A crise política do regime

Sem varrer PS, PSD e CDS da área do poder não há melhoria das condições de vida das classes trabalhadoras

Pedro Goulart - Terça-feira, 29 Março, 2011

manif12marcoporto.jpgDepois de numerosas cenas de colaboração (no Orçamento, nos PECs, etc), chantagem, zanga e disputa dos dois maiores partidos do regime – PS e PSD – a crise política estalou. Com a recusa na AR (embora por motivos diferentes) do PEC 4 de Sócrates/UE/FMI, o primeiro-ministro demitiu-se, conduzindo, provavelmente, à realização de eleições legislativas antecipadas. E Passos Coelho parece ter encontrado agora o momento oportuno para “ir ao pote” (ou à gamela?). Perante a situação criada, disse Sócrates: “Às vezes penso como foi possível fazerem isto ao país?” Que farsante! Destes dois actores, infelizmente, os trabalhadores e o País ainda podem ter muito a esperar, no domínio da farsa e da tragédia, em que ambos parecem peritos neste domínio.

O PSD e Passos Coelho (basta ver a corja de capitalistas e banqueiros que o cercam) pretendem, entre outras malfeitorias, terminar as tarefas que o PS e Sócrates encetaram e desenvolveram – a precarização do trabalho e a entrega da Saúde, da Educação e das Empresas Públicas ao capital privado.

Foram os três maiores partidos da burguesia – PS, PSD e CDS – que, sozinhos ou coligados nos diversos governos, conduziram o País ao longo de mais de três décadas a um forte estado de dependência económica e política em relação às potências imperialistas e empurraram as classes trabalhadoras para a actual situação de sobre-exploração em que vivem.

Iremos, assim, assistir em breve a mais uma demagógica campanha eleitoral, procurando esta gente do regime, outra vez, arrastar uma significativa parte dos trabalhadores e do povo português ao voto nos mesmos três partidos altamente responsáveis pelo actual estado de coisas. Percebe-se que os patrões votem no PS, PSD ou CDS. Também se percebe que o pessoal dos aparelhos destes partidos candidatos a gestores do capital neles votem. Idem, para os seus boys, mercenários e amigos. Pois eles são cúmplices e também defendem os seus próprios interesses.

Claro que será importante dificultar o “trabalho” dos partidos do capital e a sua determinação em encontrar um governo maioritário do conjunto PS/PSD/CDS, disposto a pôr em prática as graves medidas pretendidas pela UE/FMI. Uma fraca votação em cada um destes três partidos (e dos três no seu conjunto) enfraqueceria a estratégia da direita.

Embora não correspondendo as eleições parlamentares a um campo fundamental da luta das classes exploradas, não se compreende que os trabalhadores e o povo, que sofrem na carne as consequências desta política do capital ou que hoje têm acesso a um mínimo de informação, possam votar nesta gente que, sistematicamente, os têm enganado. Vivem agarrados à política ilusória e mesquinha do mal menor? Ou querem mesmo voltar a ser enganados?

Dada as actuais condições económicas, políticas e sociais em que se encontra o País, e aquilo que as classes dominantes nos prometem nos próximos tempos, os trabalhadores, os precários, os desempregados, os estudantes, os utentes do SNS ou dos transportes públicos… têm motivos fortes para continuar e aprofundar a luta pelos objectivos delineados nas manifestações dos dias 12 e 19 de Março e prosseguidos em diversas greves pontuais. A unidade, a organização, o espírito combativo e criador dos explorados e oprimidos são, desde já, elementos indispensáveis para fazer frente à ofensiva do patronato e às “eleições” em que as classes dominantes procurarão impor-se aos trabalhadores e ao povo. Não é momento de parar o combate.






14 Comentários a “A crise política do regime”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Provavelmente, P. Goulart tem razão quando afirma que, cito: “sem varrer o PS, PSD e CDS da área do poder não há melhoria das condiçoes de vida das classes trabalhadoras”. É um facto que está demonstrado pela História recente. Mas há um problema que está, mais ou menos, encoberto. Trata-se, obviamente, das alternativas que os trablhadores têm no actual espectro político-partidário. Se olharmos para os partidos que restam e que não são mencionados no artigo, apecebe-se que o PCP e o BE são uma falsa alternativa que os trabalhadores na sua lucidez reconhecem com relativa facilidade, e por isso se abstém em massa.

