Nada a comemorar

Muro de Berlim acabou há 20 anos

Manuel Raposo - Terça-feira, 29 Dezembro, 2009

muroberlim_web.jpgComo Afonso Gonçalves assinala no artigo Berlim em 2009 (publicado em baixo), foi triste a festa com que a burguesia de todo o mundo pretendeu comemorar os vinte anos do derrube do muro. Retomo o tema reforçando a ideia de que a crise do capitalismo esvaziou a festa de qualquer sentido; e dizendo que, em toda esta história, o muro foi uma mera medida defensiva de um regime decadente, sujeito a uma ofensiva sistemática das potências capitalistas.

Não é tempo de festa

Percebe-se o fiasco da festa: o capitalismo, declarado vencedor em 1989, não tem hoje grandes motivos de regozijo, nem mesmo para consigo próprio. E tem ainda menos argumentos para se apresentar às massas trabalhadoras de qualquer parte do mundo como um modo de vida pelo qual valha a pena alguém bater-se. E há mesmo quem, no Leste, já prefira o passado…

Mesmo depois de tão estrondosa “vitória”, depois de eliminada a “ameaça à paz”, depois de varrido o obstáculo ao “desenvolvimento” e ao “livre mercado”, depois de aberto o caminho à “democracia” e à “liberdade” … o capitalismo mundial não consegue sair do marasmo económico, as bolhas especulativas rebentam umas a seguir às outras, o desemprego cresce, as diferenças sociais agravam-se, a fome prolifera, as ameaças ambientais aumentam, as guerras de agressão repetem-se de forma impune, as despesas militares sobem em flecha, os regimes políticos são cada vez mais fascistas, os indivíduos são cada vez menos livres.

Não admira que, num inquérito de opinião feito pela BBC e publicado por ocasião do aniversário, uma maioria de pessoas manifestasse desagrado com o funcionamento do capitalismo, mesmo se a maior parte ainda acredita em medidas de reforma do sistema.
Em 29 mil entrevistados de todo o mundo, só 11% acham que o capitalismo “funciona bem” e 23% acham que “precisamos de um novo sistema económico”, embora não digam qual. Estes números levaram o presidente de uma das empresas promotoras do inquérito a concluir: “Parece que a queda do muro de Berlim não foi a vitória arrasadora para o capitalismo de livre mercado que parecia à época”. Sintomática também é a opinião apaziguadora do presidente de outra das empresas promotoras: “As pessoas não querem abandonar o capitalismo, mas moderá-lo”. Certo, por enquanto.

O muro

Construído em 1961, o muro é o símbolo da tentativa de defesa de um regime que entrara em desagregação, sem possibilidade de sobreviver nem às suas contradições internas nem às ofensivas conduzidas pelo bloco dos países imperialistas.

Antes mesmo da derrota do regime nazi pelo exército vermelho, que se consumou em Maio de 1945, fora estabelecido, na conferência de Yalta (Fevereiro do mesmo ano), um compromisso entre os estados aliados sobre o futuro da Alemanha. O país seria desmilitarizado e as quatro potências vencedoras da guerra (EUA, Reino Unido, França e URSS) exerceriam tutela sobre quatro parcelas do território alemão: uma a Leste e três a Oeste. Berlim, situada em plena zona Leste, seria igualmente quadripartida.

Todavia, norte-americanos, ingleses e franceses fundaram, logo em Maio de 1949, nas três zonas ocidentais sob sua tutela, a República Federal da Alemanha. Na zona ocupada pela URSS é, então, fundada a República Democrática Alemã, em Outubro do mesmo ano.
A criação da RFA pelas potências ocidentais tinha, claramente, propósitos que iam além da unificação territorial. A criação do marco alemão, o forte apoio norte-americano ao desenvolvimento da economia alemã, a criação da NATO (em Abril de 1949) com inclusão da RFA em 1955, fizeram do país uma ponta de lança da Guerra Fria apontada aos restante países do Leste e à URSS.

O confronto Oeste-Leste que se travava na fronteira entre a RFA e a RDA foi transportado pelas potências ocidentais igualmente para a cidade de Berlim. E é neste quadro que o muro surge, doze anos depois, como tentativa (a prazo, inútil) de vedar o Leste à influência do capitalismo ocidental.






