Tunísia, Egipto...

Sinais de viragem

O que dizem aos trabalhadores europeus as revoltas populares no mundo árabe?

Manuel Raposo - Segunda-feira, 31 Janeiro, 2011

tunisia.jpgPelo sétimo dia consecutivo, o Egipto está a ser abalado pelos protestos de milhares de pessoas que, nas ruas das principais cidades, exigem a queda do regime liderado há 30 anos por Hosni Mubarak. Este movimento de massas segue-se aos protestos iniciados na Argélia e depois da Tunísia, e que se ramificaram, em grau por enquanto menor, à Jordânia e ao Iémen. De facto, todos os 22 países do mundo árabe, que cobrem a costa sul do Mediterrâneo e parte do nordeste de África e se estendem até ao Próximo Oriente estão a ser tocados por esta gigantesca revolta popular que põe em causa as bases de regimes políticos e de sistemas sociais que pareciam até há pouco inabaláveis.

A revolta na Tunísia foi rapidamente baptizada pelos meios de comunicação como a “revolução de jasmim”, à semelhança das movimentações desencadeadas há alguns anos na Geórgia ou na Ucrânia, por exemplo, crismadas então de “revolução rosa” ou “revolução laranja”. Mas enquanto aquelas movimentações, não obstante o apoio popular, foram lideradas desde início por sectores burgueses bem organizados – em muitos casos financiados e instruídos por instituições e especialistas norte-americanos e europeus interessados numa mudança dos regimes a seu favor – a revolta tunisina tem uma origem genuinamente popular e, ao subverter o regime no poder, põe em causa os interesses do capitalismo ocidental, europeu e norte-americano, que sempre apoiou esse mesmo regime e o procurou defender até à última.
O mesmo se passa neste momento com a revolta egípcia – mas com um efeito multiplicado, tendo em vista a população envolvida (84 milhões de pessoas) e o papel crucial que o Egipto representa para a União Europeia e os EUA.

Sem querer antecipar conclusões, parece-me importante evidenciar alguns dos factores que, a meu ver, marcam as revoltas populares que estão em curso.

Problemas comuns, lutas comuns

O primeiro aspecto a destacar está nos motivos que as desencadearam: os salários miseráveis, a pobreza generalizada e crescente, a subida incomportável dos preços, o desemprego; tudo isto sobre um pano de fundo de regimes políticos brutais, sem liberdades públicas, apoiados e mantidos pelas grandes potências capitalistas europeias e norte-americana.
Este quadro é comum às populações da maioria dos países árabes e isso constitui uma base concreta para que os protestos possam contaminar país após país – possibilidade esta temida sobremaneira pelos dirigentes europeus e norte-americanos. E à medida que o sucesso das movimentações seja evidente na Tunísia e no Egipto, mais essa possibilidade de contágio se pode tornar realidade.

A juventude à cabeça das revoltas

Segundo factor digno de atenção: a participação de população jovem na revolta. É certo que os países árabes têm uma população essencialmente jovem, mas não é por motivos demográficos que a juventude encabeça a luta – é precisamente porque, constituindo uma maioria da população trabalhadora, a juventude é directa e brutalmente atingida pela crise do capitalismo (o desemprego atingindo entre ela números enormes).

A participação activa e, pode dizer-se, a liderança da juventude nestas revoltas são sinais de que uma nova geração de lutadores sociais está a aparecer à luz do dia e a marcar os acontecimentos.

(Pesem embora as diferenças existentes à partida, cabe aqui um paralelo com o surgimento recente na Europa de movimentações de protesto encabeçadas por jovens, designadamente em França e no Reino Unido. É um sinal novo, também nas lutas europeias recentes, a saída em massa de jovens, muitos deles adolescentes, para as ruas – não hesitando em fazer frente às forças policiais e preocupando-se pouco com as regras de “bom comportamento” que os eternos defensores da ordem lhes procuram meter na cabeça.)

O sentido laico e de classe dos protestos

Terceiro destaque: os movimentos da Argélia, da Tunísia e do Egipto são, na sua raiz e no seu desenvolvimento presente, movimentos laicos, em que o traço comum é a condição de trabalhadores da maioria dos seus participantes. Quer isto dizer que, para já, a acção de massas pôs de lado a capa religiosa que acompanhou anteriores movimentações de contestação dos regimes – e que, também elas, eram alimentadas pelas desgraçadas condições de vida das populações trabalhadoras.

Aparentemente, essas anteriores manifestações de massas (que o Ocidente se apressou a condenar como “fundamentalistas”, e de que muita esquerda bem-pensante se dessolidarizou com esse mesmo argumento) representaram uma acumulação de forças sociais e de disposição de luta que agora explode na sua forma mais radical, genuína, de luta de classe, despida de roupagens confessionais, reclamando liberdade e dirigida contra os efeitos da crise mundial. Neste sentido, estas revoltas são, em germe, expressão de uma luta de classe anticapitalista.

Uma mesma crise de fundo, apesar das diferenças

Quarto dado importante, as razões que levam as populações árabes à luta tem traços comuns com a situação que está a ser vivida por grande parte das populações europeias, sobretudo dos países do sul, sujeitas a medidas ditas de austeridade que as lançam na pobreza.

Apesar das enormes diferenças de natureza material e política entre os países europeus e os do mundo árabe, o que atinge as populações pobres da Europa e a generalidade das populações árabes são os efeitos de uma crise comum do capitalismo (mais gritante, obviamente, nos países dependentes).

Na realidade, os laços materiais que ligam a União Europeia aos países árabes são hoje mais fortes do que as diferenças culturais e políticas sugerem: investimentos, trocas comerciais, turismo, dependência energética, migração de força de trabalho fazem dos países do norte de África e do Médio Oriente parceiros dependentes do capitalismo europeu (além, claro, dos EUA) e esse laço material aproxima, para além da geografia, as populações trabalhadoras de ambos os lados.

O movimento leva a pensar

Dito de outro modo, os trabalhadores europeus têm tudo a ganhar se tirarem para si próprios as lições dos acontecimentos: o papel activo na mobilização que os sindicatos, no caso da Tunísia, tiveram no levantamento popular; a participação decisiva da juventude, que mostra estar plenamente ciente dos seus problemas presentes e futuros e que não faz favores à ordem e ao poder instalado; o carácter de classe das exigências levantadas, radicando na defesa das condições de vida mas apontando os regimes políticos e sociais como os alvos a abater; a percepção de que as mudanças políticas têm de ser impostas através da força da luta de massas e não por simples reclamação.

É cedo para tirar conclusões definitivas sobre os acontecimentos e sobre quais vão ser os seus resultados políticos práticos. As forças que foram apanhadas de surpresa pelas revoltas e ultrapassadas pelos acontecimentos (Al-Baradei e a Irmandade Muçulmana no Egipto, os dirigentes islamitas tunisinos que regressam do exílio, por exemplo) dão mostras de querer cavalgar a onda de mudança e de tirar dela ganhos políticos.

Seja como for, esta revolta das populações trabalhadoras árabes – que, não esqueçamos, ocorre na periferia imediata da Europa – dá um sinal de viragem não só para os países árabes mas também para a luta de classes dos trabalhadores europeus.






Um Comentário a “Sinais de viragem”

  1. Rita Moura disse:

    Como somos os mouros da Europa, pode ser que a coisa chegue cá!…

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