A quem serve a via seguida pela UGT?

Urbano de Campos - Quinta-feira, 23 Fevereiro, 2012

É patético o esforço que João Proença tem feito para demonstrar as “vantagens” para os trabalhadores – e para o movimento sindical, como ele não se cansa de sublinhar – do aval que, por sua mão, a UGT deu à política do governo PSD/CDS no acordo firmado, em final de Janeiro, à sombra da famigerada “Concertação Social”. Na verdade, ninguém vê onde está a vantagem de assinar por baixo medidas de despedimento mais fácil e mais barato, menores subsídio de desemprego, mais horas de trabalho não pagas, menos dias de férias, etc. A evidência é outra: no ambiente de catástrofe e de corrupção em que o país vive, o governo e os patrões compraram, a custo zero, o voto da UGT para que o assalto aos bolsos dos trabalhadores pudesse parecer coisa consentida.

A recusa, de novo pela voz de João Proença, em apoiar a greve geral marcada pela CGTP para 22 Março mostra que a UGT (conduzida, é bom não esquecer, principalmente por dirigentes do PS e do PSD) ficou satisfeita com as “garantias” (até agora desconhecidas) dadas pelo governo em Janeiro. Não se percebe com efeito, porque é que em Novembro passado a greve geral se justificou para a UGT, e agora, quatro meses depois, quando medidas ainda mais brutais foram decididas pelo governo, o protesto já não se justifica.
O papel da UGT é claro: fazer contra-vapor nos protestos contra a política do governo, facilitar a vida a Passos Coelho e aos patrões e proporcionar ao PS uma oposição sem sobressaltos para que, dentro do calendário eleitoral, os trabalhadores voltem a deparar-se com a escolha de sempre – PS ou PSD. Eis a questão.

Visto isto, a participação da UGT na greve geral de 24 de Novembro foi uma excepção, tornada necessária para que Proença e o PS ganhassem “poder negocial”.
Diversas vozes da banda do PS e do PSD, mal a greve terminou, alertaram o governo para que não deixasse a UGT escorregar para o campo da oposição de rua. Devia o governo, diziam, fazer um acordo com a UGT. E assim foi, com o acordo na Concertação Social, largamente aplaudido pelo patronato e, inclusive, mostrado como exemplo por Durão Barroso.

Recentemente, o papel de Proença evoluiu do de serviçal do governo para o de serviçal da troika. Na última vinda da troika a Portugal, na sua função de fiscal das contas e da política do governo, Proença e a UGT tiveram a visita dos comissários, facto que só pode ser entendido como um sinal de apreço do capital europeu pelo papelão desempenhado pelo sindicalismo amarelo. Correspondendo à amabilidade, o solícito Proença, quis mesmo dar mostras de finura diplomática dizendo que “sentiu” da parte dos senhores comissários “compreensão perante a situação que o país atravessa” – adiantando que, por sua vez, lhes transmitiu “uma mensagem de crescimento e confiança”.
O sentido concreto daquela “compreensão” e desta “mensagem” percebe-se perfeitamente tendo em vista o pacote de medidas que, semanas antes, o governo e os patrões tinham levado à Concertação Social, e a disposição que Proença e a UGT mostraram para as aceitar. Os factos não deixam margem para outro entendimento: a via da UGT é a da colaboração com o governo e com o patronato.

Não se percebe, neste quadro, a moderação da direcção da CGTP para com esta política da UGT. Adivinha-se que a justificação será a de não hostilizar os sindicatos e os trabalhadores filiados na central sindical de João Proença e Arménio Santos. Mas, precisamente, a melhor maneira de não os hostilizar será dizer claramente a esses trabalhadores que o caminho da UGT não os serve, porque – como é bom de ver – avaliza as medidas do governo e dos patrões a troco de nada.

Mais: debater isto abertamente não só é útil para que os filiados na UGT entendam que os seus dirigentes os afastam da resolução dos seus problemas e enfraquecem a resistência comum dos trabalhadores; é útil também para que os filiados na CGTP e, em geral, os trabalhadores que apoiam os protestos e sentem a necessidade de fazer crescer a onda de luta reforcem a sua convicção de que esse é o único caminho que pode dar frutos.






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