A metade pobre dos EUA

Marx estava certo: aumenta o fosso entre os 99% e os 1%. O capitalismo não pode responder às necessidades humanas

Fred Goldstein, WW / MV - Sábado, 28 Janeiro, 2012

pobreza_usa.jpgEm Novembro último, o New York Times publicou os dados sobre a pobreza nos EUA, baseados num novo método de cálculo, e avançou que 100 milhões de pessoas, uma em cada três, eram pobres. O número foi chocante. No mês seguinte, a Associated Press revelou que 150 milhões, cerca de uma em cada duas pessoas, era pobre ou “quase pobre”. Isto foi ainda mais chocante. É da relação entre o aumento da pobreza e o crescimento capitalista que fala o artigo de Fred Goldstein, publicado em 21 de Dezembro no jornal Workers World.

O número de pessoas que são oficialmente pobres ou “quase pobres” nos EUA tornou-se uma questão controversa.
O Gabinete de Censos (Census Bureau) alterou o método através do qual mede a pobreza oficial. Agora, diferenças regionais são consideradas ao calcular os custos de sustento de uma família, assim como são acrescentados quaisquer apoios governamentais – como vales alimentares – ao rendimento de uma família enquanto são subtraídas despesas médicas, de transporte, de creches e outras. 



O New York Times solicitou ao Gabinete de Censos números baseados nestes novos métodos de calcular a pobreza oficial. A nova percentagem foi chocante. O Times publicou os resultados em Novembro, avançando que 100 milhões viviam na pobreza, ou uma em cada três pessoas nos EUA. 


Mas um mês depois, em Dezembro, a Associated Press publicou os dados baseados nos novos cálculos. Revelou que 150 milhões – o que significa cerca de uma em cada duas pessoas – era pobre ou “quase pobre”. Quase pobre significa debater-se com dificuldades para conseguir pagar contas. Isto foi ainda mais chocante.

Ambos os números se basearam nos mesmos dados do Gabinete de Censos. A diferença é que o primeiro estudo contou todas as pessoas que vivem até 150% acima do nível de pobreza. O nível de pobreza oficial para uma família de quatro pessoas, com dois filhos, de acordo com os novos índices adoptados pelo Gabinete, foi ajustado para um rendimento anual de 24.343 dólares.
O segundo estudo, utilizando os mesmos dados, incluíu pessoas que vivem até 200% acima do nível de pobreza. Revelou que uma família de quatro pessoas, incluindo dois filhos, com um rendimento anual de 48.686 dólares também se debatia com dificuldades para sobreviver e vivia precariamente, próxima da falência. Qualquer um que tente manter uma família de quatro pessoas com este rendimento estará certamente de acordo com esta interpretação mais abrangente.

O Gabinete de Censos apressou-se a “clarificar” a situação, declarando que considerar que metade das pessoas nos EUA eram pobres ou “quase pobres” estava errado. De qualquer modo, disse o Gabinete, o governo não tem definição para “baixo rendimento” ou “quase pobre”, de modo que toda a discussão não tinha sentido. E a discussão desapareceu, então, rapidamente das grandes empresas de comunicação social.



“Não é preciso um meteorologista”


Independentemente dos números sejam adoptados, o facto é que os salários reais têm vindo a cair nos últimos 30 anos enquanto os capitalistas introduzem novas tecnologias, aceleram ritmos de trabalho e forçam milhões de trabalhadores a horários a tempo parcial. Desde que a crise económica começou, em Agosto de 2007, os salários têm caído ainda mais drasticamente. Pelo menos 30 milhões estão desempregados ou subempregados. Milhões foram despejados das suas casas. E os apoios governamentais estão a ser cortados até “ao osso” aos níveis federal, estadual e local. 


Por outras palavras, o debate sobre quanta pobreza existe de acordo com as estatísticas do governo é apenas um debate sobre interpretações do governo e índices do Gabinete de Censos. Debate à parte, pobreza e o sofrimento são reais e crescentes. Até mesmo pelas estatísticas oficiais, a pobreza nos EUA cresceu 2,6 milhões de 2009 para 2010.
Como costuma dizer-se, não é necessário um meteorologista para sabermos de que lado sopra o vento. A pobreza é inerente ao capitalismo. Durante uma crise económica com esta duração e severidade, a pobreza cresce em maior profundidade e maior extensão.