    No entanto, o artigo ao desclassificar a importância das eleições parlamentares a um campo fundamental da luta de classes está a dar de mão beijada esse campo à burguesia e isso é no fundo op que faz o PCP e o BE na sua táctica e estratégia política como partidos parlamentares, apenas destinados à oposição “democrática”.
    Deste modo, nesta táctica suicidária da luta de classes em Portugal, vamos uma vez mais assistir à vitória do PSD com uma notável percentagem de abstenções que os analistas revolucionários teimam em não dar importância.

  2. heitor da silva disse:

    Aqui chegados, com acerteza de que da direita no seu todo só podem os trabalhadores esperar mais do mesmo, seria de esperar que as forças da esquerda parlamentar se entendessem a ponto de que sendo consequentes com os seus enunciados políticos de defensores dos trabalhadores e, dado o momento crítico da situação política do país, procedessem em conformidade e apresentassem uma proposta de acção conjunta de modo a assumindo as suas responsabilidades e constituíssem uma alternativa de esquerda que, no imediato pudesse ser o motor mobilizador do espirito combativo e criador dos exploradoas e oprimidos deste país que, doutro modo, não encontrarão saída que dê satisfação aos seus interesses de classe e consequentemente os perpetuará na condição de explorados sem esperança de vida.

  3. Pedro Goulart disse:

    Considero que o Afonso fez confusão. Não percebeu parte do que escrevi, nomeadamente quando falei das eleições parlamentares e da luta de classes. Clarificando: acho que as eleições parlamentares não são o fundamental – ao contrário do que afirmam os partidos da burguesia e do que, de certo modo, praticam os partidos da esquerda parlamentar. Quanto a mim, as eleições parlamentares são apenas um complemento (não determinante) da luta de classes, a utilizar, se considerarmos útil. Do meu ponto de vista, são as lutas nas empresas e nas ruas que constituem o determinante, o fundamental.

  4. Manuel de Sousa disse:

    Concordo em parte com o Pedro quando diz: «Do meu ponto de vista, são as lutas nas empresas e nas ruas que constituem o determinante, o fundamental.» Só que essa afirmação é contraditória, a meu ver, com coisas como o «apelo» das eleições presidenciais do «Mudar de Vida» onde novamente se pretendia dar importância ao que não o têm…
    Concordo com o Afonso sobre o PCP e BE que são organizações auxiliares no processo de legitimação do Sistema e servem para conter algumas franjas dos descontentes dentro das regras do Poder. Isso quando não chegam a desempenhar o papel de «polícia» da contestação, como aconteceu com o PCP no patético caso da manifestação contra a NATO.
    A questão que se coloca hoje, como sempre, é da capacidade dos «de baixo» desenvolverem uma teoria e uma prática autónomas radicalmente anti-capitalistas. No contexto actual essa devia continuar a ser a nossa prioridade e para isso em nada contribuem as ilusões eleitorais, mesmo nas rebuscadas elaborações tácticas da velha (extrema)esquerda. Mas também me parece óbvio que será o evoluir da situação político-social que irá determinar o fim das «esperanças» de integração numa sociedade tranquila de «consumo», que foi o factor determinante de integração da maioria dos trabalhadores e da pequena burguesia no Sistema a partir da II Guerra, e por cá a partir dos anos 80.
    Sem ser determinista, penso que vai ser a guerra social desencadeada pelos grupos dominantes contra as pessoas comuns, digámos assim, que irá criar, e «educar», aqueles que irão lutar para a sua superação em termos de mudança social. Por tudo isso esqueçam as eleições, voltem o olhar para a situação e para as ruas e enquanto estas estiverem desertas não há eleição que nos salve!

  5. afonsomanuelgonçalves disse:

    A resposta do Pedro ao meu comentário quando afirma, que não percebi parte do que escreveu, comporta um equívoco que convém esclarecer:
    1 – A questão não reside na falta de percepção como é pretendido, mas sim na divergência de opinião.
    2 – Com efeito, discordo da tese de que as eleições parlamentares não são um campo fundamental da luta das classes exploradas.
    3 – Contudo, isso não significa que ponha em 2º plano as lutas nas empresas e nas ruas, assim como as greves-gerais e outras formas de luta mais ousadas.
    4 – Pelo contrário, cada uma destas formas de luta tomadas no seu conjunto reforça a capacidade e a importância de todas as outras.
    5 – Eis a razão pela qual, na actual conjuntura da crise capitalista a disputa eleitoral não pode ser posta num 2º patamar.
    6 – A este propósito, em 1912 Lenine escreveu uma carta de Cracóvia a Gorki sobre este assunto, em que afirma que nessa altura todos os esforços do Partido se concentravam nas eleições para a Duma e onde os êxitos da eleição de deputados se manifestavam por todo o lado.
    7 – Sobre a minha falta de percepção acerca daquilo que o Pedro escreveu, devo acrescentar que uma das qualidades da sua escrita é fazer-se entender de uma forma muito clara e objectiva sem recurso a oratórias empasteladas e “didácticas”, coisa que é quase geral e corrente nos analistas da nossa esquerda.

