A via aberta da revolução soviética

M. Raposo - Terça-feira, 6 Novembro, 2007

fig08_72dpi.jpgDe propósito ou não, os 90 anos que correm em 7 de Novembro sobre a revolução soviética ficam oficialmente assinalados entre nós não pela evocação dos feitos revolucionários de 1917 que puseram fim à Rússia imperial, mas pelos próprios feitos imperiais, recuperados como imagem da Rússia de hoje. Uma exposição, que Putin inaugurou em Lisboa no final de Outubro, de obras do Museu Hermitage (de S. Petersburgo, ex-Leninegrado) evoca a Rússia imperial de Catarina II e de Pedro, o Grande. Não admira.

Quando a URSS foi dada como finada e enterrada por toda a gente, proliferaram em qualquer feira-da-ladra os objectos de moda com a iconografia soviética – jeans soviet, bonés do exército vermelho, e toda a sorte de coisas tornadas inofensivas na sua simbologia pela certidão de óbito passada pela era Ieltsin.
O ocaso da revolução tinha começado décadas antes desses anos 90, mas a condição de potência da URSS continuou a alimentar o medo dos “vermelhos”. Não agora. Depois de se permitir brincar com o corpo morto da revolução, a burguesia embasbaca-se com a opulência da Rússia imperial a que os sovietes e o bolchevismo puseram termo.

A revolução soviética não foi definitiva. Mas deixou marcas indeléveis. Umas são pura memória que o futuro chamará a si quando for tempo: pela primeira vez os proletários chegaram ao poder num grande país e conservaram-no o tempo suficiente para dar cabo dos fundamentos da velha ordem e lançar as bases de um país moderno. Nenhuma outra via seria capaz de o conseguir na Rússia da época. Outras dessas marcas são dados do presente: a Rússia capitalista de hoje não existiria com o peso que tem se não tivesse existido 1917. O socialismo não se realizou, mas ficou mais próximo. Contraditório? É que a História, sendo feita pelos homens, não o é exactamente segundo a sua vontade.

A revolução de 1917 foi um primeiro assalto. Deu-se num país atrasado e por isso não podia abordar o socialismo de jacto. Foi uma ponta avançada, resistiu enquanto pôde, mas não chegou para virar a página do mundo capitalista. Cumpriu o seu papel no meio de uma dupla contradição: uma revolução proletária apontada para o socialismo num país de capitalismo atrasado – forçada por isso a seguir a via do capitalismo de Estado; uma revolução que só vingaria se outras revoluções no mundo capitalista desenvolvido a acompanhassem – e não acompanharam.

Hoje, a revolução social no mundo conta com um quadro novo: a base material proporcionada por um capitalismo muito mais desenvolvido que no começo do século XX; e a lição principal da revolução soviética – o poder dos trabalhadores é a condição da transformação social.






