“No estamos indignados, estamos hasta los cojones!”

Crónica da recepção popular aos mineiros asturianos em Madrid

Santiago Cuervo Porras - Sexta-feira, 20 Julho, 2012

Às 2h30 da madrugada dava entrada na Puerta del Sol a “marcha negra”, 19 dias e mais de 400 quilómetros de caminhada sob o sol da Meseta para exigir ao ministério da Indústria que não seja cortada a subvenção ao carvão e se cumpra o que está aprovado nos Orçamentos Gerais do Estado para 2012.
Se a despedida aos mineiros asturianos foi feita por uma multidão em Pola de Lena, antes de subir a Puerto de Pajares, fronteira natural com a meseta leonesa e castelhana, a recepção em Madrid não o foi menos: ao grito de “Esta é a nossa selecção”, milhares de madrilenos desfilaram com a colunas mineiras chegadas de Leão, Astúrias, Aragão, Castela-A Mancha e Andaluzia. Uma vez mais, o povo de Madrid fazia gala da sua afamada solidariedade demonstrada nos momentos mais duros e difíceis da nossa história. As filas de mineiros flanqueadas e protegidas pelos bombeiros da capital recebiam emocionados as demonstrações de afecto dos que ali se tinham congregado.

“Madrid inteira se sente mineira!”, “Que viva a luta da classe operária!” era um clamor que se elevava ao céu da noite madrilena. Uma orquestra deu o toque musical aos cânticos dos que se concentraram na Puerta del Sol: o hino dos mineiros “Santa Bárbara bendita”, “Astúrias pátria querida, “A Internacional” e “O canto à liberdade” de José António Labordeta, entre punhos ao alto, sentimento de classe e a convicção de que esta batalha vai ser ganha. Entre abraços e lágrimas terminou uma noite inesquecível. Às 3h30 da madrugada os mineiros retiraram-se para descansar; tinham que estar frescos para o encontro às 11 da manhã na Plaza de Colón.

Resistir, dentro e fora da mina

Para trás ficou a dura caminhada marcada por demonstrações de apoio ao longo do caminho, que foram muitas. O incentivo recebido não pôde ser travado pelos municípios de Majadahonda e Pozuelo de Alarcón, governados pelo Partido Popular, que negaram aos mineiros as instalações municipais para seu alojamento, as mesmas que puseram à disposição dos peregrinos da “Jornada Mundial da Juventude”, organizada por ocasião da visita do papa Bento XVI, no ano passado.

Para trás ficam também os companheiros encerrados nos poços, sempre presentes na cabeça e no coração do todos. No mesmo dia da imensa manifestação do Paseo de la Castellana, os sete mineiros da mina de Santa Cruz de Sil, em Leão, abandonaram os poços por recomendação médica, depois de 52 dias debaixo da terra; os 7 das Astúrias, 4 no Poço Cardin de Langreo e 3 no Poço Santiago de Aller, ainda resistem, estando toda a gente preocupada com a sua saúde.

Não é da condição mineira render-se diante da adversidade, o seu bem merecido prestígio de lutadores fala por eles. Todos sabemos, e sabe bem o governo, que não se trata de um colectivo fácil de dobrar. Os mineiros foram contundentes desde o início da greve: “Não estamos indignados, estamos fodidos”. Uma advertência ao governo de que não são o 15M, a sua luta não é de braços levantados. Já o demonstraram desde o início do conflito – do mesmo modo que o poder revelou quais são os seus argumentos, que se resumem ao aumento da repressão. As zonas mineiras vivem situações próprias de outras épocas, em que os pontapés nas portas e os espancamentos eram o pão de cada dia. Assim o manifestou Manuel Nieto, secretário de organização da CSI (Central Sindical das Esquerdas) que assegurou receber denúncias neste sentido todos os dias. Intimidação, espancamentos e detenções arbitrárias são os únicos argumentos que o governo de Mariano Rajoy colocou sobre a mesa de negociações.

A imensa manifestação de dia 11

Madrid, 11 de Julho, 11 da manhã, Plaza de Colón. As colunas mineiras já estão no Paseo de la Castellana rodeadas por um nutrido grupo de segurança, são os únicos que caminham sem impedimentos, a multidão torna impossível chegar perto deles. Todos querem vê-los, saudá-los, abraçá-los, dar-lhes ânimo. Somos muitos, mas não param de cegar mais e mais manifestantes. Ninguém se atreve a dar um número, mas todos concordamos que são umas quantas centenas de milhar. A Castellana converte-se num espaço multicolor em que ondeiam as bandeiras de todas as Comunidades Autónomas do Estado Espanhol, partidos e sindicatos, a que não falta sequer uma delegação da CGTP – são mineiros alentejanos que quiseram estar presentes neste dia de luta para mostrar o seu apoio e solidariedade aos companheiros espanhóis: “Ninguém pode vencer um povo que resiste / E tem Catarina por estandarte”.

Às 11h15 inicia-se a marcha até ao ministério da Indústria. Quase é impossível transitar, tem que se esperar que a manifestação avance para encontrar um espaço aberto. Percebe-se a alegria de todos pela multidão que ali está concentrada tendo em conta que é um dia de trabalho. Mas também cresce a raiva contida ao conhecer-se os “ajustes” económicos que, há poucos minutos, o presidente Rajoy apresentou ao Parlamento, uma autêntica declaração de guerra à classe trabalhadora.

Os ensurdecedores petardos misturam-se com o barulho de apitos e cânticos: “A próxima visita será com dinamite!”, “Isto que se passa é por o governo ser facho!”. A manifestação detém-se e canta-se a “Santa Bárbara Bendita”, é impossível ver o princípio e o fim desta grande maré humana.

