Para que não se percam os frutos da civilização

Intervenção no Congresso Marx em Maio – Perspectivas para o século XXI (conclusão)

Manuel Raposo - Quinta-feira, 26 Julho, 2012

A crise do mundo capitalista martiriza em primeiro lugar e acima de tudo o proletariado. Mas começou também a atingir os privilégios das chamadas classes médias, o principal sustentáculo do poder nos países mais desenvolvidos. Que significado tem esse facto para o declínio das sociedades capitalistas e que efeitos políticos traz para a luta de classes? A crise capitalista põe a nu o processo de exploração em que assenta toda a sociedade e revela a natureza de classe dos valores e das instituições burguesas – Estado, democracia, violência. Como pode, então, o comunismo marxista propor ao proletariado a saída do círculo de giz do capitalismo? São as questões colocadas nesta última parte da intervenção feita no congresso Marx em Maio.

Classes médias: um estabilizador social

As sociedades capitalistas mais desenvolvidas caracterizam-se, pelo menos desde os começos do século XX, por gerarem uma vasta camada social, na maioria assalariada, situada, pela sua condição de vida, entre o operariado e a burguesia.
A sua função, em termos gerais, é enquadrar a produção, intervir na circulação do capital e proporcionar a realização da mais valia.
Essa camada social é um sinal distintivo das sociedades imperialistas, como Lenine, por exemplo, bem vincou.

Olhando para os últimos 50 ou mesmo 100 anos, um dos seus principais papéis tem sido o de assegurar a estabilidade social e política dos regimes capitalistas desenvolvidos. Aliadas naturais da burguesia, essas camadas garantiram o balancé que tem sido a sucessão de republicanos e democratas nos EUA, de trabalhistas e conservadores no Reino Unido, de social-democratas e democratas-cristãos na Alemanha, dos equivalentes no Japão, em França e na Itália – e até de PS e PSD em Portugal nos últimos 38 anos.
Todo o mundo mais desenvolvido tem tido nessas camadas o fiel de balança no que respeita a manter o poder do capital sem agitações, servindo de barreira a qualquer movimento com cariz de classe da parte do proletariado.

Privilégios em retrocesso

Mas como os tempos mudam, interessa notar o seguinte:
Mais ou menos até final do século XX o crescimento do sector terciário absorveu em parte os despedimentos da indústria. Esse facto, além de diminuir o impacto do desemprego, manteve entre os trabalhadores a crença de que o capitalismo sempre assegurava as hipóteses de ascensão social (12).

As classes médias, porém, entraram em retrocesso. Por um lado, porque também nos serviços a rentabilidade do trabalho aumentou e permite dispensar mão de obra; por outro lado, porque o pântano da produção capitalista obriga agora a burguesia a penalizar mesmo os seus parentes próximos.
Depois de ter levado a massa proletária produtiva à pobreza ou à beira disso e de a castigar por todas as formas – a maré da crise não parou de subir e molha já os pés das classes intermédias. O significado deste facto parece-me importante:
– o ascensor social empanou;
– a burguesia capitalista aliena o apoio social e político do seu principal aliado;
– o confronto de classes clarifica-se, aproximando as sociedades capitalistas do modelo (digamos assim) canónico de duas classes antagónicas: burguesia, proletariado.

Um processo de clarificação social

A choradeira oficial sobre o empobrecimento da classe média é apenas uma forma de comiseração do poder, um gesto para tentar ainda segurar esse parceiro histórico. Mas a tendência de proletarização dessas classes parece irreversível, dando mais um sinal do fim de uma época.
Do ponto de vista do comunismo só há que saudar essa clarificação.

(Faço um parêntese para dizer que esta evolução não se traduz, nem de imediato nem necessariamente, num posicionamento anticapitalista dessas camadas – pelo contrário, o primeiro reflexo de boa parte delas será o de defenderem os privilégios anteriores, de aderirem a ideologias nacionalistas e mesmo fascistas, de se demarcarem da massa proletária, reagindo como uma espécie de aristocracia falida. Mas isso não anula o facto de, a prazo, a burguesia capitalista ir ficando mais só no terreiro – dependendo o comportamento político das classes médias do papel que a massa proletária propriamente dita desempenhar no confronto de classes.)