3 Comentários a “A via aberta da revolução soviética”

  1. José Luis Felix disse:

    Atendendo à consideração que me merece o MV e o Manuel Raposo, autor do artigo, sinto-me obrigado a tecer algumas considerações sobre o que aqui consta.
    É fora de dúvida que esta revolução constituiu um motivo de júbilo e de esperança para os povos de todo o mundo. É também incontestável que este acontecimento histórico despertou as energias tiranizadas do povo, entusiasmado com a possibilidade de, finalmente, vir a ser senhor do seu próprio destino. Como, aliás, já tinha sucedido noutras ocasiões, como na Comuna de Paris, em 1871 e viria mais tarde a repetir-se na Revolução Espanhola de 1936.
    A expectativa que a revolução soviética despertou viria, porém, a transformar-se numa gigantesca desilusão. Na realidade aquilo que o articulista considera como ” o peso da Rússia capitalista de hoje, conseguido graças à revolução de 1917″, é a constatação de que aquilo que aconteceu nesse período foi, ao fim e ao cabo, uma acumulação acelerada do capital, obtida através da repressão mais feroz dos trabalhadores, submetidos à opressão mais absoluta, em nome de um projecto societário congeminado pela nova hierarquia dominante. Se queremos construir uma sociedade de facto nova, não podemos ignorar que, nesse período, uma reduzida elite impôs, desde o início, um regime caracterizado pela ausência de liberdades, no qual os trabalhadores representavam uma simples peça de uma engrenagem sobre a qual não tinham o mínimo poder e lhes era alheia no essencial.
    Para atingirem os seus objectivos, os novos senhores do poder impuseram a supressão das liberdades mais elementares, incluindo a liberdade de expressão e a sindical, com os sindicatos militarizados, sem direito à greve e os sovietes esvasiados de poder. Daí à repressão mais abominável não tardou. A nova hierarquia defendia os seus privilégios e decidia sobre tudo da forma mais absoluta, forçando o povo a obedecer-lhe.
    É forçoso encararmos a realidade. Sem autonomia, auto-organização e liberdade, é impossível edificar uma sociedade realmente nova. As mais grandiosas e faraónicas realizações não constituem mais do que uma manifestação do capitalismo, privado ou burocrático, quando não põem em causa as categorias mercantis e reproduzem a sociedade do domínio do homem sobre o homem. E para isso não bastam as grandes proclamações dos intitulados “revolucionários profissionais”. Não esqueçamos nunca que “a emancipação dos trabalhadores tem de ser obra dos próprios trabalhadores”.
    José Luís

  2. antonio alvao carvalho disse:

    Em Fevereiro de 1917, uma agitação popular na capital da época, Petrograd (hoje Sampetersburgo). A conjunção de amotinações militares suprime em poucos dias o regime: Nicolau II abdica (a 15 de Março) e um grupo de deputados da Duma (o parlamento russo) forma um governo provisório que não tarda a proclamar a república. Os aliados franceses e ingleses da Rússia instauram-na a continuar a qualquer preço, ao passo que os soldados desertam em massa e o exército se decompõe: no interior, com conselhos de operários e de soldados, os sovietes (já presentes em 1905), multiplicam-se e constituem um poder paralelo independente do governo; fora das cidades, os camponeses partilham espontanemente as grandes propriedades e apropriam-se da terra. A desordem generalisa-se.
