A revolução por dentro das palavras

José Mário Branco - Sábado, 6 Outubro, 2007

Já nos aconteceu a todos partilharmos as mesmas ideias com amigos nossos e, no entanto, não haver entendimento entre nós acerca das palavras que usamos para definir e designar essas ideias. Isto deve preocupar-nos, porque “a falar é que a gente se entende”.

Em tempos, um amigo meu, que era revolucionário e comunista, foi destacado para desenvolver a organizar a luta política numa região (Trás-os-Montes) onde, pensava-se, as pessoas estavam muito dominadas pelas ideias reaccionárias dos padres e dos caciques ex-fascistas. Ele foi para a região e, numa tasca de aldeia, pôs-se à conversa com trabalhadores do campo que ali estavam a beber e a conviver. Evitou usar palavras como socialismo, comunismo ou revolução que, pensava ele, podiam despertar a desconfiança ou a rejeição. Foi conversando sobre a vida “em geral” e lentamente, à medida que iam estando de acordo sobre as ideias simples (da democracia, da liberdade, da justiça social para acabar com diferenças entre pobres e ricos), ele ia explicando “os nomes dos bois”: isto é o socialismo, aquilo é o comunismo, aqueloutro é a revolução, etc.

No fim dessa conversa “cuidadosa”, um velhote virou-se para ele, e disse: “Essas coisas que nos explica são importantes; eu concordo com elas, concordo que a nossa sociedade devia ser assim… Mas há uma coisa que não entendo… Porque é que, a coisas tão bonitas, você dá nomes tão feios?” Para ele, os “nomes feios” eram as palavras “socialismo”, “comunismo”, “revolução”.

O que os separava não eram as ideias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os “nomes feios dados a coisas bonitas”.

Os activistas têm de tentar resolver este problema de comunicação. Mas, infelizmente, explicar as coisas verbalmente não é suficiente. As palavras acima referidas, que para mim correspondem ao interesse profundo das classes proletárias, foram (e continuam a ser) muito deturpadas de duas maneiras: primeiro, pela propaganda dos senhores do sistema, que não querem que haja essas mudanças na sociedade e, segundo, pelos erros e os crimes que foram sendo cometidos em nome dessas ideias.

A luta contra a propaganda do sistema é inevitável, faz parte da luta de classes, e só se pode combater com um contínuo trabalho de esclarecimento e educação política: libertar o espírito crítico das pessoas encontrando palavras comuns para as ideias comuns. A segunda dificuldade depende, no essencial, de sermos capazes de provar aos outros, na prática, que os nossos actos e os nossos métodos de actuação estão de acordo com os grandes princípios que defendemos.

No fundo, os activistas da revolução não conseguem resultados palpáveis (para transformar a sociedade) sem irem fazendo, no seu íntimo pessoal, aquela revolução a que aspiram para os outros.  Porque as palavras não são mais do que uma representação do mundo, material ou subjectivo. A acção (o que fazemos, como o fazemos) é que pode realmente transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender (tentar compreender) a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso, sendo essencial para comunicar com os outros, é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

A luta pela democracia tem de ser uma escola de democracia; a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo; e a luta pela transformação revolucionária da sociedade tem de ser, em si mesma, uma espécie de antecipação dessa sociedade nova por que lutamos.

Enquanto houver, em muitos de nós, contradições visíveis entre estes três aspectos – acção, pensamento e discurso – as pessoas, com toda a razão, desconfiarão das nossas palavras e não se juntarão a nós para mudar a vida.