Karl Marx sobre os 1% e os 99%



É importante reiterar que o crescimento da pobreza é inerente ao capitalismo. De facto, Karl Marx, ao escrever em 1848 o Manifesto Comunista, antecipou a descrição dos 1% versus os 99%.
Argumentando contra os capitalistas, que se queixavam do programa comunista de abolir a propriedade privada dos meios de produção, Marx escreveu:

“Horrorizais-vos por querermos suprimir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade, a propriedade privada está já abolida para nove décimos da sua população; ela existe para alguns precisamente pelo facto de não existir para nove décimos. Censurais-nos, portanto, por querermos suprimir uma forma de propriedade que é condição necessária para que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade.
Numa palavra, censurais-nos por querermos suprimir a vossa propriedade. É precisamente isso que queremos.”

Marx escreveu acerca de um décimo da população versus os nove décimos durante as primeiras fases do capitalismo, antes de a vasta concentração de riqueza, que ele previu, ter alcançado as proporções do século XXI. De facto, hoje apenas uma minúscula fracção dos 1%, os bilionários, controla realmente a riqueza. 


Marx escreveu há 160 anos, antes da era do capital financeiro com os seus hedge funds (fundos de investimento especulativo) e uma riqueza inimaginável. Apesar de ter escrito sobre os 10 e os 90 por cento, ele observou e analisou a tendência do capitalismo para concentrar riqueza em cada vez menos mãos, deixando as massas sem bens e a viver na pobreza. Ao cabo de mais 20 anos de novos estudos do capitalismo, em 1867, Marx escreveu em O Capital (Livro 1, capítulo 25) acerca da Lei Geral da Acumulação Capitalista. Descreveu o papel da tecnologia na criação de pobreza e de um número sempre crescente de trabalhadores desempregados, que designou como “o exército de reserva do trabalho”:

“Ou seja, a lei que mantém o equilíbrio entre a sobrepopulação relativa, ou o exército de reserva industrial, e a ampliação e a vitalidade da acumulação aprisiona o trabalhador ao capital mais solidamente do que os grilhões de Vulcano aprisionaram Prometeu ao seu rochedo. É essa lei que estabelece uma correlação fatal entre a acumulação do capital e a acumulação da miséria. A acumulação da riqueza num pólo é, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, de sofrimento, de escravatura, de ignorância, de embrutecimento, de degradação moral, no pólo oposto, i.e., no lado da classe que produz o próprio capital.”

Mas Marx não descreveu apenas a pobreza e a desigualdade de riqueza. Ele analisou as suas origens na relação do trabalho com o capital. Mostrou que o sistema do lucro, o sistema da propriedade privada, se fundamenta na venda da força do trabalho pelos trabalhadores aos seus empregadores, que a utilizam para aumentar o seu capital, os seus lucros e a sua riqueza pessoal.

Isto é tão verdadeiro hoje como o era em 1848 e 1867. As mesmas leis descritas por Marx produziram a crise económica mundial que estamos agora a viver. As leis do capitalismo, especialmente a procura, permanente e intrínseca, do lucro, também orientam a tecnologia, acelerações de ritmo de trabalho, baixos salários, sobreprodução e, por fim, a destruição de empregos e de rendimentos para as massas do povo. 
A polarização da sociedade entre os 1% e os 99% é sistémica. E é o sistema que, a prazo, deve ser destruído.

O movimento Occupy Wall Street (OWS) levou a sociedade a dar um grande passo em frente ao denunciar os ricos e ao agir contra eles. Desta forma despertou diversos sectores da sociedade para a compreensão de que a sua pobreza, os seus empregos sem perspectivas, as suas lutas pela sobrevivência, não são resultado de uma falha sua, mas sim da falha do sistema.
Assim, o movimento OWS legitimou e disseminou amplamente a oposição ao sistema, levando-nos a dar mais um passo para sermos capazes de nos livrarmos do 1% e estabelecermos o regime dos 99% – ou seja, livrarmo-nos da autocrática classe capitalista dominante e estabelecermos o regime democrático dos trabalhadores e dos oprimidos.

Tradução e adaptação: Cristina Meneses
O original encontra-se em http://www.workers.org/2011/us/poverty_1229/






Um Comentário a “A metade pobre dos EUA”

  1. Felipe Luiz Gomes e Silva disse:

    O texto é excelente. O pauperismo aumenta no mundo capitalista. O capital não compra toda a força de trabalho disponível. O modo de produção e destruição capitalista avança. Saludos, Felipe Silva

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