    Na capital, os partidos da extrema esquerda utilizam os sovites para contestar a acção do governo e exigir a revolução social. Em Abril, Lenine (1870-1924) líder do partido bolchevique, a tendência maximalista da social-democracia marxista, regressou do seu exílio na Suíça.
    Os dirigentes bolcheviques derrubam, pela violência, o governo provisório e anunciam a instituição de uma república dos sovietes. Em 1818, e, afirmando instaurar a “ditadura do proletariado”, proíbem progressivamente todos os outros partidos políticos. A república socialista federativa da Rússia está instaurada.
    O poder bolchevique não controla senão as grandes cidades e uma parte restrita do território. O governo provisório mantém os partidos, uma corrente monarquista reergue-se e cada uma das facções reuniu unidades ao exército. Além do mais, no final da guerra europeia, encontra o apoio das potências ocidentais hostis ao programa bolchevique. De 1918 a 1920, a guerra civil é assoladora e o Exército Vermelho, organizado por Trotski, tira proveito das divisões dos seus adversários para os vencer separadamente.
    O poder bolchevique pensa em estabelecer imediatamente o comunismo: as relações mercantis são abolidas, a moeda suprimida. A produção acaba o seu desmoronamento, os camponeses recusam-se a entregar as suas colheitas. Os bolcheviques ripostam com um impiedoso terror, do qual uma das consequências é o aniquilamento ou a fuga das elites designadas “inimigas da classe”. No entanto, a revolução proletária esperada não teve lugar na Europa: isolada, a Rússia está mergulhada no caos. Em 1921, uma fome, seguida de epidemia, mata milhões de pessoas. Exasperados pela ditadura do partido bolchevique, que diz agir em nome do proletariado, os marinheiros do Báltico, armados com ferros das lanças das milícias revolucionárias em 1917, insurgem-se, reclamando: “os sovietes sem os comunistas” (Março de 1921). Trotski esmaga o motim, mas Lenine tem de convir que se enganou.
    No plano político, pelo contrário, as estruturas centralizadas do partido endurecem-se: no X º Congresso de 1921, o fraccionismo (isto é, a organização de tendências no seio do partido) é proibido, decide-se uma purga ao partido.
    Lenine obtém que, para administrar o partido único, um posto de Secretário Geral seja criado, para o qual propõe uma personalidade até aí bastante apagada: Estaline. A NEP (Nova Política Económica) traz um alívio e pode ser considerada o fim da fase propriamente revolucionária da história do comunismo soviético.
    Lenine morre em Janeiro de 1924. Os anos que se seguiram são marcados pelas lutas encarniçadas no seio da direcção do partido, para se assegurar do seu controle, Estaline, habilmente elimina os seus concorrentes, dos quais Trotski e outros, transformando a ditadura do partido único num autêntio poder pessoal.
    Apesar dos métodos totalitários, que muitos querem ter como fase de transição inevitável, o comunismo soviético mantém até aos anos 70 a ilusão de uma experiência original e promissora. O seu fracasso económico e a sua desintegração interna acabam por demonstrar que só tinha sido um capitalismo de Estado e não um socialismo colectivista.
    Os povos da Ex-URSS não são as únicas vítimas da aventura comunista: a própria ideia socialista é atingida pois, mesmo se o sovietismo era uma falsificação do marxismo, recomendou-se de tal modo que acabou por se acreditar que era, verdadeiramente, a expressão concretizada do pensamento do filósofo alemão, e isto a despeito de todos aqueles que o criticaram em nome do próprio Marx, tais como os filósofos franceses M. Rubel e C. Lefort.