19 Comentários a “A revolução por dentro das palavras”

  1. M Chico disse:

    Este artigo desperta-me algumas reflexões.
    Na anedota do velhote transmontano, do qual não sabemos nada, “O que os separava não eram as ideias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os “nomes feios dados a coisas bonitas”” o que os separava não era só isto, era também a consciência política e esta se calhar mais profundamente que os nomes feios ou que as coisas bonitas.
    Por outro lado, o que me espanta, ou melhor me escandaliza, é a linha política do tal partido que enviou um seu activista para Trás-os-Montes desviando-o mais que provavelmente dos locais onde os proletários (operários) estão, dando assim mais importância ao trabalho “político” no seio das massas populares com pouca tradição de luta politica do que no seio do proletariado que, se me não engano, estava em plena luta e influenciado e dirigido pelos reformistas que tanto queremos vencer.
    Para além disso o que significa “a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo”. Em concreto e objectivamente?
    Parece-me que o artigo trata muito de questões subjectivas e morais,
    política é outra coisa
    A revolução a que eu aspiro, para os outros e para mim diz sobretudo respeito a questões que estão fora do meu íntimo pessoal e mais nas relações de exploração, de opressão, de repressão, de poder de classe, de acesso às coisas boas da vida, à cultura, à arte, ao lazer e ao prazer, à saúde … no fundo à qualidade de vida e à possibilidade real de intervir na condução da sociedade. As questões morais, penso eu, vêm a reboque.

  2. Emilia disse:

    Muito bem escrito! Joao Calais Pedro

  3. Maria Joao Calais Pedro disse:

    Agora e que vai o meu comentario. Os anteriores nao contam. O ultimo paragrafo resume bem um dos grandes problemas actuais.

  4. Ronan (Brasil) disse:

    Adorei o texto. Acho mesmo que algumas palavras deveriam ser abandonadas, se bem que, com o tempo, elas vão adquirindo novos sentidos. Creio ser primordialmente importante capturar as palavras do sistema, as que são aceitas socialmente, e lhes atribuir novos significados.

