As razões, segundo a CT, do cancelamento da luta na Transtejo

Vladimiro Guinot - Sábado, 13 Outubro, 2007

Mudar de Vida (MV), foi ouvir a Comissão de Trabalhadores da Transtejo sobre as razões do cancelamento da luta que estava em curso desde 23 de Julho. Pretendíamos saber se todos os objectivos da luta tinham sido alcançados ou se alguns ficaram por resolver. José Augusto de Oliveira (JAO), Coordenador da Comissão de Trabalhadores da Transtejo, disponibilizou-se para responder às nossas perguntas.
Começámos por lhe entregar o nº 1 do MV, e pedimos-lhe a opinião acerca da entrevista publicada sobre a luta na empresa. Respondeu-nos que tudo o que lá está dito corresponde à verdade.

MV – Albano Rita, dirigente do Sindicato dos Fluviais, afirmou na imprensa que: “o acordo está por muito pouco”. Significa isto que se parou a luta sem se terem alcançado todos os objectivos pelos quais ela foi iniciada?

JAO – Não. Os objectivos da luta foram alcançados. A administração da empresa alterou a sua posição quanto às faltas injustificadas aplicadas aos 58 trabalhadores, requisitados para os serviços mínimos, pela sua adesão à greve geral de 30 de Maio, passando a considerá-las apenas como faltas normais. Daí que todos os processos disciplinares tenham sido arquivados. Esta era a reivindicação principal dos trabalhadores e ela foi satisfeita.

MV – Mas os trabalhadores ficaram prejudicados nas férias e nos prémios de assiduidade, para além do facto de, segundo o Código do Trabalho, a adesão à greve não pode ser considerada falta ao trabalho.

JAO – Essas já são questões do foro jurídico e já foi apresentada queixa contra a Transtejo no Tribunal de Trabalho.

MV – Mas se o acordo estava por pouco e se o recuo da empresa se deveu à luta dos trabalhadores, porque não prossegui-la até à reposição integral dos direitos e regalias retirados?

JAO – Quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro. A luta já se arrastava há muito tempo e é preciso ter cuidado para que o fio não se parta.

MV – Mas se os trabalhadores, ao fim de mais de dois meses em greve ao trabalho extraordinário, decidiram, há quinze dias atrás, radicalizar a luta é porque o fio ainda aguentava.

JAO – Olhe, eu até nem gosto dessa expressão “radicalizar”. Não foi nada disso que se passou. Pressionámos mais a administração e ela chegou a acordo.

MV – Deixe-me dizer-lhe que “radicalizar” não tem nada de mal. Essa expressão significa que se pretende ir à origem, à raiz do problema ou resolvê-lo de forma eficaz e definitiva. Ora isso não aconteceu, e os trabalhadores vão ficar imenso tempo à espera que sejam os tribunais a decidir, e poderão decidir contra os trabalhadores, o que eles podiam ter resolvido se levassem a luta até ao fim.

JAO – Mas a luta foi até ao fim. E, quanto à decisão do tribunal, estamos convencidos que nos será favorável, pois já existe um acórdão do Tribunal da Relação do Porto que deu razão aos trabalhadores num caso semelhante.

Quem não ficou convencido, de que os trabalhadores saíram a ganhar, fui eu. Comparando a primeira entrevista feita a trabalhadores da empresa, e publicada no nº 1 do MV, com esta entrevista à CT saltam à vista as contradições sobre que caminho a luta deve seguir para defesa dos direitos e garantias dos trabalhadores.






2 Comentários a “As razões, segundo a CT, do cancelamento da luta na Transtejo”

  1. Luís Gomes disse:

    Tão vergonhosa como a administração da Transtejo, só a pouca vergonha inqualificável e de direita «limiana» da vossa opinião sobre a corajosa luta dos trabalhadores da Transtejo. É pena que, cada vez mais se comportem como assumida e aliada da direita, Burguesia de «Esquerda». Está ao nível, tanto da verborreia da extrema-direita, como da mentalidade reaccionária de quem nos governa. Fica na consciência de quem o faz. Adeus e até mais nunca!!! Vocês devem viver em Marte, ou melhor, deve ser sintomático do tipo de esquerda que pretendem impingir aos trabalhadores portugueses.
    Enxerguem-se e não destruam o que custou tanto aos trabalhadores conseguir. Estão a fazer o que o PS e a administração pretende: típico de extremistas, oportunistas e afins. Enfim, lamentável mas revelador do vosso verdadeiro papel na sociedade portuguesa: o novo queijo limiano português, tão solicito, pelo vistos, nas questões sindicais como o estão a ser na Câmara de Lisboa. Os portugueses têm a experiência de que quem abandona o Partido Comunista depois dele e dos trabalhadores se aproveitar, torna-se, muitas vezes, no mais reaccionário e retrógado amigo dos patrões, das administrações e das políticas de direita, procurando acima de tudo, destruir a unidade sindical e dos trabalhadores que são soberanos, nos plenários, nas tomadas colectivas de decisão das quais tem resultado uma justa e bem orientada luta como é e tem sido a dos trabalhadores da Transtejo. Vocês são uma vergonha que, sindicalmente, com esse artigo, rivaliza com o PP. Enxerguem-se, senhores! Fica mais uma vez provado a quem é que vocês fazem falta: Ao PS.

  2. mraposo disse:

    Caro Leitor:

    No meio do chorrilho de acusações que atira para cima de nós (incluindo a confusão que faz quando refere a Câmara de Lisboa) não conseguimos encontrar um milímetro de argumentação. Mas como as suas pedradas nos passam ao lado, vamos ao que importa.

    Você enaltece a luta dos trabalhadores da Transtejo. Também nós. Consideramos que ela ousou ir mais longe do que é costume nos tempos negros que correm, e por isso lhe dedicámos especial atenção.

    O que é que o choca nos textos publicados? Certamente a dúvida que levantámos sobre a justeza de desconvocar a greve quando parecia que os trabalhadores estavam à beira de conseguir uma vitória a cem por cento. Você critica-nos, veja só, por admitirmos que se podia ir mais longe e por tentarmos puxar a luta para a frente! E chama a isso “extremismo” e outros disparates.

    Deduzimos que, na sua maneira de ver, os trabalhadores não devem tentar passar de certos limites. Por exemplo, no caso da TT, os limites aceites pela Administração que, incapaz de destroçar a greve, procurou, tudo o indica, um acordo que lhe salvasse a face.
    Não acha você que os processos levantados pela Administração aos 58 trabalhadores são inteiramente injustos? Então, como pode admitir que um recuo parcial da Administração já é satisfatório? Claro que um compromisso pode ser melhor que nada – isso depende das forças de parte a parte. Mas o sinal dado semanas antes foi de que os trabalhadores estavam dispostos a não ceder; por isso apertaram a Administração com mais duas horas de greve por dia.

    Não temos dúvidas de que os trabalhadores da TT fizeram o que puderam e são soberanos nas suas decisões. Mas isso não quer dizer que não se avaliem os ganhos e as perdas de cada luta. Ninguém avança embebedando-se com êxitos ilusórios. Veja a ofensiva que, depois do código Bagão, está aí a desabar com a flexi-segurança e diga lá se não temos de nos preparar para embates mais duros…

    A sua recusa em avaliar a luta da TT de forma crítica e sem clubismos não ajuda os trabalhadores. Porque não tira nenhumas lições. E porque parece querer condenar à fogueira quem se atreve a exortar os trabalhadores a irem mais longe. Isso é que encanta o PS, Sócrates e todo o patronato.

    Saudações,
    A Redacção

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