Foi a luta de massas o factor determinante que dominou as eleições na Grécia

José Borralho - Quarta-feira, 20 Junho, 2012

A vitória tangencial da direita, (que fez a burguesia europeia suspirar de alívio) a deslocação de uma enorme massa anti-austeridade para a esquerda moderada, a derrota brutal do KKE, a minimização do PASOK relegado para um plano insignificante e o aumento da extrema-direita, revelam-nos com crueza uma Grécia fragmentada e dominada pela agudização da luta de classes.
A nova governação à direita terá de contar com a oposição de um movimento de massas que claramente rejeita a política de austeridade e de empobrecimento que são a emanação das políticas da troika para toda a Europa.

A enorme subida da esquerda moderada – o Syriza – longe de representar um retrocesso, pelo contrário, significa a aproximação das massas a uma política anti-troika que o mesmo é dizer anti-austeridade. Foi com a promessa de que rasgaria o memorando da troika, e que anularia as medidas de austeridade, que amplos sectores se aproximaram do Syriza e lhe deram o voto, possibilitando a este agrupamento mais ou menos radical assumir na sociedade grega o papel de uma esquerda combativa, “responsável”, que soube bater o pé à austeridade da troika imperialista

As limitações políticas do Syriza, que se reflectem na sua integração plena no chamado jogo democrático burguês, que o leva a defender que, através das eleições conseguirá a refundação de uma Europa democrática e desenvolvida, são afinal os seus limites políticos e ideológicos (partilhados em Portugal de forma entusiasta pelo Bloco de Esquerda) e que são hoje uma corrente moderada com expressão europeia.
Para as massas que lhe deram o voto, o que contou foram o seu programa anti-austeridade, as suas promessas de se opor ao memorando, o seu “bom senso” de não cortar nem com o euro nem com a União Europeia. No fundo, aceitaram a sua moderação “radical”.

Sem parecer entender o quadro em que se movimentam as massas, e sem perceber o seu grau de amadurecimento político, o KKE ficou praticamente esmagado vendo fugir-lhe metade do eleitorado. O KKE não percebeu que a luta de classes não se comporta de acordo com esquemas mas sim de acordo com os interesses das massas. Atirando com palavras de ordem avançadas para cima do movimento: saída do euro, saída da UE, socialização dos meios de produção, poder popular; tratando as forças de esquerda moderadas como agentes do capital e do imperialismo – o KKE isolou-se no seu casulo, numa arrogância de iluminados que julgam ser os donos da verdade absoluta.

O que se torna caricato é que o partido irmão português do KKE, extremamente moderado, defensor de um crescimento económico “nacional”, do reforço do aparelho produtivo, da renegociação da dívida, e que não diz uma palavra acerca da saída do euro e da UE, venha assumir em comunicado, a defesa do KKE, com base em que este travou uma luta em condições difíceis de bipolarização. A bipolarização na luta de classes deveria afinal ser favorável aos comunistas, pelos vistos já não é assim.
Quanto ao crescimento eleitoral do Syriza, o PCP pura e simplesmente ignora esta força da esquerda moderada, numa atitude arrogante, na linha do que faz o KKE.

Porém, a Grécia não poderá deixar de ser para todos nós o exemplo de como fazer frente ao capital e concretamente às imposições de austeridade da troika imperialista, e que poderá propiciar uma viragem à esquerda na maturação da consciência do proletariado e das massas. Esse caminho que nos aponta a Grécia é o caminho da luta de massas sem tréguas ao capital e às suas medidas de austeridade. O apoio dos trabalhadores portugueses aos trabalhadores gregos só pode ser incondicional, nomeadamente pela sua radicalidade e firmeza, que fizeram recuar os partidos burgueses.

Sem dúvida, que a luta do KKE através da PAME, a sua propaganda de objectivos revolucionários junto dos sectores mais avançados do movimento, teve influência na radicalização do movimento grevista anti-troika.
Por outro lado, a emergência da democracia pequeno-burguesa através do aumento de votação no Syriza, não sendo uma vitória do proletariado, não deixa contudo de revelar uma passagem de votantes sociais-democratas para uma força moderada, contudo, anti-austeridade, e é essa qualidade que é necessário realçar, e não o facto de o Syriza ser moderado. O que nos interessa é saber como avançar assestando golpes no inimigo principal aliando e ampliando novas forças à luta contra o capitalismo.
Se, por exemplo, o Syriza renegar o seu compromisso anti-austeridade, depressa se desmascarará aos olhos dos trabalhadores, e mais depressa cairão as ilusões dos que nele depositaram confiança.

A revolução é feita pelas massas, pela maioria das massas pobres e não por qualquer grupo ou individualidades iluminadas pelo dom da verdade, e é por isso que qualquer tendência do KKE para se isolar no seu casulo, desprezando o movimento real das massas, estará condenado ao fracasso e ao isolamento. A soberba de um grupo revela-se exactamente na renúncia a qualquer tipo de aliança e na sua auto marginalização, mesmo que tal grupo ou partido pregue os melhores princípios do mundo.

Atacar juntos, caminhar separados, continua a ser um bom princípio para todos os que querem efectivamente derrotar o capitalismo.
Os problemas para o povo grego vão agravar-se, porque a direita só pode produzir desigualdade, miséria e austeridade: é esse o programa com que o capital quer sair da crise.
Na Grécia a luta vai continuar. De um lado os explorados, do outro os exploradores, mais do que nunca cabe aos trabalhadores portugueses apoiar as lutas dos trabalhadores e do povo gregos.






Um Comentário a “Foi a luta de massas o factor determinante que dominou as eleições na Grécia”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    A eterna doença infantil do comunismo tão realçada por Lenine a propósito dos movimentos ultra-revolucionários verificados nos anos 20 permanecem com uma actualidade espantosa. Logo no início da obra, Lenine adverte que todo esse abismo de incompreensões. pedantismo, vilania e traição aos interesses da classe operária, tudo isso mascarado sob a «defesa» da «revolução mundial». Desta vez foi a Grécia o protagonista desta asserção universal. Mesmo depois de se confirmar a estrondosa derrota do KKE nestas eleições, nem um assentimento sobre o erro cometido, nenhuma auto-crítica, nenhum anúncio de um Congresso extraordinário para vivificar e acordar o Partido do sono dogmático em que se encontra e fazer renascer o espírito democrático foi sugerido.
    A ND venceu, o povo grego perdeu e o KKE lá está para personificar a vanguarda da Revolução Popular.
    Quanto a Lenine e à sua obra o Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo, isso é coisa que pertence às calendas gregas…

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