“Cabe aos EUA mudar de política”

Representante da Frente Nacional da Resistência Iraquiana visitou Portugal a convite do Tribunal-Iraque

Manuel Raposo - Domingo, 12 Abril, 2009

p1000500reduz.jpgA convite do Tribunal-Iraque, e com o apoio da CGTP e do CPPC, esteve em Portugal entre 5 e 8 de Abril o dirigente e porta-voz da Frente Nacional da resistência iraquiana dr. Abu Mohamad.
Nos contactos que teve com diversas organizações, deu conta da situação actual no Iraque, relatou as acções da resistência contra a ocupação e expôs o programa político defendido pela Frente Nacional. No dia 5, Abu Mohamad foi recebido pela comissão organizadora do Tribunal-Iraque, realizando depois um encontro com activistas e organizações empenhados na luta contra a ocupação do Iraque, em que o Mudar de Vida esteve presente.
Nos dias seguintes, Abu Mohamad foi recebido pela CGTP-IN, pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação, pelo Bloco de Esquerda, pelo Partido Ecologista Os Verdes, pela direcção da Associação 25 de Abril, pelo PCP e pelo grupo parlamentar do PS.
Deu ainda entrevistas ao Expresso e ao Diário de Notícias.
Apresentamos as principais passagens da exposição feita por Abu Mohamad sobre a situação no Iraque e sobre a política da Frente Nacional..

Uma ocupação não só militar
A ocupação do Iraque pelas forças dos EUA não é só militar. Sabemos desde início que se trata de um projecto muito mais vasto que tem a ver com todo o Médio Oriente e mesmo com o Mundo. Por isso as forças ocupantes se preocuparam em destruir o Estado e em destroçar as estruturas sociais iraquianas. Tal projecto procurou implantar instituições, modos de vida, práticas políticas trazidas pelos ocupantes norte-americanos. O governo e o parlamento iraquianos impostos pelos EUA, as polícias e as forças armadas iraquianas treinadas e mantidas pelos EUA são instrumentos ao serviço daquele projecto de dominação. O mesmo se pode dizer das leis, dos tratados, dos acordos impostos pelos ocupantes – são meios destinados a garantir os interesses dos EUA no Iraque.

Como se sabe, o primeiro objectivo dos EUA foi controlar o petróleo iraquiano. No sistema económico que está montado no mundo de hoje, o petróleo desempenha um papel crucial. Quem controla o petróleo controla o abastecimento da energia em todo o mundo. Qualquer bocado de pão sobre a mesa depende hoje, de uma forma ou de outra, do petróleo. Ora o Iraque tem as segundas, possivelmente até as primeiras reservas de petróleo do planeta.

A razão de ser da resistência
A resistência iraquiana nasceu para combater a ocupação e, portanto, faz frente a este projecto de dominação global por parte do imperialismo norte-americano. O sucesso da resistência foi conseguir colocar fortes entraves aos planos dos EUA. Os EUA estão presentemente paralisados no Iraque e sem soluções para o problema que criaram. Bastam-me os números reconhecidos pelo Pentágono para ilustrar a situação: 4 500 soldados norte-americanos mortos, 40 800 feridos, 3 000 suicídios, milhares de outros afectados com problemas mentais. Os nossos números, isto é, da resistência, são bastante mais elevados, e é fácil compreender porquê: o Pentágono não contabiliza as baixas dos seguranças privados, dos mercenários, das milícias armadas pelos EUA, que efectivamente fazem parte das forças ocupantes e que por isso são também alvo das acções militares da resistência. Esta tropa irregular, digamos, atinge neste momento um número superior a 200 mil efectivos, mais que os 140 mil marines que constituem a tropa regular dos EUA no Iraque.

Pode dizer-se que a crise económica que hoje afecta o mundo vem em parte da guerra no Iraque. O gasto com as forças dos EUA enviadas para o Iraque mede-se por milhões de dólares por cada hora que passa. Há neste facto uma razão suplementar para pôr fim à agressão: todo o mundo está a ser afectado, também por isto, com a guerra que os EUA conduzem no Iraque há mais de seis anos.

p1000474reduz.jpgOs resultados da “democratização”
A resistência representa e tem o apoio efectivo da grande maioria da população iraquiana. Basta atentar nos números da desgraça que atinge os iraquianos para se perceber que ninguém pode estar do lado da ocupação. Mais: para se entender que todos os iraquianos vêem na ocupação a origem desta desgraça. O que se passa é uma tentativa de colonização do Iraque pelos EUA com efeitos devastadores, como certamente conhecem: um milhão e meio de mortos, 5 milhões de refugiados e deslocados, mais de 5 mil quadros e intelectuais assassinados de maneira programada, 5 milhões de órfãos e 3 milhões de viúvas, centenas de milhares de presos dos quais só uma ínfima parte tem visitas.
Não há serviços públicos. Não há medicamentos nem meios de saúde para tratar dos doentes. Por causa das horríveis condições sanitárias (falta de água potável e de tratamento de esgotos) as doenças contagiosas que antes tinham sido erradicadas voltaram a crescer imenso: por exemplo, há 10 mil casos de cólera por ano. A contaminação causada pelo urânio multiplicou por 10 os casos de cancro.
A economia foi completamente desfeita. Não existe agricultura, todos os bens alimentares são importados de países vizinhos. As fábricas foram metodicamente desmanteladas e a maquinaria transportada não se sabe para onde. O desemprego atinge 52%. O petróleo é roubado em bruto sem qualquer controlo.
É isto a ocupação, é isto o processo político posto em prática no Iraque a que os norte-americanos chamam “democratização”. E é contra isto que a resistência se bate.