Mais de uma hora a caminhar e ainda não alcançámos o ministério da Indústria, quando vemos aparecer os primeiros furgões das UIP (Unidades de Intervenção Policial) mais conhecidos por “antidistúrbios”. As pessoas gozam com eles: “Que vão vocês fazer, se vos acabam de tirar o subsídio de Natal?”, “Vocês não têm filhos?”, “Trabalham de graça?”.

Repressão brutal

As suspeitas de que a manifestação estava a aquecer confirmam-se de imediato quando se ouvem os primeiros disparos. Não sabemos o que sucede à porta do ministério, mas nada de bom será.
Começam as correrias ao longo da Castellana e à volta do estádio Santiago Bernabéu. Granadas de fumo e balas de borracha foram lançadas indiscriminadamente, os furgões da polícia circulam com as portas abertas de onde disparam balas de borracha contra tudo o que se mexa ou não. Dão bastonadas arbitrariamente sem se perceber com que critério. Ninguém lhes faz frente, alguém tenta chamá-los à razão, dizem-lhes que há crianças, gente idosa. Dificilmente se pode argumentar com estes Robocop que parecem saídos de um filme de Hollywood sobre a guerra do Iraque. Ao perto pode-se ver que as suspeitas de que não são humanos não é mera especulação, ofegam como cães açulados para atacar e pensamos que debaixo deste uniforme só pode estar um psicopata.
Começamos a ver os primeiros feridos. Um jovem assistido no chão conta, diante duma câmara de televisão, como foi agredido sem saber porquê. Impedido de correr por uma evidente deficiência numa perna, foi vítima propícia para que o moessem à paulada.

Chegam as primeiras informações do que sucedeu à porta do ministério. Juan Ramón Sánchez Suárez, autor da maior parte das fotos desta crónica, conta-me que avançou até ao ministério da Indústria para ter um bom sítio para fotografar a chegada da manifestação e pôde ver como uma pessoa que iniciaria o alvoroço exibiu o seu distintivo de polícia aos “antidistúrbios” que protegiam as portas do ministério. Bousoño, um velho conhecido que viajava no mesmo autocarro que eu, foi espancado e atingido por bala, e tiveram que aplicar-lhe sete pontos de sutura numa perna. Também ele reconhecia num dos agitadores um polícia colocado na esquadra de Avilés, nas Astúrias.

76 feridos, 8 detidos

Os petardos, alguma bengala, comida e sobretudo bananas que os manifestantes lançavam à porta do ministério não terão sido razão suficiente para a intervenção policial. Necessitavam de algo mais contundente: puxar as baias que cercavam o edifício e lançamento de pedras. Para isso, precisavam dos infiltrados, para fazer o trabalho sujo, para que os seus meios de comunicação alertem do risco que representam para a sociedade os perigosos jovens “anti-sistema”, para justificar uma brutal repressão que deixou um saldo de 76 feridos e 8 detidos, alguns conduzidos à Audiência Nacional e a quem aplicaram a Lei Antiterrorista.

A manifestação acabou como quase ninguém queria, com uma patente exibição de surdez do ministro José Manuel Soria e a irracional repressão policial.
Diante das provas de intransigência governamental, não resta outra saída que continuar a lutar. E porque, além disso, não há outra saída que não seja a luta ou o desemprego em regiões em que o futuro é mais negro que o carvão, onde desde há muitos anos se tem desbaratado o dinheiro dos fundos mineiros e não se criou nem trabalho, nem tecido industrial, nem alternativa económica ao encerramentos das minas. Para algumas povoações, fechar as minas é o mesmo que afogá-las num pântano, fazê-las desaparecer.

Uma injecção de moral para todos

Na mente de todos está a importância de ganhar esta contenda. Para os mineiros porque é o seu pão, o seu futuro; e para todos porque seria uma injecção de moral de que o movimento operário está necessitado – que bem precisa de esperança. Perder esta batalha seria um desastre para a classe trabalhadora, um golpe de que dificilmente se poderia levantar – o exemplo temo-lo em Inglaterra na década de 80 com o governo de Thatcher.
Também sabemos que a luta pode recrudescer e tememos as consequências. Não queremos colocar os mortos sobre a mesa de negociação, mas o ânimo dos mineiros é de ir à luta com todos os meios. Quem poderá conter a justa ira que cresce?

Nota final

Com o campo de combate pacificado, chega a hora de apanhar o autocarro e de cada um voltar para casa. Mas ainda há tempo para uma cerveja. À porta de um café, ouço uma voz que sai de dentro. Conheço essa voz, aproximo-me e reconheço o rosto dessa voz firme e serena: é Anita Sirgo. Não posso evitar de entrar e saudá-la. Com um nó na garganta e os olhos húmidos dou-lhe a mão, damos dois beijos. Anita Sirgo, 83 anos como 83 primaveras de luz, ali estava com a sua gente fazendo o que fez toda a vida: lutar por ela, por todos, pela justiça social, pelas liberdades neste país. Anita encabeçou os protestos das mulheres na greve de 1962, “A Grande Greve”. É de uma raça de mulheres que não vergam, que não baixam a cabeça diante do poder. Contra ela nada puderam nem as privações de uma greve traumática nem os espancamentos nas esquadras de polícia. Anita Sirgo pode dizer com orgulho a frase que nos legou Marcelino Camacho: “ Nem nos hão-de domar, nem nos hão-de vergar, nem nos vão domesticar”.

Fotos: Juan Ramón Sánchez Suárez, Pablo Cuervo, Santiago Cuervo Porras






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