Outra vez em nosso nome, não!

Tribunal-Iraque - Domingo, 1 Setembro, 2013

A vez da Síria
Com o mesmo argumento “humanitário” de defesa das populações e com falsificações tiradas a papel químico, foram desencadeados os ataques à Jugoslávia (1999), ao Afeganistão (2001), ao Iraque (1991 e 2003), à Líbia (2011).
Assad, o presidente sírio, será, assim, o segundo Kadafi, o terceiro Saddam, o quarto Bin Laden e o quinto Milosevic.

Uma “comunidade internacional” restrita
Dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, três estão contra uma intervenção na Síria (Rússia, China e Reino Unido, este contra a vontade do governo). Também a Alemanha declarou estar contra. O que significa que a “comunidade internacional” representada, mal ou bem, pelas Nações Unidas rejeita a intervenção. Além disso, sondagens à opinião pública revelam que 60% dos norte-americanos, 40% dos franceses e 50% dos britânicos se opõem à guerra. Mesmo assim, o presidente Obama, ao anunciar o propósito de atacar a Síria — cujo único motivo são as ambições imperialistas dos EUA — teve o desplante de invocar a vontade da dita “comunidade internacional”. Em nosso nome, não.

As “provas”
Ao que consta na comunicação social, os inspectores da ONU que recolheram dados na Síria sobre o alegado ataque com armas químicas não vão dizer no seu relatório de que lado partiu o ataque — apenas irão confirmar a sua existência. Situação ideal para as potências que já culparam o regime sírio e declararam a intenção de uma agressão militar. Assim, as “provas” contra Assad podem ser dadas pelos serviços secretos dos agressores e o papel político da ONU no assunto fica anulado. É com base nessas “informações secretas” que norte-americanos e franceses manifestam a “convicção” de que o regime sírio está implicado no ataque de 21 de Agosto. Tal como Bush, Colin Powell e Blair (e, atrás deles, Aznar, Durão Barroso e Portas) fizeram há 10 anos contra o regime iraquiano.

A doutrina Cameron
O primeiro-ministro britânico, Cameron, levou ao parlamento uma moção em que requeria a aprovação do ataque militar à Síria e as modalidades de o fazer. Saiu chumbado por uma maioria que incluiu deputados do seu próprio partido, o que representou uma assinalável derrota política. Sabendo que a ONU não aprovaria o ataque (dada a oposição da China e da Rússia), e faltando-lhe assim a cobertura “legal”, Cameron defendeu, mesmo assim, a “legalidade” da agressão à luz de uma “doutrina de intervenção humanitária”.

Hollande esclarecedor
Na passado dia 29, o presidente francês Hollande recebeu um representante da chamada “Coligação síria” e, em defesa do ataque militar contra o regime de Damasco, argumentou o seguinte: “Tudo deve ser feito para uma solução política. Mas ela só virá, precisamente, se a Coligação for capaz de aparecer como uma alternativa com a força necessária, nomeadamente força militar”. Por outras palavras, os rebeldes que Hollande apoia não são alternativa porque não têm força política nem militar; é portanto precisa uma intervenção militar externa que abata o regime sírio para que a oposição ganhe força militar e tenha assim força política. Está tudo dito sobre a “intervenção humanitária” em marcha.

Falta de luz
No passado dia 22, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete (largos anos presidente da Fundação Luso-Americana), manifestou a “preocupação” do governo português com a situação na Síria, perante as notícias de que teria havido um ataque com armas químicas. Interrogado sobre a posição do governo, respondeu que era “muito cedo” para tomar uma decisão e que estava “um pouco às escuras”, situação em que se mantém até à data. Conhecido, porém, o alinhamento do governo com a política imperialista e o historial de servilismo para com os EUA, é de esperar que a “escuridão” que Machete invoca se dissipe logo que o governo receba uma luz vinda da Casa Branca. A menos que, desta vez, o não da Alemanha (que é quem manda no BCE e na troika) pese mais nos pratos da balança.

O falcão Pisco
Os deputados do PS da comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros escreveram ao governo instando-o a tomar posição sobre o conflito na Síria, insinuando a culpa do regime da Assad no alegado uso de armas químicas. O deputado Paulo Pisco,
coordenador parlamentar do partido para as relações internacionais, garantiu que o partido tinha “uma posição clara sobre o assunto” e não hesitou em declarar à TSF, no dia 27, que “houve um crime contra a humanidade”, apelando à “intervenção militar”. Indo mais longe que Obama, Pisco propôs que se “ponha fim ao regime” de Assad, argumentando que se trata “de um dos casos em que se justifica uma intervenção de natureza militar”, com ou sem mandato da ONU. Diante do voo deste falcão peregrino, o porta-voz do PS veio dizer que as declarações de Pisco eram “pessoais” (!) e António José Seguro teve de fazer o papel de pomba apelando à via diplomática. Mas não excluiu a intervenção militar, desde que tenha “mandato legal multilateral”.

Tribunal-Iraque
(Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque)
1 de Setembro de 2013






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