EUA e UE sabotam planos de paz para a Síria

Manuel Raposo - Quarta-feira, 1 Agosto, 2012

Tal como fizeram na Líbia, os EUA e a União Europeia pretendem derrubar o regime sírio de Bachar al-Assad e colocar no poder um governo a seu gosto. A grande dificuldade para pôr em prática este plano tem sido a oposição da Rússia e da China. Ambas recusam aprovar na ONU sanções e medidas militares contra a Síria, e percebe-se porquê. Primeiro, pelo que sucedeu na Líbia: o aval que deram, na ONU, à criação de uma zona de exclusão aérea foi transformada de imediato numa acção militar ofensiva pelas forças da NATO. Segundo, porque um avanço ocidental sobre a Síria, com consequências sobre o Líbano e o Irão, significaria uma consolidação da NATO no Médio Oriente e um passo mais em direcção às fronteiras da Rússia e da Ásia Oriental.

Nesta guerra que já leva mais de um ano, há muito que as legítimas aspirações dos sírios à democracia e à liberdade foram postas fora da contenda. Empalmadas pelos EUA e UE, essas aspirações servem agora apenas de cobertura para um outro desígnio: estabelecer na Síria um regime aliado. As vantagens seriam evidentes: dar mais margem de acção a Israel, liquidar o Hezbolá no Líbano, retirar aliados ao Irão e, não menos importante, varrer a base naval da Rússia existente em Tartus, na costa síria.

Apoio aberto aos rebeldes

Os chamados “rebeldes” sírios são corpos de mercenários de origens diversas (testemunhos no terreno falam de jordanos, sauditas, iraquianos) pagos e armados sobretudo através da Arábia Saudita e do Catar, mas também da Turquia e de Israel. O apoio que recebem dos EUA e da UE é conhecido e aberto. O designado Conselho Nacional Sírio (CNS) está instalado em França e na Turquia, do outro lado da fronteira. E o chamado Observatório Sírio dos Direitos Humanos, a fonte quase exclusiva dos relatórios sobre as operações militares e as vítimas dos combates, é uma organização sediada em Londres.

Desde 2005, pelo menos, que os EUA canalizam fundos para a oposição síria. Em Janeiro de 2011, reabriram a sua embaixada em Damasco, depois de 6 anos de encerramento. O novo embaixador, Robert Ford, é um protegido de Negroponte, o organizador dos esquadrões da morte em El Salvador e no Iraque. Ford contactou os grupos de oposicionistas sírios e teve papel decisivo na criação de condições para as acções armadas. Dois meses depois de ter chegado a Damasco, começou a insurreição (dados da Global Research).

Os métodos para promover a guerra são terrivelmente semelhantes aos que foram aplicados no Iraque e na Líbia: criar divisões sectárias, acirrar diferendos religiosos, provocar morticínios que gerem escaladas de violência, atribuir ao governo sírio todas as violências e todas as vítimas.

Sabotar qualquer acordo

Por duas vezes, Kofi Annan, como representante da ONU, tentou pôr de pé um acordo de cessar-fogo que permitisse negociações políticas. Em ambos os casos os EUA e a UE trataram de os sabotar.
Dias depois do primeiro acordo, lançado em Março, o chamado “Grupo de Amigos da Síria”, em que pontificam os EUA e a UE, reconheceu o CNS como “representante de todo o povo sírio”, pondo de lado não só o regime como os sectores da oposição que não lhes são afectos. Prosseguiram o apoio às acções armadas dos rebeldes culpando as tropas sírias pela continuação dos combates. E conseguiram assim que o plano fracassasse.

Um segundo acordo proposto por Kofi Annan em final de Junho, de novo em nome da ONU, previa a criação de um governo de transição constituído com membros do actual poder e da oposição e, claro, a cessação das acções armadas. Subscrito a 30 de Junho em Genebra num primeiro momento, o acordo foi minado pelos EUA no dia seguinte num golpe de teatro próprio de trafulhas: a senhora Clinton recusou que desse governo fizesse parte Bachar Al-Assad, por “ter as mãos tintas de sangue”.
Uma vez mais, o propósito é prosseguir as acções armadas, como até aqui, através dos grupos rebeldes; e provocar a penúria entre a população por meio de sanções económicas, conduzindo a Síria aos caos.

O papel da NATO

Impossibilitadas de obter o aval da ONU para atacar a Síria, dada a oposição russa e chinesa, os EUA e a UE procuram motivos para uma intervenção através da NATO. É desse modo que tem de ser visto o papel da Turquia, membro da Aliança. A violação do espaço aéreo da Síria por um avião militar turco, abatido pelos sírios, foi um acto de provocação destinado a dramatizar a situação e a tentar internacionalizar o conflito. Vai no mesmo sentido a progressiva concentração de tropas e material de guerra por parte da Turquia na fronteira com a Síria – por onde passa muito do apoio, em homens e em armas, aos rebeldes.

Houve toda a razão em dizer, na altura do ataque à Líbia, que as forças imperialistas procuravam não apenas os recursos petrolíferos líbios mas sobretudo criar uma base de contra-revolução para desarticular as genuínas insurreições populares dos países árabes. O mesmo se passa com a Síria (onde nem sequer existem grandes recursos naturais), sobretudo à vista da persistente revolta popular no Egipto que ameaça, felizmente, retirar uma base importante ao domínio imperialista no Médio Oriente.

Igualmente havia razão em denunciar o novo estatuto da NATO, aprovado na cimeira de Lisboa, que não escondia o propósito de fazer da Aliança o braço armado comum da UE e dos EUA com funções de gendarme mundial.






Um Comentário a “EUA e UE sabotam planos de paz para a Síria”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    As sabotagens de um plano de paz para a Síria, é como não pode deixar de ser uma declaração de guerra dos EUA e UE para destruír o que resta da resistência árabe contra o imperialismo e contra Israel. Neste aspecto os EUA ganham uma vantagem impressionante sobre os seus insignificantes opositores Rússia e a China que não têm outro remédio senão observar de longe o esmagamento sistemático da civilização árabe que não pode resistir mais tempo. Depois da Líbia é a Síria, e segue-se obviamnete o Líbano para tranquilizar o expansionismo sionista.
    o Irão será, mais tarde ou mais cedo, uma presa fácil e definitiva. O imperialismo americano desta vez, sem Ho-Chi-Min, sem Mao Tsé-Tung e sem os Kmers-Vermelhos está como peixe na água.

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