  6. A CHISPA ! disse:

    Todos os partidos parlamentares de uma ou outra forma têm responsabilidades.Os partidos defensores do grande capital, PS,PSD e CDS tratam de defender os interesses da classe capitalista e do capitalismo. Os partidos da esquerda do sistema o BE E PCP, são-no na medida em que, em vez de combaterem o capitalismo e a exploração, procuram suavizar o sistema e a exploração.
    Portanto, independentemente das lutas que se pode e deve fazer em defesa dos direitos económicos e sociais dos trabalhadores, contra a ofensiva capitalista, o mais IMPORTANTE, (pensa A Chispa!) é apresentarmos uma ALTERNATIVA REVOLUCIONÁRIA como saída, para a profunda crise sistémica, que o sistema capitalista atravessa.
    Para lá dos apelos que se faça, é isto exactamente que o proletariado e as massas trabalhadoras não assalariadas EXIGEM de NÓS.
    Assim sugerimos dado que o MV tem melhores condições para o fazer, que se faça imediatamente um encontro, para se discutir a actual situação politica, económica e social.

    Bem hajam
    A Chispa!

  7. heitor da silva disse:

    A Manuel de Sousa: Claro que as lutas nas empresas levadas a cabo pelos trabalhadores unidos e organizados autonomamente, tendo em vista a defesa dos seus interesses de classe, são fundamentais para conseguirem o seu objetivo.
    Assim como também, não tenhamos dúvidas, não são as eleições burguesas a qualquer âmbito, que acrescentarão o que quer que seja a esta luta.
    Mas, dada a terrível situação das (recentemente actualizadas) condições globais no trabalho – desemprego brutal, sem perspetiva de futuro, precaridade, cada vez maior redução do valor da mão d´obra… e o que se espera de pior, constituirem uma clara declaração de querra aos trabalhadores por parte da patronal, bem assistida pelo governo do PS e que serão reforçadas para pior pelo PSD ao chegar, a questão será saber se esta teia urdida pelo capital terá a necessária resposta dos trabalhadores. Porque a tarefa não é nada fácil e exige unidade, determinação e espírito de classe!

  8. António Poeiras disse:

    1. A vitória do PS e do PSD, sempre e alternadamente, nada tem a ver com o facto de os revolucionários previlegiarem ou não as eleições.

    2. Todos os campos de luta são igualmente campos de luta e todas as vitórias que impliquem a repressão de uma parte da sociedade são vitórias de Pirro.

    3. A questão fundamental reside na alternativa de orientar a luta para a tomada e ocupação do aparelho do estado VS acção como força constituinte de uma outra forma de habitar o planeta.

    4. Não é a consciência que determina os indivíduos a agir sendo, por isso, necessário, para que qualquer mudança seja possível, que instintivamente desejam coisas diferentes das que hoje desejam: ser ricos!!!

    5. Quanto ao que está em apreço, haverá um governo para fazer o que falta, seja com um, dois ou três dos partidos de que aqui se fala.

    6. Saber se é melhor votar ou não é, pois, questão ociosa, a não ser que se ponha a possibilidade de votar no PS para evitar a privatização da água e da CGD, por exemplo. Repugna? não é a apelar ao voto no BE e no PC que se ganha qualquer batalha!

    7. O melhor é avançar com acções contra o pagamento da dívida, não pagar os transportes públicos, etc. (ignorar as ordens da Ordem)!!!

  9. Ze povinho disse:

    O PC e o BE é que são a solução? Ditaduras não obrigado. Quem tem acesso à net pode ler o manifesto comunista de marx e engels, esse documento lindo e actual. Não sou proletário, nem burguês, sou uma pessoa e sou Português! E sim tenho pátria e não é uma invenção burguesa! Vivam as pessoas e viva Portugal!

