O que faz falta

Manuel Raposo - Terça-feira, 7 Julho, 2015

votosecretoAs recentes sondagens de opinião que dão um empate entre PS e PSD/CDS para as eleições legislativas de Setembro/Outubro desenham uma imagem clara do que vai pelo país.

Primeiro, o PS não é alternativa à política de austeridade levada a cabo, há já 4 anos, pela coligação no governo. O facto revela que os portugueses têm memória do que foi a governação do PS, que iniciou a política de austeridade com os PECs, abrindo assim caminho à austeridade pura e dura do governo actual. E que se lembram também que, sob a batuta de Seguro, o PS deu a Passos e Portas, e ao presidente da República, o oxigénio de que precisaram para ultrapassar a crise governativa do verão de 2013 e assim poderem completar a obra que está à vista. E, claro está, fica também à vista de todos como o novo líder António Costa e os seus apaniguados gaguejam sempre que se trata de responder à necessidade de pôr termo à política de austeridade.

Segundo, nenhuma outra força partidária é vista como alternativa, facto que revela a percepção da incapacidade de todas elas para produzirem uma viragem no rumo político do país. O eleitorado vê assim que, mesmo as forças situadas fora do chamado “arco do governo”, se colocam, de um modo ou de outro, no campo do poder. O respeito que essas forças continuam a nutrir pelas instituições, as suas tímidas sugestões de remendo da teia do poder, a ideia de que por via de uma “democratização” do regime e da escolha dos “homens bons” para os lugares importantes tudo pode melhorar — é posição que não corresponde ao sentimento muito generalizado de que tudo à nossa volta está podre e precisa de ser mudado pelo fundo. Não admira pois que a abstenção (indiciada pelo enorme número de “indecisos” nas sondagens) seja o partido vencedor nas próximas eleições legislativas, como vem sendo em todas desde há tempos para cá.

Terceira conclusão obrigatória: o grau de descontentamento que existe na população trabalhadora não tem voz à altura. É este o lado verdadeiramente negativo da situação — a inexistência de uma corrente de ideias que promova o ataque ao sistema social-económico-político que domina o país. E no entanto as condições — crise prolongada do capitalismo, pobreza, revolta, descrédito nas instituições — estão maduras para isso.

Em que premissas pode assentar esse caminho para que nasça uma nova política? No convencimento por parte dos trabalhadores de que sem a sua intervenção activa na política nada pode mudar. De que essa intervenção terá de ser independente, em nome dos seus interesses de classe próprios. De que é preciso desacreditar o poder e as suas instituições, em vez de as tentar salvar. De que importa alimentar a revolta das massas contra o sistema de exploração.
É o que está por fazer.






Um Comentário a “O que faz falta”

  1. leonel clérigo disse:

    COMO SERIAM UMAS ELEIÇÕES COM EMOÇÕES FORTES?

    Apesar do que entendi ser uma convicção de MR, continuo a manter uma dúvida que me leva a uma convicção bem diferente: não considero que o “…empate entre PS e PSD/CDS – que parece já não o ser – para as eleições legislativas de Setembro/Outubro…revela que os portugueses têm memória do que foi a governação do PS, que iniciou a política de austeridade com os PECs, abrindo assim caminho à austeridade pura e dura do governo actual.” E se perguntarem donde me vem esta convicção da “memória curta” dos meus compatriotas, direi lapidarmente que ela não tem origem nas capacidades matreiras da burguesia capitalista lusa.

    1 – Esta minha convicção deriva mais do que me parece ser o conteúdo classista da nossa sociedade: uma sociedade ainda maioritariamente de pequeno burgueses, atrelada às velhas patacoadas da “iniciativa privada”, do “mercado”, da “liberdade” (nos negócios, claro!), do “empreendedorismo”, da “democracia” aldrabona – como se fosse possível tal milagre “democrático” num regime de produção que sobrevive à custa da exploração do trabalho alheio – e outras histórias de embalar que o burguês nos vem contando há dois séculos, sem resultados de qualquer espécie para além do natural e já enfadonho “desenvolvimento do subdesenvolvimento”. “Estamos melhores que ontem…” dizem os vigaristas burgueses com as opacas estatísticas do INE debaixo do braço. “Somos do primeiro mundo” dizem os sábios estudiosos da “economia” que foge a sete pés de ser política, fingindo não saber que o “subdesenvolvimento” tem o seu próprio “desenvolvimento”. O que é que queriam: que vivêssemos ainda nas cavernas!?…

    2 – Só numa sociedade onde é dominante a mentalidade pequeno-burguesa – e por isso Cavaco caiu aqui 20 anos como sopa no mel, como “tipo ideal” – se torna impossível vislumbrar um caminho, um rumo e dar uma sacudidela que meta no lixo a lengalenga sem fim duma burguesia que já nasceu decrépita. A “mediocridade universal” e acéfala a que temos estado condenados é um fruto maduro desta mentalidade pequeno burguesa que vagueia pelos poros da sociedade, se julga proprietária única da “agilidade mental” e abraça hoje a “novidade” redentora da “economia das compotas”, as novel “indústria (?) do turismo”, do “futebol” e dos “campos de golfe” e se dedica, na “política”, a fabricar “novos partidos” como cogumelos, como se os “projectos de sociedade” andassem por aí aos pontapés e a cair do céu aos trambolhões. Em vez de limparem o terreno, entendem que baralhar e dar de novo é um ofício rentável.

    3 – É certo que o forte aperto que, em época de crise cíclica, a Austeridade do Capital Financeiro impôs a largos sectores da sociedade portuguesa, forçou um pequeno “salto” das consciências de alguns sectores importantes. Mas para alterar esta mentalidade dominante é preciso um mais forte abanão que permita a elevação das gentes a outro nível de consciência que não o eterno enredar no balofo discurso burguês sem qualquer consequência no progresso da sociedade portuguesa: tudo irá ficar como dantes, até porque qualquer cinto dispõe de muitos furos utilizáveis.

    4 – Haveria uma maneira, próxima, de se ajudar a dar a volta a esta pastelada sem fim e pregar um valente “cagaço” ao fino burguês que se julga bem sentado no cadeirão e que tudo são favas contadas: cuspi-lo do poder e entregar este a outros. E por muito que custe a mudança, está isso nas mãos dos portugueses: castigar sem piedade, reduzir a pó nas urnas, esta burguesia manhosa e vigarista que, com palavrinhas mansas, se prepara uma vez mais para vigarizar. Mas isso seria pedir demais ao “apostólico” povo português.

    5 – Há já alguns anos atrás, tive oportunidade de colocar, numa sessão pública, uma interrogação ao socialista Victor Constâncio sobre o futuro de Portugal. Perguntei-lhe o que julgo bem simples e de fácil resposta: considerando que cada partido burguês que se abalança ao poder em época de eleições, trás invariavelmente na algibeira um “programa de desenvolvimento” assim como a convicção inabalável “connosco, isto agora vai!”, perguntei de seguida ao Dr. Constâncio porque será que a crua realidade nos mostra “que isto nunca foi”. A resposta do Dr. Constâncio foi lapidar e, uma vez por todas, elucidou-me sobre os propósitos da burguesia portuguesa acerca do “desenvolvimento do país”: “Portugal não fez a sua revolução industrial e já perdeu a oportunidade de a fazer”. O “Oráculo de Delfos” não faria melhor e o tempo parece vir demonstrando o óbvio: com esta burguesia decrépita “isto não vai a lado nenhum”.

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