O capitalismo não é eterno

Último argumento.
Arrisco afirmar que a ideia axial que percorre a obra de Karl Marx é a de que o capitalismo é perecível, não é eterno – que é uma formação social com um papel histórico limitado e portanto também com um tempo de vida determinado. O papel histórico é socializar o trabalho, libertar os produtores da propriedade – enfim, “fazer crescer sem freio e em progressão geométrica a produtividade do trabalho humano”.

É fácil ver na evolução do último século a larguíssima socialização do trabalho, a extensíssima abolição da propriedade individual em todo o globo e o aumento colossal da produtividade do trabalho. Isso, sem dúvida, aproximou a humanidade do socialismo, colocando-nos hoje muito adiante daquilo que era o mundo, por exemplo, em 1917.

O que já não é tão fácil é prever o tempo de vida do capitalismo, porque isso não depende apenas do descalabro do sistema; depende decisivamente, das forças sociais que se decidam a pôr-lhe termo.
Mas o desenrolar da crise tem o condão de ajudar a rasgar os véus com que a sociedade burguesa se recobre e de pôr à vista a natureza da sua dominação classista.

A crise é um revelador

O que é que a crise põe à vista?
Põe à vista o Estado, não como árbitro dos conflitos sociais, ou como expressão de um suposto interesse colectivo, nacional – mas como instrumento de uma classe;
Mostra a democracia, na realidade, como uma plutocracia de que as massas populares estão inteiramente arredadas; como uma ditadura da burguesia que assume feições cada vez mais totalitárias;
Mostra a classe capitalista, toda ela, com um único plano para aliviar a crise – que consiste em explorar mais eficazmente as classes trabalhadoras;
Mostra que a condição de uma eventual recuperação económica é a destruição de meios de produção, seja pela gradual desvalorização do capital, seja pela violência da guerra;
Mostra em plena acção a lei geral da acumulação capitalista, visível na criação de uma massa crescente de desempregados e de marginalizados e no aumento da pobreza;
Mostra que o tempo ganho pela sociedade graças ao aumento da produtividade não se traduz em menos tempo de trabalho obrigatório, mas sim na irracionalidade de mais desemprego e maior grau de extorsão dos trabalhadores em actividade;
Mostra ainda a acção concertada das burguesias por cima dos limites nacionais, mostra a semelhança dos problemas sofridos pelas massas trabalhadoras dos diferentes países – e mostra portanto a falta que faz, da banda dos proletários, um internacionalismo que vá para lá da mera solidariedade moral e se traduza numa efectiva coordenação prática das acções de resistência.

O esclarecimento e a mobilização das massas proletárias não pode passar ao lado destes factos. Eles são os elementos educativos por excelência que a realidade prática nos fornece para mostrar o limite a que chegou este sistema social e o absurdo que é prolongar o seu tempo de vida.
De resto, se bem percebo o sentimento que os trabalhadores têm a respeito do mundo em que vivem, não é a confiança no capitalismo que os leva a aceitá-lo – é antes a noção resignada de que não há alternativa viável que o substitua, e sobretudo de que não há força que o possa deitar abaixo (13).

Atacar as bases do capitalismo não é uma utopia

Ora, na linha do marxismo revolucionário, a tarefa não é reabilitar ou remendar o capitalismo, mas desacreditá-lo aos olhos do proletariado.
Atacar as bases do mundo capitalista não é, sobretudo nas circunstâncias actuais, uma ideia desgarrada da realidade quotidiana. Ao contrário, é a condição de estimular e reunir as forças de classe dos trabalhadores e de os levar a encarar a necessidade de construir um mundo conduzido por regras opostas às do mundo capitalista.

Que o burguês não veja a crise para além do défice, da dívida, da quebra do lucro, da falta de crédito e dos remédios correspondentes para esse tipo de males – está certo. Mas que os proletários vejam as coisas pelo mesmo prisma – está errado.

O proletariado já teve de fazer muitos sacrifícios por causas alheias. Chegou a altura de afirmar a sua própria causa.
Propor ao proletariado a saída do círculo de giz do capitalismo – é esse, a meu ver, o papel do comunismo marxista.

