Mudar de Vida entrevista trabalhadores da Valorsul

“Estamos em greve a 100%”

João Repas e Vladimiro Guinot - Quinta-feira, 15 Novembro, 2007

valorsul1_72dpi.jpgFomos esta manhã, dia 15, a S. João da Talha, à sede da Valorsul, e encontrámos os operários determinados na sua greve. “Estamos em greve a 100%!”. Quisemos saber em que consiste e como está a decorrer esta luta.
“Em Setembro levantámos a greve porque acreditámos nas promessas da administração que, afinal, não se cumpriram. Desta vez só paramos a greve se eles nos garantirem, por escrito, que aceitam discutir o aumento salarial sem retirar direitos consignados no nosso contrato colectivo de trabalho”, começou por nos dizer Rui Magno, operador de central. “Eles querem negociar os salários em troca de direitos e isso nós rejeitamos!”

“Somos cerca de 260 trabalhadores espalhados por cinco locais: São João da Talha (incineradora), Belas (tratamento e valorização orgânica), Lumiar (centro de triagem e ecocentro), Alverca-Mato da Cruz (aterro sanitário e tratamento e valorização das escórias)”, afirmou-nos António Garcia, gestor de stocks. E acrescentou: “A adesão à greve dos trabalhadores manuais é de 100%. Quem não aderiu à greve foram as chefias e os administrativos que, na sua maioria, são afilhados e amigos da administração. A produção está completamente parada”.

António Lima, caracterizador de resíduos, disse-nos: “Nós exigimos um aumento salarial mínimo de 40 euros por trabalhador. Estabelecemos uma percentagem de aumento salarial na ordem dos 3,7% mas garantindo sempre que o aumento mínimo nunca estará abaixo dos 40 euros. A grande parte dos salários é de 517 euros mensais e com 3,7% de aumento, a maioria só levava cerca de 19 euros de aumento mensal. A proposta da administração dá-nos 26 cêntimos de aumento por dia o que é gozar connosco! A empresa alcançou à volta de 22 milhões de euros de lucro, os administradores aumentaram-se em 33%, e a nós, que somos a força criadora da riqueza da empresa, só nos querem dar migalhas, não pode ser!”.

E continuou António Lima: “A administração faz circular que nós ganhamos mais de mil euros por mês… O que ela não diz é que, para que isso aconteça, temos de trabalhar 12 e mais horas por dia, sábados, domingos e feriados. Não diz que, assim, não temos vida social nem tempo para a família! Não somos nós que queremos fazer horas extra, são eles que nos obrigam! Metam mais pessoal, criem mais equipas e já não haverá necessidade de se fazer horas extraordinárias.” E conclui António Lima: “Não aceitamos que nos reduzam o tempo de descanso de 12 para 8 horas. Isso só lhes enche mais os bolsos e a nós só nos traz mais doença!”

Falámos também com David Costa, delegado sindical, que disse: “Nós garantimos os serviços mínimos de segurança. Temos piquetes a tomar conta de tudo para que não haja perigo para ninguém. Quem está a colocar em perigo as instalações da empresa e as populações é a administração que chamou a polícia para permitir a entrada dos camiões para descarregar o lixo na fossa. Esta já ultrapassou em 20% a sua capacidade máxima admissível!”

Enquanto o sindicalista estava a falar connosco, tocou o seu telemóvel. Depois de atender, anunciou-nos: “Acabámos de receber a informação de que a Inspecção de Trabalho considera ilegal a substituição dos trabalhadores da portaria da Valorsul por outros contratados e, também, considera ilegal a presença da polícia nas instalações da empresa”.

Num àparte, um dos trabalhadores falou-nos das suas preocupações: “Olhe, aqui há tempos, ao rasgar um saco de plástico grande, o sangue espirrou por tudo o que era sítio. Era um saco de resíduos hospitalares com restos humanos, seringas e tubos com sangue. Esses lixos hospitalares deviam ser incenerados noutro local e não aqui. Nós aqui estamos expostos a muitos perigos!”

E concluiu: “Acabámos de fazer um plenário e decidimos prosseguir a luta até que a administração decida aceitar as nossas reivindicações. Apelamos à compreensão e solidariedade das populações com a certeza de que os responsáveis pelos incómodos causados não somos nós, os trabalhadores, mas sim os patrões!”

O Mudar de Vida manifestou aos grevistas da Valorsul a sua solidariedade, e apela a todos os trabalhadores para que façam o mesmo.






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