  10. António Poeiras disse:

    A única coisa que votar garante é a legitimação do governo que sair das eleições, e sairá um governo que cumpra as ordens dos banqueiros e da Führer, seja com um, dois ou três partidos.

    A abstenção massiva exprime muito melhor a rejeição da merda que aí vem.

    A mudança política que se impõe não passa por joguinhos de voto aqui, voto acolá, são as acções de rejeição da ordem dominante (o que passa também por rejeitar o modelo eleitoral) que podem impôr modificações.

    A mobilização contra as imposições do FMI e o não pagamento da dívida, as acções contra os bancos, etc. (mas com persistência, não é com greve de duas horas e uma manif de seis em seis meses) são o género de acções colectivas para onde é necessário canalizar energias.

    Importância de votar? Por favor!!! O Cavaco foi eleito com 20% …

  11. António Poeiras disse:

    O ‘Zé Povinho’ anda mesmo como o dito cujo: baralhado; mas com sentido poético – não é “proletário nem burguês” mas “pessoa e português”

    e tem uma pátria, o que não é mau, pior seria ter uma Pátria, embora ele não saiba que a sua pátria tem alma de banqueiro.

  12. Pedro Goulart disse:

    Concordo com algumas questões colocadas pelos comentadores. Com outras nem tanto. A minha posição sobre o assunto está expressa no artigo e num comentário.
    Contudo, o comentário de Zé povinho suscita-me algumas questões, cuja resposta também pode servir para outros leitores e/ou comentadores.
    Quanto a ditaduras, já lutei contra a ditadura fascista, mas não deixei nem deixo de lutar contra outras ditaduras, como a actual, que mais não é que uma ditadura do grande capital, disfarçada de democracia. É importante não esquecer o que esta gente tem feito ao povo e ao País. E combater (incluindo votar contra) PS, PSD e CDS, não obriga ninguém a votar no PC ou no BE, se o não quiser. É preciso um pouco mais de imaginação. Mesmo que tenha de se votar com os pés. E, analisando bem a situação presente, não se vislumbra que daí possa vir actualmente qualquer espécie de ditadura.
    Mesmo que não queira, o Zé povinho não pode ser ideologicamente independente. Mesmo que seja burguês, se não tiver grandes interesses a defender, há problemas de dignidade, que podem levar que um homem seja um homem – não se deixar espezinhar por ninguém, nomeadamente por aqueles que nas últimas décadas têm oprimido o povo português.
    Mais, quanto ao seu viva a Portugal, embora eu seja internacionalista, escolhi viver neste País e nunca quis nem quero, que me oprimam, quer sejam portugueses, quer venham de outros países.

  13. António Poeiras disse:

    Pedro, creio ter quanto às eleições a mesma posição que tu:

    às vezes é importante votar
    às vezes é inútil votar e,
    às vezes é importante não votar.

    Ora, como digo no meu comentário de dia 4 e é hoje claro para todos – até para procurar evitar a contestação social e as tentativas posteriores de renegociação dos contratos, amplamente favoráveis aos bancos, FMI… -, vai OBRIGATORIAMENTE sair destas eleições um governo com maioria na AR, seja ele formado por um, dois ou três partidos.

    Nesse quadro, a capacidade de influenciar o curso das coisas pelo voto obrigaria a que mais de 50% dos votantes o fizesse contra os três partidos do capital, o que, convenhamos, não me parece possível (os portugueses são ainda culturalmente fascistas, o que se reflecte claramente na arrogância dos políticos e na subserviência da população).

    Creio, portanto, ser muito mais fácil e eficaz minar a legitimidade do governo a ser eleito, nomeadamente com uma taxa de abstenção superior aos ditos 50%, lançando claramente a ideia de rejeição da solução proposta pelo regime (não pelo partido a ou b) e recusando a ditadura (porque se trata de ditadura: o FMI diz o que fazer e ainda vem controlar se o governo faz ou não o que lhe mandam).

    Parece-me que as iniciativas úteis serão no sentido das que tomaram os islandeses (ainda agora mandaram à merda as agências de notação que os ameaçaram com a descida na tabela): procurar na rua impôr ao governo o não pagamento das consequências das suas manigâncias.

    As irmandades, dos aventais como dos círios, mais os bilderbergues e seus lacaios não podem merecer a nossa confiança: em nosso nome não!!!

  14. ClassecontraClasse! disse:

    Então quando é que o pessoal se encontra para falar sobre estes assuntos?

    Porque não um convivio para o 25 de Abril ou uma data a combinar?

    ClassecontraClasse!

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