para responder à situação?
Proximamente abordaremos uma outra questão: O domínio do capital financeiro e das potências imperialistas faz da defesa da soberania nacional e das instituições democráticas o centro da luta política? como colocar a questão em termos de luta de classes?

A crise é passageira ou veio para ficar?

A crise capitalista que vivemos dura, na sua fase declarada, há 8 anos. Não há quem não fale dela e não há forças políticas que não a tomem em conta para os seus planos. Mas a noção dominante nas organizações de esquerda não a considera como um sinal da decadência do sistema capitalista. Tudo se passa como se a considerassem como mais uma das crises cíclicas do capitalismo, a ser ultrapassada por um novo surto de crescimento.

Acontece porém que não há nenhuns sinais de retoma económica digna desse nome em nenhuma parte do mundo. O pouco crescimento publicitado aos quatro ventos não passa de um débil sinal de vida do sistema, incapaz de valorizar o capital acumulado. Mesmo os países periféricos com maiores taxas de crescimento estão a ser arrastados para baixo pela depressão das grandes metrópoles — os principais mercados consumidores. E o sério risco que se perspectiva é o de uma recaída mais devastadora ainda do que a de 2007-2008.

Um capitalismo estagnado

Não se trata de “má gestão” dos negócios. No centro destes factos está a diminuição da taxa de mais valia, o consequente baixo ritmo de acumulação de capital, as limitações de expansão do sistema. As decorrências são conhecidas: aumento exponencial da massa de desempregados, quebra nos níveis salariais, concentração acelerada e competição feroz entre sectores capitalistas, crescimento gigantesco do aparato financeiro que amontoa cada vez mais capital fictício sem possibilidade de valorização produtiva. Tudo isto é sinal de que o sistema capitalista mundial entrou em estagnação — entrou na sua fase senil.

Como responde a esquerda às exigências colocadas por esta crise? Regra geral apontando o dedo à “má gestão”, condenando o “egoísmo” capitalista, denunciando o que considera “erros” de política económica, verberando o “neoliberalismo” que não olha “às pessoas”, sugerindo “medidas de correcção” e propondo “nova gente” no parlamento, à frente do Estado e do governo.
Esta esquerda parece assim viver na expectativa de que a crise seja passageira e que voltem os tempos em que, com os negócios em crescendo, o capital não tenha desculpas, diante de umas boas reivindicações de massas, para não conceder melhorias salariais, empregar mais gente e parar com as violências sobre os trabalhadores.

Que fazer de um sistema social moribundo?

E se não for assim, se a crise tiver vindo para ficar como tudo aponta? É bom, neste caso, que se leve a sério o que a própria burguesia diz, e que os seus propagandistas espalham todos os dias: acabou o progresso contínuo, acabou o viver amanhã melhor que hoje, acabou o emprego garantido, acabou a ascensão social por via do salário. Neste aspecto só há que louvar a crueza com que a burguesia faz o diagnóstico do seu próprio sistema económico e social — e acrescentar o que ela não diz: o capitalismo chegou ao seu termo histórico, é hoje um obstáculo ao progresso, não serve mais os interesses sociais, precisa de ser suplantado por uma outra organização social.

Se não estiver focada nesta marca de fundo da sociedade actual, de que a crise é o revelador, a perspectiva da esquerda sobre as transformações sociais a operar hoje será nula. É por isso que a larga maioria das organizações de esquerda esgotam os seus esforços políticos numa utópica reforma democrática do sistema social existente — quando as condições materiais do mundo contemporâneo e a crise geral do capitalismo apontam o socialismo como a saída do beco para que a humanidade foi conduzida.






Um Comentário a “Uma crise passageira, ou o sinal da falência do capitalismo?”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    De facto, como indica o texto publicado não se vislumbra o fim da crise capitalista como enunciam os mais especialistas do imperialismo alemão e americano. Cada vez mais se arrastam para o abismo, e só a aventura de uma nova Guerra mundial os poderá fazer sobreviver. É patente cada dia que passa essa nova possibilidade. Só o revisionismo e seus comparsas ( como os anti-stalinistas e trotsikistas do séc. passado acreditam nessa possibilidade) mas a história fiel aos factos não perdoa
    mesmo àqueles que sempre acreditaram num final feliz como se diz actualmente nos anúncios do jornal.

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