Abril-Maio

As lições de 74-75 e a crise actual

Pedro Goulart - Segunda-feira, 20 Abril, 2009

25abril1_72dpi.jpgA maior parte dos que levaram a cabo o golpe militar do 25 de Abril de 1974 pretendiam apenas estabelecer uma democracia formal e acabar com a guerra colonial. Mas, derrubado o regime salazarento, os trabalhadores e a gente de esquerda deste país deram uma lição que hoje devia permanecer bem presente. Não ficaram como abúlicos observadores ou meros analistas dos acontecimentos. Fizeram história pelas próprias mãos.
Os trabalhadores e o povo vieram para a rua, correram com capitalistas e latifundiários, ocuparam fábricas, terras e casas. Geriram, eles próprios, empresas, cooperativas e unidades colectivas de produção. Ganharam liberdade, experiência, auto-confiança, aumento de salários e salário mínimo. Assumiram parte significativa do poder económico e político.

Mais tarde, sobretudo a partir do 25 de Novembro de 1975, os capitalistas e os seus homens de mão (além da direita tradicional, é de relembrar o nefasto papel desempenhado pelo PS) conseguiram inverter pela força armada o sentido dos acontecimentos, reassumindo o comando político e económico do país. Já devíamos ter aprendido – a burguesia tem uma experiência de séculos em reerguer-se, mesmo depois de pesadas derrotas. Assim, apesar da luta de trabalhadores e da gente de esquerda, conseguiu restaurar plenamente no país a sua ordem opressiva e exploradora.

Actualmente, com o agravamento da crise capitalista em todo o mundo, a burguesia não hesitará em recorrer a quaisquer meios, incluindo os violentos, para relançar o processo de acumulação. Em Portugal, já com um enorme exército operário de reserva (são mais de 600 mil os desempregados efectivos), os capitalistas e o governo de José Sócrates, falam em “reestruturar” o sistema. Visam, na verdade, prosseguir a exploração em condições ainda mais desfavoráveis para os trabalhadores. Procurarão tornar o trabalho ainda mais precário, diminuir os salários, limitar os direitos sindicais e de reivindicação, com um só fito: aumentar a taxa de mais-valia extorquida ao trabalho. O capitalismo “reestrutura-se” para explorar mais eficazmente.

Os exemplos de 1974 e 1975 deviam servir-nos hoje de lição decisiva. O futuro depende daquilo que hoje fizermos, da nossa luta ou do nosso comodismo. Deter ou não a ofensiva que o capital desencadeia para fazer frente à crise depende da luta que se travar entre as classes sociais envolvidas. Tudo decorrerá, como se viu há 35 anos, da disposição das classes trabalhadoras em defenderem os seus interesses próprios. Foi isso que modificou então a face do país.

Hoje, apesar da situação desfavorável que atravessamos, o mesmo se põe. Os trabalhadores só têm uma via de resposta: as acções de rua, a luta determinada, a disposição a não abdicar de direitos, a organização a partir da base nos locais de trabalho e de estudo, a coordenação das lutas por todo o país (reforçando as estruturas sindicais e outras existentes e criando as que se mostrem necessárias para o efeito). São estas as condições para responder à crise económica e social que está desencadeada.






5 Comentários a “As lições de 74-75 e a crise actual”

  1. Manuel Baptista disse:

    Aparentemente, estamos totalmente de acordo.
    Tenho feito apologia disso usando todos os meios possíveis!
    Mas há uma coisa que me parece importante; existe uma «casta ou classe coordenadora» que se intitula de «esquerda» para levar a cabo melhor a sua parasitagem dos ingénuos.
    Urge desmascará-la; os que se mascaram de revolucionários, mas que só sabem travar o ímpeto dos trabalhadores.
    Sem isso, não haverá a clarificação na esquerda, momento necessário, para se dar passos em frente.

  2. António da Fonseca disse:

    Essa ideia da “casta ou classe coordenadora” é bem ao jeito do Vital Moreira que diz que só vão às manifestações trabalhadores privilegiados a que ele chama de “aristocracia operária”. Essas manias dos traidores dentro dos sindicatos e blá blá blá é um discurso impotente, afirmando-se moralmente super-revolucionário alinha com o discursos e objectivos das classes dominantes e dos Vitais deste mundo. Não se deixem ir pelo discurso anti-sindicalista, lutem lá dentro, mobilizem, não minem. Dá mais trabalho mas melhores resultados

