O maquilhador do PS

Manuel Alegre, entre a cumplicidade com Sócrates e a boa consciência

José Mário Branco - Quarta-feira, 7 Novembro, 2007

Numa entrevista recente, Manuel Alegre, depois de afirmar que acha legítima qualquer das formas de ratificação do Tratado europeu – votação parlamentar ou referendo – diz: “Como as promessas são para ser cumpridas, talvez se devesse fazer o referendo”. Alegre acha que talvez Sócrates devesse cumprir a sua promessa eleitoral de um referendo sobre o Tratado europeu. E as outras promessas eleitorais? também achará que Sócrates talvez as devesse cumprir?

E acrescenta: “Se o referendo conduzir a uma discussão séria sobre o Tratado, vale a pena. Se for transformado em instrumento de luta política, então não vale a pena”. Lembra que “foi a favor da alteração da lei do aborto pela Assembleia da República e que é preciso ser coerente nesta matéria”. Que coerência e que matéria? Que distinção fará ele entre “discussão séria” e “luta política”? A alteração da lei do aborto pela AR foi, precisamente, consequência de uma vitória referendária! E a discussão séria sobre o assunto foi a substância dessa importante luta política.

Já quando foi candidato à Presidência da República, em suposta “franca oposição” ao seu partido, Alegre foi useiro e vezeiro nestes jogos duplos. Um dos episódios mais elucidativos foi o da votação do Orçamento de Estado de Sócrates, para 2006, em Novembro de 2005, e do qual declarou discordar. Que fez o candidato pró e anti-PS à Presidência? Votou contra? Nada disso. Saiu do hemiciclo no momento da votação, declarando que, “se lá tivesse ficado, votaria a favor, por solidariedade com o PS”…mas como não concordava, estaria ausente; mas tinha a garantia de que a sua ausência não punha em causa a aprovação do OE.
Nada disto teria qualquer significado se o movimento criado em torno de Manuel Alegre não tivesse a pretensão de se distinguir dos demais políticos do PS pela defesa do “poder dos cidadãos” e, sobretudo, da “ética em política”. Não estando em causa um juízo sobre a pessoa, interessa perceber a função de políticos como Alegre: disfarçar a cara do Partido Socialista com uma maquilhagem de esquerda.






3 Comentários a “O maquilhador do PS”

  1. murcon disse:

    Ética politica? Ahahah. Do PS já não se espera nada de bom. Penso que eles TODOS são muito maus, tal e qual como o ‘vendedor de pentes’.

  2. Jaime Pereira disse:

    Não podia estar mais de acordo com esta análise e denúncia sobre o PS e da sua pretensa ala esquerda.
    Há quantos anos o Sr. Mário Soares (grande timoneiro desta “democracia”) meteu o “socialismo dele” na gaveta?…
    Continuo a pensar que este dito partido socialista (que inclui todos os que o alimentam) é o principal entrave para haver uma profunda alteração na sociedade portuguesa.

  3. António Veríssimo disse:

    Zé Mário
    autorizas que publique este teu texto na próxim aedição do GAZETA POPULAR de que sou director?

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