  5. António Alvão disse:

    Quanto a esta temática que Zé Mário apresenta, e muito bem, oferece-me dizer o seguinte:
    Estas ideologias, sistemas políticos ou correntes de pensamento, devem de ser bem estudadas, para não serem deturpadas. Mas não só a democracia, socialismo e comunismo, há mais: anarquismo (ou isto não faz parte da história das ideias políticas e da história do movimento operário?), comunalismo, municipalismo, autogestão, sindicalismo revolucionário ou anarco-sindicalismo, sindicalismo situacionismo-correia de transmissão dos partidos situacionistas e parlamentares, etc.
    De alguns sistemas políticos já temos escolaridade histórica e presente: a Comuna de Paris, movimento anti-autoritário, que vem da facção não marxista da 1ª Internacional. Foi a primeira revolução proletária e social, feita de fome e frio; foi o socialismo sem Estado. O operariado não estava sozinho; pois, no seu seio existia um grande leque de intelectuais que desceram ao terreno, proletarizaram-se ideologicamente, recusaram ser dirigentes da classe operária, cada um não era mais que um membro da comuna, todos eram responsáveis, todos assumiam funções, porque todos eram válidos. Não consta que tenha havido na comuna mentecaptos. Os intelectuais, tal como os operários, bateram-se pelo projecto da comuna, com armas na mão até à morte.
    A Comuna não era um projecto isolado, ela tinha como objectivo a federação das comunas, não só em França, como por toda a Europa e, mais tarde, a todo o Universo. Assim se emanciparia o género humano universalmente.
    O historiador francês, Reni Gossez, sobre a Comuna de Paris, diz a certa altura: – “terminou a comuna; A ordem foi restabelecida. Mas, na realidade, uma extraordinária experiência – de inteligência e de calor humano – fora mutilada de modo impiedoso”.
    Outra experiência revolucionária, a Leste, embora tenha começado com o mesmo objectivo que a Comuna de Paris ali, os «intelectuais» baseados em teses marxistas, não desceram ao terreno, eles subiram ao palco das operações e impuseram-se ao proletariado como seus dirigentes. Os mentecaptos, submissos e ingénios aceitaram; os mais conscientes e insubmissos recusaram e bateram-se, tal como os comunards da Comuna de Paris, pela revolução proletária de armas na mão, até à morte!
    Este sistema, anti-marxista, estadista, militarista, autoritário, totalitário, contra revolucionário. Massacraram e eliminaram fisicamente todas as outras ideologias, que não fossem bolchevistas! Este socialismo ou comunismo totalitário, que paradoxalmente para muitos simuladores de intelectuais, era a pátria do socialismo; o ditador Staline, para os seus simpatizantes internacionais, era o pai dos povos. E quando não tinham já mais ninguém para matar das outras ideologias, começaram com pequenas purgas, passaram pelo purgatório até à derrocada final!
    Meus caros amigos, aqui é que está a grande questão, para reflexão.
    _ Os povos do Bloco de Leste, não morreram com armas na mão, aquando da derrocada, em defesa do “socialismo”, como fizeram os intelectuais e operários da Comuna de Paris _ eles, morreram alguns, foi para se verem livres de tal sistma! Onde é que esteve o mal? Acho que estamos esclarecidos sobre este assunto?
    Pois, estou de acordo, como Zé Mário, que estas questões devem ser bem analisadas, bem estudadas; também não devemos escamotear a reflexão e posição que Marx tomou depois da Comuna de Paris, no que respeita ao Estado e à autogestão. Aliás, devemos estudar esta sua alteração, em minha opinião.
    Acho que devemos lutar com todas as nossas forças pelo socialismo e comunismo (não pelo que derrocou a Leste e que hoje ainda existe na Coreia do Norte e na China – casado com o capitalimo selvagem – que deve ter feito Marx dar muitas voltas no túmulo), mas sim por aquele que liberta, emencipa, que põe todos a trabalhar para um monte e comer todos do mesmo monte. Só assim é que se pode chamar comunismo – este termo vem do comum, e comum é tudo ser de todo e nada ser de ninguém. Só assim é que a ignorância, inconsciência, autoritarismo e insubmissão poderão ser banidas da humanidade.
    Discutamos até à medula e sem tabus ideológicos a melhor forma de nos livrar-mos do capitalismo, tudo o que eles possuem, nos roubaram, com a cobertura do próprio estado.
    P.S. Esta temática das ideologias que eu acabo de abordar e que Zé Mário fala de uma escola para cada coisa – na internet está tudo ou quase tudo muito bem explicadinho, é só procurar.

    António Alvão

  6. J C Sendim disse:

    Nem tudo está na internet, muito menos o essencial. A escola de que José Mário Branco fala não se procura na internet e é curioso que tenham interpretado esse termo de forma tão literal e errada, pois é uma exemplificação prática do mesmo artigo. José Mário Branco fala na escola como modo prático, quotidiano e contínuo, de ensino, na escola natural, não na escola mera transmissora de conhecimentos. Fala na escola que ele tem sido para muitos de nós que mais do que comprar o ouvir as suas músicas vão aos seus concertos ouvi-lo ser aquilo que prega. Trata-se de não ser como Frei Tomás, trata-se de ser realmente aquilo que se diz ser e deste modo explicar o que se quer.
    E já agora, para complementar, um exemplo de escola de democracia é a forma como se aceitam estes comentários, acabam-se de escrevê-los e ei-los publicados. Experimentem o mesmo no jornal Público, por exemplo…

  7. António Alvão disse:

    Meu Caro J C Sendim:

