A democracia levada à letra

Manuel Raposo - Terça-feira, 11 Junho, 2013

O primeiro-ministro, quase todos os ministros e secretários de Estado, o próprio presidente da República têm sido perseguidos e apupados por todo o país nos últimos meses. As suas intervenções públicas são muitas vezes sabotadas e mesmo impedidas. É a expressão do desprezo da população pelos governantes, do ódio à sua política e, em limite, da sua aversão ao poder. Não são grupos restritos: são trabalhadores, estudantes, jovens, sindicalistas, utentes de serviços de saúde ou de transportes, taxistas. Mesmo se os ajuntamentos contam dezenas de pessoas, eles expressam a opinião de milhões de cidadãos pelo país fora e, por isso mesmo, esses protestos são de facto protestos de massas. Por muito que isso custe à opinião dominante, é o direito à liberdade tomado à letra, é a democracia em acto.

O argumento sistemático do poder e dos visados é acusarem os manifestantes de falta de sentido democrático. “Deixem-me expressar a minha opinião”, dizia há dias, patético, o ministro Poiares Maduro.
O argumento é desesperado e torna-se ridículo. A corja que se assenhoreou do poder à custa de mentiras e de promessas violadas, que subverte a Constituição que jurou defender, que despede e corta nas condições de vida de todos os assalariados, que lança na miséria milhões de pessoas de todas as idades — vem clamar pelo direito à palavra. A escumalha (como dizia há dias uma ouvinte da TSF) que se expressa quando quer pelos meios de comunicação, que tem ao seu serviço centenas de lacaios pressurosos — acusa os seus opositores, sem outros meios do que a viva voz, de falta de respeito democrático.

A raiva da população que assim se expressa não só é compreensível e justificada como é legítima. Boicotar e sabotar qualquer acto do governo é um gesto de liberdade política que só merece ser apoiado e generalizado. Desacreditar o poder nas figuras que o representam, denegri-lo, mostrar a sua natureza corrupta significa elevar o espírito de luta da população, ajuda a tornar clara a oposição irredutível de interesses entre quem domina e quem é dominado, contribui para tornar o povo independente nas suas escolhas políticas.
Os que invocam a liberdade democrática contra os manifestantes ou são pacóvios ou são oportunistas que tentam travar a onda de revolta. É a população vitimada pela política de austeridade que tem direito a clamar pela liberdade de falar e de reduzir ao silêncio os que a cavalgam: governantes, presidentes, banqueiros, patrões. O que os manifestantes têm feito é apenas reclamar para si uma pequena parte do seu direito (usurpado!) a falar e a agir politicamente.
Quem não vê isto, não percebe que está em curso uma dura luta de classes em que não pode haver ganhos para ambas as partes, nem sequer no que diz respeito à palavra.

Mas há sempre os serviçais que se aplicam em amplificar os argumentos pífios do poder, e se esforçam por conferir-lhes textura “ideológica”. É o caso do senhor Ferreira Fernandes, no DN de 4 de Junho. Numa coluninha em que diz diariamente o que quer, ou o que sabe dever dizer, FF insurge-se contra os “gritadores” que interromperam o ministro Poiares Maduro e o secretário de Estado Sérgio Monteiro. Cheio de zelo democrático, condena a tentativa de “negar o direito à palavra” aos governantes. Defende Poiares e Monteiro como “cidadãos” em quem os manifestantes “atacaram uma liberdade fundamental (…) com a desculpa (!) de eles pertencerem ao actual governo” — governo esse, lembra FF, legitimado por eleições. Por isso, a acção dos manifestantes, ou dos “seus apaniguados”, conclui FF, são condenáveis ”métodos fascistas”.

A prosa é néscia. Soa como os velhos altifalantes salazaristas Novidades ou Diário da Manhã, agora com argumentos “democráticos” — mas, tal como ontem, em defesa do poder instalado.
Não vale a pena lembrar a pessoas como FF (que fizeram vertiginosos trajectos políticos da esquerda para a direita e assumem hoje o desvelo dos cristãos-novos) que o formalismo democrático não anula a luta de interesses entre as classes e que é isso que se está a passar sob os nossos olhos duma forma cada vez mais gritante; que tais interesses são irreconciliáveis e que não há equilibrismos que os anulem; que o exercício prático da democracia pelo povo significa retirar força aos poderosos. Mas já que se mostra tão preocupado com o respeito pelos princípios democráticos, não ficava mal a FF começar por qualificar, a essa luz, as repetidas violações da Constituição e a sistemática negação das promessa eleitorais pelo actual governo. É por aí que “os métodos fascistas” se instalam dentro da concha esvaziada da democracia.






Um Comentário a “A democracia levada à letra”

  1. Margarida disse:

    Aprecio muito o seu blog. Todos os dias tenho visitado o mesmo e delicio-me com os seus posts. Espero que continue com o bom trabalho.

    Cumprimentos

    Margarida Rodrigues Fonseca Dias

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