  3. António Alvão disse:

    Caro Pedro – se me permites comentar o teu texto, para aprofundar a análise das lições de 74-75, na minha opinião digo o seguinte:
    Com a queda do regime fascista pelo golpe militar, abriu-se o processo revolucionário: a esquerda que vinha da clandestinidade e a esquerda que nasceu a seguir ao golpe, mais não fizeram que andar em manifestações, concentrações, apoiar candidatos de esquerda às eleições presidenciais e concorrer às legislativas. Tudo dentro da legalidade democrática (salvo algumas excepções). Portanto, a esquerda que não revolucionou e a direita que não desarmou – foi fácil aos coveiros enterrar o 25 de Abril!
    As ocupações de fábricas, terras e casas deram-se porque os capitalistas deram o fora, pensavam que vinha uma revolução a sério, quando não passou de um festival revolucionário!
    Com o poder político e militar de esquerda nas mãos de Vasco Gonçalves e de Otelo – as organizações ditas revolucionárias estiveram à espera de quê? À espera que a sociedade socialista caísse do céu ou nas urnas de voto! Oportunidade como aquela, o povo português não terá mais!
    Não, Pedro. A via da resposta dos trabalhadores não é essa em primeiro lugar que tu apontas – mas sim a elevação do nível cultural e intelectual do proletariado. Porque há duas revoluções a fazer: a primeira, no interior das cabeças e a segunda, na rua, é da primeira que a segunda depende. Caso contrário, a classe trabalhadora terá que estar sempre dependente da chamada vanguarda ou classe dirigente política, profissional, burocrata e contra-revolucionária! Depois, já sabemos o que acontece: um comunismo que não comuniza e um socialismo que não socializa. De que serve aos povos este perfil ideológico que, uma vez no poder deixam de ser aquilo que diziam ser antes da tomada do poder? O mal está onde sempre esteve – na guloseima pelo poder. Não há poderes revolucionários. A ruptura dos anti-autoritários da 1ª Internacional, a história deu-lhes carradas de razões. Não há nada mais reaccionário que impor aos outros pela violência a sua ideologia, o seu poder, a sua religião, o seu deus, etc. E neste sentido, hoje a caminhada humana é mais lenta do que dos nossos ancestrais do neolítico – fizeram a revolução do neolítico em plena liberdade, sem partido, sem Estado e sem classes. Toda a sociedade que não socialize é sempre uma sociedade a prazo.
    Um abraço.

  4. Pedro Goulart disse:

    Caro António

    Em relação ao teu comentário, há particularmente duas coisas com as quais quero sublinhar o meu desacordo:
    – A redução (errada) que fazes das lutas, da organização autónoma e das conquistas dos trabalhadores no rico período de 74/75 à fuga dos capitalistas e à candidatura de Otelo (independentemente da importância desta ou das ilusões que as campanhas eleitorais sempre geram).
    – A necessidade da prévia transformação das mentalidades (que afirmas) – a construção de um homem novo (puro?) – antes da intervenção nas lutas. Essa tua posição acaba por traduzir-se, na prática, (que ironia!) naquela de alguns “marxistas-leninistas”, que reservam a sua intervenção nas lutas para depois da construção do “partido revolucionário”.
    Eu acho que uma verdadeira transformação das mentalidades só se pode operar numa relação dialéctica entre o estudo e a prática política. Privilegio a luta e a organização autónomas das classes trabalhadoras, mas acho que a intervenção nas diversas lutas deve contar com a nossa participação, apesar das dificuldades, desde que sirva a defesa dos direitos e a emancipação dos explorados.
    Um abraço
    Pedro Goulart

  5. António Alvão disse:

    Olá Pedro – sim, faço redução das lutas (penso que não é errada), porque queria mais. Havia motivo e razão moral para se querer mais, porque era um processo revolucionário que estava em curso.
    Não dei conta da organização autónoma dos trabalhadores, excepto alguns ex-luares em algumas cooperativas e comunas que fundaram.
    Foi de facto muito bonito o período 74/75, vivemo-lo com muita alegria! Mas esta alegria terminou no 25 de Novembro e, a partir daí, os trabalhadores não deram mais nenhuma lição, porquê? Na minha opinião as chamadas “conquistas”, devem-se mais a Vasco Gonçalves do que aos trabalhadores? Quando ele deixou de ser o Primeiro Ministro, as conquistas fizeram stop? Em termos marxistas leninistas, a organização autónoma dos trabalhadores tem sempre um poder sobranceiro central: o PS diz que a U.G.T. é autónoma e a C.G.T. não. O PC inverte a linguagem. Já ninguém engana ninguém…
    Eu sei que não é esta autonomia dos trabalhadores que defendes. Pedro, não falei em nenhum homem novo, nem puro. Para finalizar deixo um apelo: revolucionários precisam-se para sepultar o moribundo capitalismo.
    Um abraço com muita saúde.

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