    A consultar: R. Pires, La révolution russe; la tragédie soviétique, Seuil (1995).

  3. António Alvão disse:

    Se me permitem, comento mais uma vez “A via aberta da Revolução Russa”, uma vez que ainda poucos a comentaram; e como mais ninguém do colectivo MV comentou, leva a crer que estão todos de acordo com a análise de M. R..
    A análise deste tema, que é demasiado importante, acho estranho não ser comentado por mais pessoas, uma vez que têm oportunidade para o fazerem!
    As divergências entre a esquerda universal sobre o chamado “socialismo real” é de facto inconciliável, profundamente, e não há volta a dar! Porque é impossível haver “casamento” entre autoritarismo e anti-autoritarismo.
    Há uma esquerda falida ideológicamente que defende que o socialismo deve ser imposto baseado numa ideologia monolítica, autoritária e orientado por um caudilho que dita as regras do jogo!
    Há outra esquerda, a primeira, que nasce no século XIX, a que Marx esteve ligado, que entende que o socialismo e o comunismo devem ser construídos em liberdade e sem coacção; sem governantes e sem governados! E qual é o explorado e oprimido que rejeita esta via? Uma vez que a sua quota-parte de riqueza que produz é para enriquecer o celeiro da comunidade, onde ele poderá morrer descansado sem temer o futuro dos seus descendentes; e onde o crime se tornará impossível!
    Numa comunidade destas é impossível a desagregação e derrocada! Alguém terá conhecimento de existir desagregação na comunidade das formigas e das abelhas? O modelo de comunidade destas duas espécies é o mais eficaz na criação de riqueza e na resistência contra invasores. E neste modelo de comunidade faz falta a democracia para quê? Se o consenso é que impera!
    Este modelo de comunidade não é só exclusivo dos anarquistas e marxistas-libertários; Zenão de Cício também o defendeu, no tempo de Platão e chegou a fundar escolas de ética. Os estudiosos da doutrina de Cício dizem ter sido um erro, que custou muito caro à humanidade, os políticos não terem seguido a sua doutrina – hoje o Mundo seria outro muito diferente, sem guerras e sem fome!
    Acho que é uma falsa questão, para além de outros argumentos, argumentar o fracasso e queda do “socialismo real” (ao fim de 80 anos), “por o mesmo não ter chegado a outros países do Mundo capitalista”, etc.
    Os países todos do Leste europeu, outros na Ásia, África e um na América Latina eram poucos para construir o socialismo? O que estiveram a fazer durante 80 anos? Não chegou o tempo? Admira-me é como foi possível chegar a tantos países, depois de massacrarem, através do Exército Vermelho – chefiado por Trotsky – a emancipação do proletariado organizado através dos sovietes, como foi o caso dos sovietes de Cronstadt, Ucrânia e outros. Milhares de operários, marinheiros e camponeses, deram a vida pela revolução e pelo socialismo tanto no tempo dos czares, como mais tarde, no tempo dos confiscadores da revolução soviética: Lenine, Trotsky e Staline – depois da morte de Lenine, seguem-se fuzilamentos de intelectuais comunistas, inclusive muitos da cúpula do partido comunista, fuzilamentos de anarquistas, tivessem ou não actividade. Era isto o socialismo real, a pátria do socialismo, a ditadura do proletariado, a emancipação dos trabalhadores? Simpatizar com esta ideologia é ser de esquerda? De facto, os que simpatizarem com esta ideologia não merecem outra, deixem-se estar que estão bem. Não ma imponham é a mim!
    Estes dirigentes atrás citados, deveriam ter sido julgados antes de morrerem pelos crimes que comenteram! A mesma sorte não teve Ceausescu!
    O esmagamento de Praga pelos tanques de combate do pacto de Varsóvia valeu a pena? É crime passar do “comunismo” totalitário para o socialismo de rosto humano? Tenho muita pena de Álvaro Cunhal por ser português, ter apoiado o totalitarismo soviético quando este estava no seu auge!
    A queda do império romano não se deveu só ao envenenamento de chumbo das envasilhas do vinho e das bebedeiras. A principal causa foi o cansaço de tanta escravatura, crueldade e opressão sobre os povos do Mediterrâneo. E quando estes povos tiveram a oportunidade de fuga, não perderam tempo em se juntarem aos grupos dos visigodos, suevos e outros para poderem vingar tanta crueldade de que foram vítimas tantos anos. O “socialismo” de Leste teve um fim parecido ao do império romano!
    A marxista Rosa Luxembourg criticou o autoritarismo que se estava a sentir sobre a classe trabalhadora, a partir da cúpula do partido comunista soviético, já em 1918.
    No início dos anos 20 é criado um movimento universal de marxistas-libertários, argumentavam que “a concepção leninista não tem nada a ver com Marx, e que Marx deve regressar à origem da 1ª. Internacional, “marchando” ao lado de Proudhon e Bakunine, eles não divergem, antes pelo contrário se completam”.
    É sabido que a humanidade não é dos libertários e do anarquismo que tem queixa, mas sim dos seus antípodas. E quem são os seus antípodas? A história narra-nos: a Monarquia absolutista, fascismo, nazismo e comunismo totalitário; para além de todas as religiões. Até Saramago disse numa entrevista a Margarida Marante, há anos, que viver em Anarquia não é nenhuma coisa má, como muita gente pensa! O homem é que não tem remédio!
    Vejamos um caso português: a decapitação do movimento anarco-sindicalista português deve-se a Salazar e ao PCP. O partido comunista foi fundado por anarco-sindicalistas – vendo o exemplo da revolução soviética, pensavam que tornando-se comunistas e tendo o apoio da Rússia, a Revolução em Portugal seria mais fácil e mais rápida – segundo argumentos deles na altura. A partir dessa altura tornaram-se concorrentes desleais com os anarquistas, na influência sindical, com provocações à mistura, etc. Para além de traírem, foram ingénuos. Alguns desses fundadores do PC, depois do 25/Abril 74 aderiram ao PSD – vejam bem!!!
    A revolução soviética não falhou nos anos 90; ela já falhou em 1921, aquando do massacre dos sovietes pelos “Galliffets”. Todas as revoluções tiveram os seus “Galliffets” por isso é que nenhuma vingou!
    Na futura revolução do proletariado, devem ter em conta que a classe dirigente é supérflua, para evitar os tais “Galliffets”.

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