Quem faz um cesto faz um cento

Alcochete, resorts e outlets

Ismael Pires - Sábado, 18 Abril, 2009

freeport72dpi.jpgA frente ribeirinha de Alcochete, entre a vila e a Ponte Vasco da Gama, foi usada desde os anos cinquenta para a seca do bacalhau. Ainda lá se encontram as velhas instalações, agora abandonadas, perdidas numa vasta zona alagadiça onde nidificam e vivem milhares de aves. Devido a ser uma área de alta sensibilidade ambiental encontra-se incluída na Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo e integra a Rede Natura. A legislação proíbe nesta zona todas as actividades que alterem as características actuais.

Tornear a lei
Mas a legislação é uma coisa que se contorna com facilidade, jeitinho e alguma habilidade desde que se conte com os amigos certos. Pode-se por exemplo encolher uma zona de reserva ecológica ou redesenhá-la à medida das necessidades dos patos bravos do betão armado. Não foi a primeira vez nem há-de ser a última. Deve ter sido isto que pensou o empresário Manuel Pedro, agora a contas com a justiça no Caso Freeport, quando se lembrou de construir hotéis de luxo nas zonas ocupadas pelas antigas secas do bacalhau de Alcochete.

A zona esteve quase a ser expropriada pelo Estado para se fazer a sua “renaturalização” como compensação pelo impacto ambiental da Ponte Vasco da Gama. Mas Manuel Pedro tinha outros projectos para o local. Vai daí, moveu influências junto dos ministérios para que a expropriação não afectasse estes terrenos. E claro conseguiu. Apenas as salinas foram expropriadas mantendo-se os restantes terrenos na posse de privados. Uma dessas secas, a do Pescal, pertence mesmo a uma empresa sua, denominada Sociedade Europeia de Aquacultura.

Os amigos certos
Com mais um jeitinho, a Câmara também ajudou e classificou no Plano Director Municipal (PDM) a área como destinada a fins de «recreio e lazer». Sim uma zona tão bonita na frente ribeirinha do Tejo merece ser requalificada com circuitos pedonais, ciclovias e quem sabe até com a recuperação das secas do bacalhau para eco-museus. Mas não era nisto que Manuel Pedro pensava. Para ele, recreio e lazer significam investimentos e cifrões, ou seja, empreendimentos hoteleiros de luxo.

No entanto, torcer a lei e convencer tantos departamentos e técnicos do ambiente que hotéis e galerias comerciais não vão perturbar nem o ecossistema, nem as áreas de nidificação das aves do estuário pode apresentar alguma dificuldade. Nada que não se ultrapasse indo buscar as pessoas certas. O empresário procurou assim a ajuda de um antigo presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN).

Carlos Guerra, que tinha estado à frente do Instituto até 2002 e tinha ajudado a viabilizar o Freeport também haveria de dar uma mãozinha aqui. Logo que abandonou o ICN Carlos Guerra foi contratado por Manuel Pedro. A sua missão foi elaborar os pareceres que viabilizam a construção de um hotel de cinco estrelas, mais um hotel de apartamentos e um aldeamento turístico no local onde existiram as antigas secas do bacalhau.

O polvo
São apenas 119 apartamentos no Pescal, mais um aparthotel com 81 apartamentos e um aldeamento com 56 apartamentos em banda e 25 moradias além de uma galeria comercial. A capacidade de instalação fica para cima do milhar de camas em edifícios de dois e três pisos. Enfim, nada que perturbe por ai além o ecossistema. Os projectos já têm pareceres favoráveis de todas as entidades consultadas.

Neste polvo também entra a empresa americana Sulway que participou nas trocas e baldrocas dos terrenos que entretanto foram passando de mão e ainda o arquitecto Capinha Lopes o mesmo que foi responsável pelo Freeport. E pronto já está tudo tratadinho. Afinal os resorts até ficam próximo do outlet, a máfia é a mesma e quem faz um cesto faz um cento.






Um Comentário a “Alcochete, resorts e outlets

  1. Ines disse:

    Também podemos apreciar a bela quantidade em dioxinas provenientes das fogueiras que tanto belo neandertal (porque esses ainda não foram embora…) ainda faz dentro de casa, contando sempre com as chaminés para garantir que polui as ruas o suficiente. Isso sim é uma bela marca de cultura bastante chamativa para o turismo que só será bem vindo se não tiver asma (claro!) Os restantes terão sempre que “gramar” com a fumaça quer gostem ou não, quer tenham que passar umas quantas noites no hospital ou mudar de casa, ou seja, de terra. E assim se passa tão bem em terras de Alcochete.

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