Notas
(12) O emprego no terciário em França, Itália, Grã-Bretanha, RFA, EUA e Japão representava, na média dos seis países, as seguintes percentagens da população activa: em 1960, 43,9%; em 1970, 49,2%; em 1990, 65,5%. C. Bitot, o.c.
Em Portugal, o terciário representava 27,5% em 1960 e 51,3% em 1991. Elísio Estanque, A classe média: ascensão e declínio. FFMS, Lisboa, 2012.
(13) Um inquérito mundial recente a 21 países mostra que, em média, apenas 27% das pessoas têm confiança no funcionamento da economia capitalista (31% entre os norte-americanos, 16% entre os europeus e 7% entre os japoneses). Só um em cada 10 europeus acredita que poderá vir a viver melhor que os seus pais. O optimismo prevalece apenas em 4 países: China, Alemanha, Brasil e Turquia. Pew Research Center, 12 Julho 2012.






3 Comentários a “Para que não se percam os frutos da civilização”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Ao lermos um texto marxista nos tempos modernos ficamos atónitos com a brandura pequeno-burguesa com que o capitalismo e o revisisonismo são tratados. E não só. Ficamos também com o branqueamento histórico da luta de classes da 2ª metade do séc. XX, que passa como cão pela vindima sobre o XXº Congresso do Partido Bolchevique da URSS. Como cão pela vindima sobre a cisão sino-soviética dos anos 56/61 e seguintes. Sobre o que se passou na URSS após 1956 com o bombardeamneto criminoso sobre Budapeste, a construção do Muro da Vergonha em 13 de Agosto de 1961, com a ocupação militar na Checoslováquia em 1968, não esquecendo o afável voto favorável da ONU para a intervenção do Congo que provocou a morte de Lumumba. Contra a guerrilha de Fidel na Serra Maestra e contra Che-Guevara que em 1966, um ano antes do seu assassinato ousou escrever uma carta ao Ministro da Cultura de Cuba sobre vários assuntos que ele considerou fundamentais para saír do atoleiro ideológico em que se encontrava Cuba naquela altura. (do meu ponto de vista hoje ainda está pior). Infelizmente este artigo não aprofunda todas estas questões que são primordiais para o nosso tempo. E é com este tipo de textos mais ou menos de Becket à espera de Godot que a classe trabalhadora continua a ser a desgraça que todos os impotentes “revolucionários” são obrigados a sofrer na pele. Apesar de tudo a luta de classes não pára e tarde ou cedo a verdade será como o azeite à tona de água.
    É impossível pôr-lhe uma mordaça por mais que os inimigos da liberdade e da verdade se lhe oponham.

  2. João Azevedo disse:

    Este artigo com o qual concordo em absoluto, podia constituir um bom ponto de partida para a discussão da situação actual e como pode o proletariado sair, de facto, do círculo de giz do capitalismo. Porque não criar grupos de discussão com base neste artigo? Aqui fica a sugestão.

  3. Ubaldo Gouveia de Camargo disse:

    É verdade, o capitalismo passa a visão de que é insuperável e que veio para ficar para sempre. Porém, todos nós sabemos que todo regime social (escravagismo, feudalismo e, agora ,o capitalismo) são históricos e, portanto passageiros. Na realidade, a tarefa de todo regime social é criar as condições necessárias e suficientes do regime que irá tomar o seu lugar e assim, deve facilitar a passagem para o novo regime. Mas, na prática, não é o que tem acontecido historicamente falando. Muito pelo contrário, se tornam reacionários e retrógrados até que seja necessária uma revolução social e política que derrube o sistema mediante violência.
    Então, concluindo, as atuais e eternas crises do capitalismo não é tanto por motivos exclusivamente econômicos mas também porque já entrou em crise e,por contradição aos seus próprios princípios constituintes não consegue mais supera-las. E, ainda, por não permitir pacificamente a mudança para o Socialismo, acabará por criar (COMO JÁ ACONTECE) as condições necessárias e suficiente para a implantação do Comunismo, ou seja, a automação ou robotização dos meios de produção e com isso criando um novo modo de produzir e, portanto, novas relações de trabalho e trocas, incompatíveis com o capitalismo.

    Gratos, Ubaldo- São Paulo, 14/10/2012.

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