“Porque apoiamos o boicote a Israel”

Noam Gur e Alon Gurman, refuseniks israelitas, explicam a sua posição

info-palestine.net / CSP - Domingo, 20 Maio, 2012

As condições em que o Estado de Israel tem actuado como ferro de lança do imperialismo, sobretudo norte-americano, estão a sofrer mudanças que favorecem os direitos dos palestinos e dos povos árabes em geral. A resistência palestina em primeiro lugar, depois o forte movimento popular no Egipto que minou a base da mais importante aliança de Israel, finalmente a solidariedade internacional para com os palestinos e o crescente boicote ao apartheid israelita – são factores que complicam a vida à política sionista. Um outro movimento, este interno a Israel, conflui com os demais: o dos refuseniks, militares que se recusam a colaborar na ocupação dos territórios palestinos e a reprimir a população árabe. A declaração que publicamos é o testemunho de dois desses militares.

“Nascemos cidadãos israelitas e por isso foi decidido que devíamos carregar o peso do financiamento da ocupação. Ao longo do tempo, acabámos por compreender que enquanto esses crimes durarem eles serão cometidos em nosso nome e às nossas custas.

Por isso, chegámos à conclusão de que devíamos orientar os nossos esforços para pôr fim a esta situação, em vez de nos fecharmos em sentimentos fúteis de culpabilidade e de vergonha. Enquanto cidadãos de Israel (e enquanto judeus), foi-nos pedido que participássemos na ocupação – para além do nosso apoio financeiro –, juntando-nos ao exército israelita. Quando percebemos que assim estávamos a apoiar a ocupação criminosa e a negação dos direitos fundamentais, individuais e colectivos da nação palestiniana, decidimos tomar posição, publicamente, e recusar a ocupação e o apartheid israelita.

Pode pensar-se, com razão, que, devido a essa decisão, seremos postos na cadeia durante alguns meses antes de sermos finalmente libertados da obrigação do serviço militar. É o preço que optámos pagar para chegarmos ao fim do status quo no qual, a título pessoal, cooperámos com os crimes cometidos pelo Estado de Israel. A nossa recusa não acabará com a ocupação e o apartheid continuará provavelmente a prosperar, mas podemos conseguir abalar um pouco o sistema e juntar a nossa crítica ao discurso público.

Mas não são apenas os israelitas que participam – activa ou passivamente – na ocupação e nos crimes de guerra levados a cabo por Israel. Organizações poderosas, com grandes interesses, alimentam a ocupação enviando dinheiro e dando o seu apoio político às acções de Israel; há empresas, negociantes de armas, organizações políticas extremistas e fanáticos vindos da América, da Europa e de outros lados. É com tristeza que dizemos que as administrações dos EUA continuam também a financiar os crimes de guerra de Israel. Mas nós podemos agir, juntos, pelo mundo fora, condenando o financiamento e a legitimação do governo de Israel e, no fim de contas, podemos chegar a pôr fim ao apoio internacional da sua política. Enquanto comunidade, podemos conseguir acabar com a normalização da ocupação.

Cabe a cada um de nós, evidentemente, escolher a melhor maneira de combater os crimes de Israel. Mas, mas neste momento, a política palestiniana pretende seguir o BDS (Boicote, Desinvestimentos e Sanções) dirigido contra as empresas e as instituições israelitas. O BDS é fruto de um apelo dos palestinianos, publicado em 2005, que se tornou o instrumento central da luta não violenta contra as violações israelitas dos direitos humanos.

Como dissemos acima, este movimento visa três objectivos com a sua luta não violenta: a promoção do direito ao regresso dos refugiados palestinianos, o fim da ocupação dos territórios palestinianos e o fim da discriminação contra os palestinianos que vivem em Israel.

Livrar-se de uma ocupação é um processo delicado, complexo e de múltiplos aspectos, mas devemos todos participar nesse derrubamento. Nós, Noam e Alon, escolhemos, para nos vermos livres da ocupação, declarar publicamente a nossa recusa de servir no exército e ao mesmo tempo apoiar militantemente o apelo palestiniano para o BDS.

Os cidadãos do mundo que têm a possibilidade de boicotar Israel devem reflectir sobre este apelo palestiniano e tentar juntar-se a ele – cada um de nós no seio da sua própria comunidade, no melhor da nossa competência – e não acreditar que uma condenação passiva da política de apartheid israelita possa ser suficiente. Devemos, pelo contrário, optar pela acção para pôr fim aos crimes de Israel”.






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