2 Comentários a “Nada a comemorar”

  1. afonso gonçalves disse:

    Parece-me que não se pode defender um acto político de um governo ou de um regime, quando essa acção recai repressivamente sobre o povo ou sobre uma população que vive e circula livremente numa determinada cidade. Justificar esse comportamento político como medida defensiva contra o inimigo não passa de um eufemismo que serve para qualquer circunstância e para qualquer fim. Isto é, pode dizer-se o mesmo da construção de outros muros que como sabemos são uma afronta à liberdade e ao direito dos povos.

  2. António Alvão disse:

    A propósito do muro.
    Eu não comemoro a queda do muro, mas congratulei-me com o seu derrube, não só do muro, mas também da derrocada do bloco de Leste – e sou de esquerda.

    M. Raposo, nas análises que faz sobre a queda do muro e da efeméride da revolução soviética, faz subtilmente o branqueamento do terror anti-socialista / anti-comunista dum sistema totalitário, mono-partidário, mono-ideológico que estatizou e nunca socializou. Cuja repressão sobre trabalhadores, camponeses pobres, intelectuais, idealistas, etc. Chegou muito mais longe do que alguns regimes fascistas! Só por conta do “paizinho” Staline foram mais de 50 milhões.

    Ainda há dias deu no Canal História – na Ucrânia, de 1932 para 1933, morreram à fome 6 milhões. Staline mandou sacar-lhes todos os cereais a troco de nada. O camião que andava pelas portas a levantar cadáveres, carregava também algumas pessoas idosas ainda vivas, tudo para a vala comum, era repugnante ver a tal cena.

    Hoje, só não sabe dos crimes, de tal regime político quem não quer… ou então estão de acordo com os mesmos? (ambas as coisas são más).

    Os povos odiavam o “comunismo” e seus dirigentes, e mais ainda os ocupantes soviéticos. Enquanto no ocidente alguns estudantes, e não só, pseudo-intelectuais e pseudo-revolucionários simpatizavam com aquele regime.

    Não se deve passar de revolucionário a ditador, ou mesmo a simpatizante dele.
    Esta contradição, talvez seja do foro da ignorância ocidental? Ou então oportunismo político pessoal da pequena burguesia de esquerda ml, porque tal regime aquartela uma camarilha de muitos milhares de burocratas, que têm a vida facilitada, em relação aos trabalhadores e ao homem comum.

    Os leninistas sempre desconfiaram da classe trabalhadora. Diziam, ainda hoje dizem, que a classe trabalhadora não sabe o que é melhor para si!!!

    Era proibido a socialização, liberdade de expressão, sindicalismo autónomo, a crítica, etc. Só não foi proibido o pacto entre os dois monstros, durante três anos (e foi Hitler que o rompeu). Dividiram a Polónia, massacraram aquele povo, e queriam fazer o memso à Finlândia.

    É curioso que, ambos os ditadores defendiam o nacional-socialismo!

    Não vale a pena esforçar mais a memória, porque a história já tomou conta do passado dum regime político que muitos por lapso ou ignorância chamavam-lhe: o farol e a pátria do comunismo; e a um dos maiores ditadores do século XX – o “paizinho” dos povos – cujas estátuas foram derrubadas por todo o lado, menos na Geórgia (sua terra natal). E quando os turistas perguntam aos georgianos porque só na Geórgia é que existe a estátua de Staline, estes respondem – gostamos muito dele por ter matado muitos russos!

    Misturar o marxismo com um sistema totalitário anti-emancipação dos trabalhadores, é duma ignorância ou má fé atroz (ambas as coisas são más)!

    A ditadura do pseudo comunismo fez o mesmo ou pior do que Salazar e Franco ao movimento libertário! Hoje, embora com alguma dificuldade, já vai existindo o movimento libertário nos países da ex-URSS. Só por isto, já valeria a pena a queda do muro e do regime!

    Meus amigos, ser só anti-capitalista e anti-imperialista, não chega. Acácio Barreiros, Stalinista assumido, também o era. O seu radicalismo verbal anti-capitalista e anti-imperialista, escondia o que lhe ia na alma: era precisamente o amor à sociedade capitalista.

    P.S.: Este meu comentário, é no campo do debate. Não tenho nada contra aquele que defendem, isto ou aquilo.
    Lamento, é, os anti-capitalistas como eu andarmos anos em debates teóricos e não pensarmos em unir esforços para combatermos este capitalismo.
    Caso contrário, leva-me a pensar que alguns nti-capitalistas não devem estar muito mal nesta sociedade capitalista? Ou será que haverá mais acácios barreiros?

    Dito – sem prática revolucionária, não há movimento revolucionário; não aos teóricos das lutas dos outros, eu.

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