O capitalismo em coma profundo sobrevive ligado à máquina

Afonso Gonçalves - Sábado, 13 Junho, 2009

capitalism_graffiti.jpgO capitalismo global, tal como o moribundo, pode permanecer vivo mais 15 ou 30 anos alimentado a soro e apoiado com sucessivas terapias de reanimação. O G20, Banco Mundial, FMI, etc. tentam em vão resolver a grave crise que se abateu sobre a economia capitalista e o seu sistema financeiro. Pouco há a fazer senão recorrer a despedimentos, aumentar impostos e aliviar as despesas do Estado com cortes na Segurança Social e práticas afins – desmantelando um sistema que durante longos anos foi o rebuçado e o sedativo que amestrou a classe trabalhadora e uma grande franja da pequena burguesia ligada à gestão de serviços e, também, a pequena intelectualidade universitária e artística.

Agora, os sinos tocam a rebate e os diversos partidos da classe dominante em Portugal disputam entre si a direcção e o exercício efectivo do poder do Estado, sem contudo propor uma ténue solução para aliviar os enormes sacrifícios que se abatem sobre os trabalhadores em geral (os partidos em causa e seus mensageiros de ofício dizem candidamente “todo o país”).

Televisões, jornais, fazedores de opinião são recrutados e pagos a bom preço para, em campanha permanente, iludir a realidade e denunciar “as soluções perversas de alguns demagogos” que se querem aproveitar deste mau capitalismo, aparecendo na cena política as Joanas D’Arc purificadoras dos comportamentos ilícitos e os D’Artagnans justiceiros do fisco severo e moralizador. Bobos da corte, desesperam porque não lhes são dados os meios e os instrumentos jurídico-formais para colocarem estas ervas daninhas na ordem e na prisão. Os velhos hábitos de solucionar problemas recorrendo exclusivamente à perseguição e à repressão não lhes saem da cabeça.

No entanto, o imperialismo dos “direitos humanos” continua a sua cruzada guerreira contra os governos bárbaros e atrasados do Terceiro Mundo para, de acordo com os seus propósitos, libertar os povos das amarras de ferozes ditaduras. Matam colateralmente milhares de civis e aniquilam com torturas ultramodernas os obstinados resistentes à agressão militar. Afeganistão e Iraque são colocados a ferro e fogo, o terror é espalhado sem complexos em todo o Médio Oriente, embora tenha sido colocado na reforma o belicista mais empertigado.

Surge, entretanto, um hábil apaziguador (Obama) enchendo de euforia a burguesia europeia desejosa de fazer renascer a esperança nos corações dos homens e mulheres que acreditam na possibilidade de arrepiar caminho, para evitar a catástrofe e a tragédia que se abate sobre os povos.

As igrejas das diversas religiões mostram as suas preocupações com o rumo das coisas, os sindicatos imploram bom senso e sentido da responsabilidade aos governos, e os trabalhadores, no desespero das suas vidas, lutam quase ingloriamente pela sobrevivência.

Enquanto isso, o capitalismo mundial, alimentado pelos sofisticados instrumentos no prolongamento da vida até ao último limite, lá vai sobrevivendo através dos despedimentos, da especulação financeira, da agiotagem, da destruição maciça de forças produtivas, ao mesmo tempo que prepara, para se salvar do naufrágio, novas incursões militares nas mesmas e noutras paragens que se perfilam no horizonte.

Perante isto, os trabalhadores confrontam-se com um enorme vazio e julgam-se incapazes de o preencher em termos económicos e políticos.
“Hic Rhodes, hic salta”, afirmou Marx citando um provérbio latino inspirado numa fábula e Esopo que significa: mostra na prática aquilo de que és capaz.






2 Comentários a “O capitalismo em coma profundo sobrevive ligado à máquina”

  1. anónimo disse:

    Pois é, e os russos já começam a ficar com comichão acerca das manobras da NATO com os ‘neutrais’ Suíça e Finlândia no Mar Báltico, e concerteza não é por causa do Ossama bin Laden…e nada como uma boa guerra para relançar a ‘economia’….

  2. Membrodopovo disse:

    “Perante isto, os trabalhadores confrontam-se com um enorme vazio e julgam-se incapazes de o preencher em termos económicos e políticos.”

    Mais grave ainda é isto: os trabalhadores vêem os sindicatos como grupos económicos que lucram directamente com o salário dos trabalhadores, e os sindicalistas como oportunistas. Falo na generalidade de uma nova geração de jovens trabalhadores de grandes grupos económicos, a quem sob a égide da amizade, gestores e gerentes ensinam a justiça do capital e a sobrevivência do mais apto na selva laboral: com palavras de carinho e rigor os trabalhadores são incumbidos a defender a família (todas as grandes superfícies trabalham como uma grande família) e ignorar os trabalhadores descontentes – invejosos do bom sucesso dos “bem comportados” ou ignóbeis traidores que exigem de mais de quem lhes paga o salário.
    E assim se destrói a solidariedade entre trabalhadores, a tão odiada solidariedade!

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