    O público não é o meu jornal porque não sou intelectual. Estou “ligado” ao projecto Mudar de Vida, por alguma coisa será.
    Eu não chamaria ao Mudar de Vida escola de democracia, mas sim escola de liberdade, por contribuir para a liberdade dos outros se exprimir.
    A liberdade é um valor muito acima da democracia. A democracia é muito discutível! Temos, por exemplo, esta que estamos a viver do Partido Socialista, onde as liberdades são limitadas, onde os trabalhadores e doentes perdem direitos todos os dias.
    Parece-me que há pessoas que ficam incomodadas quando se narram factos históricos do “socialismo”.
    Quem não conhece o passado não tem futuro. É com os erros e os sucessos das lutas pelo “socialismo” e das suas variantes do passado, que devemos transportar para a tal escola do quotidiano, para não repetirmos os erros dos outros, que custaram caro à humanidade. Um professor que “dê” aos alunos literatura, filosofia, história, etc, tem que recorrer aos mortos. O professor de história terá que recuar milhões de anos.
    Nós só temos passado, o presente é um caos e o futuro é incerto.
    De acordo com Zé Mário _ o pensamento e a acção _ eu acrescentaria: o código ético, devem estar dentro de cada um de nós, para o enriquecimento da nossa personalidade, e para a relação com os outros e com a sociedade, no sentido da grande caminhada em frente que, o Homem Sapiens Sapiens ainda está traçando.

    P.S.: Amigo J C Sendim, pelo facto de o Mudar de Vida publicar alguns dos meus textos no site, não limita de forma alguma as minhas divergências ideológicas que possam existir em relação ao colectivo da redacção. Quero continuar a ser livre esteja com quem estiver; a liberdade é a minha pátria e o meu bairro é o planeta Terra.

  8. A.R.A disse:

    Caro Antonio Galvao, embora concorde em pleno em tudo o que partilhou, acredito profundamente que ate ao J.M.Branco escapou um facto preponderante para uma iniciacao da tematica que no presente discutimos………. a liberdade e uma utopia falaciosa! Se entendermos tal, de um modo racional, entao concluiremos que nao sao as palavras em si que afligem ou reconfortam mas sim a atitude que delas se espera.
    Assim sendo, a real pergunta e se no presente o Mundo individualista esta preparado para um Marxismo renovado que contudo limitara o individualismo em prol do bem comum?
    Infelizmente, eu creio que ainda nao. Embora acredite piamente em Trostky, Allende, Cunhal, Neruda……….e no infidavel rol de pensadores Marxistas creio que uma Revolucao pratica e objectiva tera de comecar pelas fundacoes, pelos alicerces, pelas bases, qual humidade corrosiva que desgasta a tinta plastica neoliberal e desossa o betao armado do capitalismo selvagem. A Revolucao ja nao se fara de arma na mao, a Revolucao Marxista sera apenas um termo para um estadio evolucionario da Humanidade que surgira espontaneamente mas firme.

    PS- Peco desculpa pela falta de acentuacao, mas o meu teclado nao esta em grande forma!

    Accao Revolucionaria Amigavel

  9. Rhigas disse:

    Here is intresting people… Lets talk!

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  10. Inez Almeida disse:

    Eu diria diante de todas essas considerações sobre esse assunto, que o importante mesmo é sair da acomodação, do isolamento e ousar olhar em torno. Perceber que bem do seu lado alguma coisa está acontecendo e precisa de sua participação. O fazer local dentro do seu mundo, aquilo que está ao seu alcance é a chamada e a oportunidade de promover transformação. A comunicação com as pessoas do senso comum pode ser uma das atividades bem próxima de nós. Falar e se fazer entender partindo da realidade, respeito e consideração das capacidades individuais. Nesse contexto é importante estar atento para os potenciais que todos possuem de compreensão e de saberes.

  11. Carlos Barbosa Coelho disse:

    Muito bom! Estas reflexões lembram os artigos de Nildo Viana sobre linguagem e poder, autogestão e consciência coisificada. Indo lá no site do Movimento Autogestionário, vamos ver uma revolução da linguagem, necessidade atual na luta contra o capital: http://movaut.sementeira.net/

