Editorial

União Nacional

Domingo, 12 Maio, 2013

A política de austeridade chegou a um limite a partir do qual não poderá prosseguir sem o concurso de outras forças além das que compõem o governo. A ideia do banqueiro Ulrich de que o povo aguenta mais (porque ainda não está todo ele de mão estendida pelas esquinas…) traduz a convicção íntima da burguesia dominante. Mas, para ir avante, tal linha precisa de uma União Nacional. É esse o sentido do apelo, de todos os sectores das classes dirigentes, para que o PS seja incluído no “esforço patriótico”.

A austeridade não só gerou a hostilidade das classes assalariadas contra o governo, pela quebra de nível de vida. Afasta também desse mesmo governo boa parte das classes pequeno-burguesas afectadas pela destruição da pequena economia nacional. Ora, é o PS a força política do poder com melhores condições para tentar travar este divórcio. É esse o papel das promessas de “crescimento” e de “austeridade moderada” com que tenta contrapor-se à política conduzida por Passos Coelho.

Mas as medidas de “estímulo económico”, sejam do PS ou do governo, não alteram o trajecto da crise capitalista, assente em dois carris inevitáveis: baixa dos custos do trabalho (com redução de salários e de apoios sociais e desemprego) e concentração do capital (com destruição acima de tudo da pequena propriedade e drenagem de riqueza para os grandes núcleos capitalistas, nacionais e europeus).

A austeridade vai, pois, prosseguir enquanto a crise durar (e ninguém lhe vê o fim) e enquanto a burguesia tiver condições para a impor. E é neste último aspecto que a ajuda do PS se torna útil às classes dominantes. O PS é chamado ao seu papel de sempre: colar, nos momentos de crise, as camadas sociais médias ao poder e deixar a massa trabalhadora isolada.

Por isso, apesar das alfinetadas ao governo e do distanciamento que aparenta, Seguro não corta as pontes com Passos Coelho. A demarcação é, no caso, o regateio que precede o negócio.






2 Comentários a “União Nacional”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Neste momento de crise irreversível, só o PS é necesssário para reforçar as medidas anti-populares que a burguesia, por força das circunstâncias adversas a um clima de apaziguamento social pode suster. Mas não podemos esquecer o papel da “oposição democrática”, também ela absolutamnete necessária para legitimar o regime e além disso para não ultrapassar a sua legalidade política e social. Por isso embora o PCP revisionista não seja mencionado, é claro que a sua omissão pelo poder em geral, tem como objectivo não prejudicar este status quo que naturalmente poderia afectar esta táctica tão engenhosa.

  2. António alvão disse:

    “Se há tanta crise é porque ela deve de ser um grande negócio” (Jô Soares).
    O que é que se vai fazer com o mesmo povo do Guerra Junqueiro; e o que é que se vai fazer com os mesmos políticos do Eça …
    Manuel Alegre queixou-se há tempos de que “em Portugal não há revolucionários”. Hora não havendo revolucionários, o gansterismo no poder encontra campo fértil para continuar a dar cabo dum povo e dum país, como no passado outros o fizeram, nomeadamente, entre outros: o Sebastião, o João VI, o Cabral, o Carlos/João Franco, Salazar, e agora estes!
    “Se uma lei é injusta, o correcto é desobedecer” (Gandhi). Temos a arma da desobediência civil ao nosso alcance e não a utilizamos porquê?

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