O 14 de Novembro e o aparelho repressivo de Estado

Carlos Completo - Segunda-feira, 19 Novembro, 2012

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.” Bertolt Brecht

Em anterior artigo de Urbano de Campos ficou expressa a posição do Mudar de Vida no apoio à Greve Geral de 14 de Novembro. A grande dimensão por esta assumida e o seu significado apareceram, contudo, por iniciativa própria dos jornalistas ou a mando dos seus chefes, ofuscados na comunicação social pelos acontecimentos da parte final da concentração de São Bento. Apesar de não estar de acordo com a acção de alguns dos manifestantes (embora uns pudessem estar sinceramente revoltados e, outros, provavelmente, não passarem de vulgares provocadores policiais), que dedicaram grande parte do seu tempo a atirar pedras à polícia fardada, considero dever repudiar fortemente a actuação das forças repressivas.

Por outro lado, para além da efectiva violência exercida pelo actual governo, nomeadamente através das brutais medidas insertas no OE 2013, que é de presumir possam provocar práticas políticas e sociais violentas por parte de muitos dos atingidos, há, também, algumas outras questões, de fundo, que penso devam ser salientadas.

No estado capitalista, as polícias e os tribunais, independentemente das “boas intenções” de alguns dos seus operacionais, estão integrados no aparelho repressivo de Estado, portanto, ao serviço da classe dominante. A defesa dos capitalistas (e dos seus homens de mão), dos seus lucros, assim como do seu Estado, são o essencial das tarefas policiais. E nestas tarefas cabe também o papel do agente provocador. O militante político deve estar alerta contra este tipo de gente.

Mais, quando há mal-estar no interior das forças repressivas, é previsível que o Estado lhes pague melhor, para que elas cumpram bem o seu papel na defesa dos interesses burgueses. Mesmo em tempos de “crise” os governantes não se esquecem disso. Daí que o aumento das verbas dedicados à Segurança no OE 2013, subindo 10%, quando baixam as verbas para quase todas as outras funções do Estado, encontrem aqui uma boa explicação.

Quanto à discussão do porquê na demora de intervenção das forças policiais e da forma como estas a levaram a cabo, penso que na gestão do tempo e do modo de o fazer o poder político procurou ganhar tempo para que ficasse demonstrado que os maus eram os manifestantes e que os justos eram os polícias. E como estes seguiram as orientações governamentais, espancando a torto e a direito, dando azo à aplicação dos seus instintos animalescos, tratou-se, sobretudo, de procurar amedrontar a generalidade dos trabalhadores e do povo, com o objectivo de os desmobilizar em relação a acções futuras. Já é tempo de alguma gente que se diz de esquerda deixar de bater palmas a estes “filhos do povo” fardados ou não!

Embora nesta fase o governo ache boa a táctica de distinguir entre a concentração da CGTP, que considerou bem comportada, e a “meia dúzia de profissionais da violência”, no dia em que as mobilizações dos explorados e oprimidos se tornarem mais massivas e violentas, quando o poder do capital estiver seriamente em causa, a burguesia não hesitará em bater forte, prender ou até mesmo matar, sem fazer grandes distinções, desprezando claramente as regras do chamado estado de direito. E, para fazer face ao que aí vem, torna-se cada vez mais imprescindível e urgente a existência de sólidas organizações dos trabalhadores e dos militantes políticos.






3 Comentários a “O 14 de Novembro e o aparelho repressivo de Estado”

  1. João azevedo disse:

    E porque não, começarmos a marcar encontros em que aqueles que defendem a necessidade de sólidas organizações dos trabalhadores, se pudessem encontrar e começar a debater o arranque dessas organizações. Aqui fica o alvitre.

  2. António alvão disse:

    Anteriormente, Urbano de Campos dizia:-“é preciso muito mais”, referia-se à greve geral. Eu perguntaria: mais o quê? Mais gente nas manifestações, convocadas pelas forças do situacionismo?
    Quando esta greve geral teve forte elogio do próprio poder e de toda a direita, alguma coisa está mal, não acham? Eu gostaria de saber, quantas greves gerais, e quanta gente nas mesmas é preciso para o poder troicano cair?
    Este governo sendo de direita e extrema direita, há já quem diga que o mesmo irá cair pela própria direita? Haver vamos?
    Mesmo depois do governo roubar ilegalmente os pobres a torto e a direito, prender e bater arbitrariamente nos mesmos – acusando-os de desobedientes e de desordeiros !!! Quase toda a esquerda alinhou com o governo no diapasão da critica aos famelicos da terra!
    O governo não quer concorrência no roubo, na ilegalidade, na violência, etc.
    Com esta esquerda politica que temos, aliada a alguns sectores de direita descontentes, estão a preparar o terreno para o regresso do PS ao poder. E não se sai deste ciclo infernal do capitalismo democrático!
    Revolucionários precisasse!
    A.A.

  3. J.M.Luz disse:

    Concordo inteiramente com a totalidade do texto, aliás já tinha manifestado a mesma posição pelos meios que me estão ao alcance.

    Mas reforço a ideia de que é necessário a criação de novas organizações politicas visto que as actuais não defendem uma politica anti-capitalista,nem tão pouco estão contra as medidas de austeridade e anti-laborais, por isso defendem a “renegociação” da divida, alegando que uma parte é “legitima” como se esta não fosse capitalista e não tivesse servido para servir os interesses financeiros e dos grandes grupos económicos.

    Assim acho que era interessante visto o “MV defender essa opinião, que devia fazer alguns colóquios sobre o assunto, para que se passe à prática e deixe de apenas ser opinião.Caso contrário e apesar de termos razão, se não se avançar acabaremos por ter tantas ou mais responsabilidades do que aqueles que traiem o proletariado consciêntemente.

    Um abraço aos amigos

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