  12. A.R.A disse:

    Quiçá pela inspiração da mudança e da utopia da imaginação, que de tão atrofiada pela rotina actua de modo embriagante nas gentes de esquerda, sempre que surge oportunidade de se poderem exprimir em oratórias bonitas mas sem resultados práticos. A realidade é outra, sinistramente opaca quanto a uma qualquer visão mais esperançosa quanto ao futuro que se encontra sempre ao virar da esquina.
    Meu nome é A.R.A e desafio todos os que realmente estão contra este marasmo suicida, homicida, fratricida que é este mundo “ocidental” de pobreza encoberta pelo lixo capitalista de enfarda brutos a mandarmos toda esta m…. abaixo de uma vez para assim se criar de raiz uma sociedade assente noutros valores que não a do vale tudo pelo lucro. Toda a gente quer sempre mais através de um consumismo que constantemente nos aguça a cobiça – Quero lá saber se o filho do meu vizinho passa fome pois já tenho a minha consciência tranquila por comprar uns 10 postais a UNICEF para ajudar a matar a fome a crianças que nunca vi pessoalmente. Esta constante hipocrisia que nos envolve numa bolha insensível aos sentidos, que ainda nos lembram que somos humanos, é nefasta o suficiente para ponderarmos sequer uma qualquer revolução de palavras.
    Por mim chega de palavras, falta nos acções, acções para dizer basta!
    Neste mesmo momento que escrevo oiço um tema que se chama “Somebody to Love” dos Jefferson Airplane que afirma que todos nós necessitamos de alguém para amar ou seja ninguém consegue nada sozinho mas também é verdade que para mudarmos o mundo temos que começar por mudar mo nos a nós mesmos. Quanto ás palavras, leva las o vento!
    …” No fundo, os activistas da revolução não conseguem resultados palpáveis (para transformar a sociedade) sem irem fazendo, no seu íntimo pessoal, aquela revolução a que aspiram para os outros.”…
    Mais do que eruditas defesas quanto ao significado do estado socialista ou de comunismo, etc, há que viver na pele o que se defende.
    Hasta La Victoria Siempre! De punho erguido, sempre estarei no meio de uma qualquer multidão em greve, em luta, a manifestar o meu (nosso) descontentamento e nada me dá mais animo do que olhar para o lado e ver muitos muitos mil ainda a acreditar em Abril.
    Afinal, palavras para quê, basta apenas um cravo vermelho e uma data no calendário para uma enxurrada de palavras que não são ditas ganharem vida em nossas mentes …“revolução”…
    25 de Abril Sempre
    Aquele abraço
    A.R.A

  13. oM. F. disse:

    A ideologia estagna, a utopia transforma! Será que chegou a hora de começarmos a transformação? Não acredito … ” O Povo é sereno … ” e está endividado para os próximos 25 anos! Sempre ouvi dizer que: ” não há Democracia com a barriga vazia! “, então como será? Não estamos com a barriga cada vez mais vazia? Ainda não chegámos a metade de 2008 e também já ouvi um douto fazedor de opinião dizer que o pior ano vai ser 2009! Será que estarei com problemas de audição? Ai como que eu gostava de ser mosca e fazer umas incursões por S. Bento!