O programa político da Frente Nacional
A Frente Nacional Iraquiana, que eu represento, é a face política da Resistência Nacional Iraquiana. A FNI/RNI é uma formação que reúne uma trintena de organizações militares, organizações políticas contrárias à ocupação e ainda organizações islâmicas moderadas. Representamos uns 90% das forças da resistência à ocupação.
Existem também outras forças que combatem militarmente os ocupantes, agrupadas na Frente Islâmica, com a qual temos contactos mas não partilhamos do mesmo programa político. O ponto comum é o combate à ocupação.
O programa da FNI é democrático e laico. Digamos que tem duas partes: uma que se refere à fase actual, sob ocupação; outra que diz respeito ao Iraque pós-ocupação.
Na situação presente, defendemos a retirada total e incondicional das forças ocupantes, condição primeira para a devolução da soberania ao país; o reconhecimento pelos EUA dos direitos do povo iraquiano; a libertação de todos os presos políticos; a anulação das leis e tratados impostos pelos ocupantes; o reconhecimento do direito do Estado e do povo iraquianos a serem indemnizados.
Uma vez liberto o país da ocupação, defendemos um período transitório com um governo provisório que seja encarregado de preparar as condições de um novo regime. Nesse período deverá ser redigida uma nova constituição e depois realizadas eleições livres, com a participação e todas as forças políticas, para referendar a constituição e escolher um novo parlamento e um novo governo.

Barack Obama: promessas e realidades
O presidente Barack Obama anunciou recentemente o propósito de devolver o Iraque “ao seu povo”. Durante a campanha eleitoral, e já depois, fez também promessas de retirar parte das tropas dos EUA e de respeitar a lei internacional. Muito bem. Mas há umas quantas omissões nas declarações de Obama a que prestamos muita atenção.
Uma delas é saber quem considera Obama os representantes do povo iraquiano. Se pensa que é o governo instalado por Bush em Bagdad então está muito enganado, porque esses representam os interesses dos EUA, não dos iraquianos.
Importa também saber como pensam os EUA respeitar a lei internacional: à luz da Carta das Nações Unidas e do direito internacional a invasão do Iraque foi e permanece ilegal. Legítima, à luz dos mesmos preceitos, é a resistência iraquiana por se opor a uma ocupação ilegítima. Ou seja, respeitar o direito internacional significa reconhecer a resistência e estabelecer com ela, e com mais ninguém, negociações para normalizar a situação no Iraque.
Obama propõe-se reduzir as tropas estacionadas no Iraque dos actuais 140 mil efectivos para 35 ou 50 mil, até final de 2011. Mas aqui levantam-se três questões: qual é o destino destes 35 ou 50 mil ? E o que pensa fazer com os mais de 200 mil mercenários que existem actualmente no Iraque, e sobre os quais não disse uma palavra? E o que vai ser feito das 50 bases militares norte-americanas instaladas em território iraquiano?

Cabe aos EUA mudar de política
Não comparamos Obama com Bush. Mas sabemos que o presidente dos EUA representa os interesses do seu país, e foram esses interesses que em determinado momento levaram à invasão do Iraque. As questões políticas que levantamos têm de ser respondidas com clareza. Enquanto isso não suceder não há razões para abrandar a resistência e prosseguiremos com ela até atingirmos os nossos objectivos – que não são mais do que libertar o Iraque. Cabe aos EUA alterar seu comportamento: se reconhecerem os direitos do povo iraquiano, então estamos dispostos a entabular o diálogo que for necessário para discutir os termos da retirada norte-americana com o objectivo de devolver a soberania ao Iraque e fazer dele um país livre e democrático.

Precisamos do vosso apoio
Com o fim da ocupação teremos condições para reconstruir o Iraque com as nossas próprias forças, tanto nos aspectos materiais como sociais. Esta é a condição de partida. A ajuda de que precisamos da parte dos amigos portugueses, e de todos os outros países, consiste sobretudo no apoio político à nossa causa de libertação. O meu apelo vai no sentido de fazerem pressão sobre os vossos governos para que não apoiem a política até agora seguida pelos EUA e para que convençam os responsáveis norte-americanos de que têm de mudar de rumo e abordar as forças da resistência iraquiana.






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