O 11 de Setembro de Sarkozy foi curto

ZAV / MV - Terça-feira, 29 Maio, 2012

A morte, às mãos da polícia francesa, em 21 de Março, do jovem de origem argelina Moamed Merah levanta enormes suspeitas. Assassinato de Estado para obter dividendos políticos? Todo o caso em volta dos sete homicídios de Toulouse, de que Merah foi acusado, só teve como fonte de informação as autoridades francesas, designadamente a presidência e a polícia. As suspeitas lançadas sobre Merah, não são provas provadas.

A acusação – de origem policial, mais uma vez – de que ele teria sido treinado pela Al-Caida suscita de imediato a pergunta de porque o mantinham então em liberdade. Também as juras da polícia e do então presidente Sarkozy de que o queriam prender vivo não se mostraram consequentes: depois de 32 horas de cerco, impossibilitado de fugir, Merah aparece crivado de balas. Liquidado para se encerrar o assunto sem mais questões?

O próprio funeral foi rodeado de cuidados excepcionais. A Argélia, onde a família queria sepultar o jovem, recusou receber o corpo. Mesmo o município de Toulouse pôs reservas ao funeral, que acabou por se fazer quase em segredo.
Finalmente, para não dar o ar de que deixava o serviço a meio, a polícia desencadeou, depois de tudo isto, uma caça aos familiares e a amigos de Merah, que acusou de cumplicidades difusas.

A “scooter connection” como alguns franceses mais críticos designam o caso, cheira a manipulação. Os meios de comunicação, como um exército de intoxicação pública, trabalhou afincadamente para culpar Merah sem remissão e para “revelar” finalmente a “conspiração terrorista”. Até aqui por perto o próprio Diário de Notícias, fiel a certo internacionalismo informativo, titulava em 29 de Março: “Terrorista Merah sepultado em Toulouse” – não simplesmente Merah, mas “terrorista Merah”.

Um 11 de Setembro em pequena escala? Sarkozy, um digno discípulo de Bush Jr? É ao que soa tudo isto, para mais se atentarmos no forte risco que Sarkozy já então corria de perder as eleições presidenciais.
Especulação? Veja-se o que disse, em 12 de Março, Christophe Barbier, director do jornal L’Express e grande amigo da família Sarkozy: “A única hipótese de Sarkozy ganhar esta eleição reside num acontecimento exógeno à campanha, um acontecimento internacional excepcional ou traumatizante. Só um cataclismo capaz de federar os franceses à volta do seu presidente pode oferecer uma hipótese de reeleição a Sarkozy” (TV France 5, programa “C dans l’air”).

Como que a confirmar estas declarações, Sarkozy disse a 30 de Março na rádio Europe1, já depois de a policia ter liquidado Mehra: “O que é preciso compreender bem é que o traumatismo de Montauban e de Toulouse foi profundo para o nosso país, um pouco – não quero comparar os horrores – um pouco como o traumatismo, nos Estados-Unidos e em Nova Iorque, que se seguiu ao caso de Setembro de 2001, o 11 de Setembro”.

A tentativa de tirar dividendos é descarada. Mas, a avaliar pelos resultados das eleições presidenciais, nem o cataclismo imaginado por Barbier foi suficientemente grande, nem o trauma explorado por Sarkozy foi suficientemente profundo para levar a maioria dos franceses a esquecer a política que ele levou a cabo nos últimos anos.
Mas, de qualquer modo, a manobra é um alerta: na democracia apodrecida em que o mundo capitalista se arrasta, os agentes do poder cada vez menos olharão a meios para assegurarem o domínio dos lugares-chave do Estado.






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