  14. José Mário Branco disse:

    A todos os intervenientes:
    Acho que este debate, que já vai longo, desviou insensivelmente para o que menos me interessava – com todo o respeito pela pertinência das ideias por todos expressas.
    O que eu gostava mesmo é que o texto fosse motivador de uma introspecção que ultrapassasse o discurso individual. Como se, depois de pensar no assunto, cada um de nós decidisse passar a exprimir-se por actos e não por palavras.
    É, por exemplo, o que eu decidi fazer ao empenhar-me neste projecto do jornal Mudar de Vida.
    Vejo neste jornal uma ferramenta para unir as pessoas em torno de dois pressupostos de radicalidade, simples e fundamentais: (1) a recusa do capitalismo, e da democracia burguesa e parlamentar que o corporiza no Estado; e (2) a recusa da ilusão de que o caminho para o socialismo (a socialização dos meios de produção) pode ser feito através de sucessivas reformas e de eleições, e não por um inevitável processo revolucionário dos milhões de explorados.
    Porque estamos, infelizmente, num estádio extremamente recuado do movimento social, as importantes questões que estão para além destes dois pressupostos (Estado ou não-Estado; partido de vanguarda ou não; o que é o socialismo e o comunismo; etc.) só as poderemos ir compreendendo através da acção, porque só a prática, nesta fase, nos permitirá alguma produção teórica com pés assentes na realidade.
    Mas a união de que falo acima não se pode fazer com leitores passivos. O Mudar de Vida não conseguirá ser essa ferramenta (e acabará por morrer) se os seus leitores não se forem tornando activos distribuidores do jornal e colaboradores dos seus conteúdos (notícias, comentários, denúncias, fotos, etc.).
    A conversa é interessante e mesmo imprescindível. Mas não chega.
    De contrário, é como se eu fosse para os meus concertos vender CDs… em vez de cantar e falar com as pessoas!
    Abraços a todos.

  15. Karina Meireles disse:

    Interessante
    Sempre me perguntei como comunicar-me se o outro não me compreende… não compreende a forma de um pensamento livre!
    Isso me preocupa no sentido de mudar de vida, como um coletivo pode efetivamente ser, se seus individuos temem a liberdade…
    Neste dilema resolvi entrar no sistema hehe, fazer universidade para modificar-me modificando o mundo, cursando pedagogia conheço a obra de Paulo Freire e nele pude agir… sentir a possibilidade de esperança para um futuro sem tanto temor ao pensar.

  16. António Alvão disse:

    Acho que é tempo de falarmos claro, por causa das confusões: diz Zé Mário “lutar pela democracia, escolda da democracia; lutar pelo comunismo e socialismo, escola de …” _ eu pergunto quais os modelos destas terminologias?

    Na minha opinião os explorados e oprimidos não precisam que ninguém lhes acene com esta ou aquela bandeira, deste ou daquele sistema.

    Os comunismos e os socialismos que a “vanguarda” lhes prometeram no passado, não passou da continuação da exploração e repressão! Basta!

    Os explorados e oprimidos precisam de tomar conta dos meios de produção e assegurá-los em suas mãos. Esta é que é a ideologia primordial! De resto, chamem-lhe o que quiserem. Devem também combater todo e qualquer parasitismo, venha de que lado vier, mesmo que se auto designem serem a vanguarda.

    Os sovietes criados em 1905 e em 1917, foi obra da elevada consciência de classe e ideológica das classes de camponeses, operários, soldados e marinheiros; e não da classe dirigente ou vanguarda! Obra da classe dirigente ou vanguarda foi o soviete supremo, as polícias políticas sinistras, os massacres contra a emancipação do proletariado e a derrocada de Leste em toda a linha!

    Eu sei que há uma certa esquerda com dificuldade em digerir esta falência do chamado “comunismo” de Leste (sistema este que não tinha nada a ver com o comunismo, mesmo o de Marx), porque só deveriam ter lido Marx e Lenine? Ler só Marx e Lenine fica-se muito limitado, e mais limitados ficaram, ficando orfãos ideologicamente!

    Há uma só via revolucionária: a que liberta e nunca a/s que oprime/m! Mas cada qual que escolha a que gostar mais!

    Mais diz Zé Mário que “os comentaristas se desviaram insensivelmente para o que menos interessava e que deveriam exprimir-se por actos, etc, etc.”_ não estou totalmente de acordo, pelo menos os temas foram debatidos ideologicamente. Então isto não pertence à página do debate?
    Ou temem o debate ideológico, que ainda não foi feito na esquerda portuguesa, por isso é que ela é de certa forma amorfa.

    Agora se formos para o campo da práctica também estou disposto em o discutir e pô-lo em prática, o quê e com quem?

    Eu não quero ser um leitor passivo. Há muito tempo que ando à procura de quem esteja disposto a alinhar na revolução e não encontro! Será que é desta vez?

    Recordo que o M/V de início andou a dar a volta ao país (e muito bem), em cada encontro alguém fazia recolha de contactos, onde dei também o meu, e até hoje não fui contactado para nada. O que é que vão fazer com tanto contacto? Para começarmos não é preciso muitos, é preciso é qualidade! É aqui que está o mal, na minha opinião.

    ” Não sejamos doutrinários, não compunhamos antecipadamente constituições, colocando-nos na posição de legisladores do povo. Lembremo-nos que a nossa missão é outra: não somos preceptores, mas unicamente percussores do povo (…)”

    Um abraço.

  17. Francisco d'Oliveira Raposo disse:

    Gostei quando li o artigo do Zé Mário. Esqueci-me, confesso, de acompanhar a polémica. Caí nela agora e isso deu-me a possibilidade de entrar nela já com algum trabalho efectuado pelos companheiros que deram os seus contributos.
    Alguns deles concordo, outros nem tanto – naturalmente.
    Creio que as ideias são testadas na prática, avaliadas pela sua capacidade de prever situações, descrever relações e dar-nos pistas para definir opções de acção consoante as nossas próprias necessidades.
    Passemos a um exemplo:
    Um capitalista sabe que a ideia de um sindicalismo “responsável”, conciliador, concertador é mil vezes preferível à ideia de um sindicalista que odeia o sistema da exploração do homem pelo homem, que promove a consciência de revolta e a organização democrática e combativa dos trabalhadores, a partir dos locais de trabalho.
    Ora o capitalista tem veículos especializados na produção e reprodução da ideia do sindicalismo “responsável” e ferramentas adequadas para procurar extirpar da ideia colectiva o sindicalismo de base, democrático e combativo.
    Por outro lado, o sindicalista de base confronta-se com um nível muito baixo de consciência de classe, um nível muito baixo de consciência político e uma forte corrente reformista que apela à unidade “de todos os portugueses honrados”, nas versão modernas da Democracia Avançada do Século XXI ou do “Socialismo Popular”, de resultados.
    Perante esta situação, ou cede à pressão de “dar resposta” ao desemprego, à miséria e pobreza crescente, e procura encontrar “soluções” legislativas e institucionais que remedeiem e atenuem os problemas dos trabalhadores ou reconhece a total insuficiência da luta económica e defensiva – marca dominante da luta sindical nos períodos normais das sociedade – e daí procura uma plataforma que formule um projecto de ruptura não só a nível governamental mas do próprio sistema que o determina.
    Pode fazê-lo fazendo tábua rasa da experiência acumulada pelo movimento operário e revolucionário? Claro que pode, há sempre alguém a redescobrir a pólvora. Pode fazê-lo rejeitando modelos que a história marcou como ineficazes ou mesmo opostos aos interesses dos trabalhadores? Claro que sim, é aliás não só possível como crucial para não repetir, ou procurar não repetir erros passados.
    Mas creio que é essencial não deitar fora, com a água suja do banho, a criança que se lava.
    O Capitalismo demorou alguns séculos para se afirmar como o sistema global dominante.
    O Socialismo tem apenas pouco mais de século e meio, com tão poucas experiências concretas – Comuna de Paris (a nivel de cidades, não Estados), União Soviética – que são insuficientes para o avalizar como ineficaz.
    Em contrapartida, um dado é perfeitamente claro: a liderança do PS, no Governo, designando-se socialista, defende convictamente o capitalismo. Para cada medida que apresenta para atacar os direitos, salários e condições de vida dos trabalhadores e das suas famílias, qualquer socialista genuíno poderia contrapor medidas que seriam tomadas por um governo cujo interesse fosse a defesa dos direitos dos trabalhadores, a supressão da exploração do capitalismo, o fim do primado do lucro sobre as necessidades da Humanidade.
    Essa contraposição de ideias, de propostas permitirá começar a rediferenciar os campos que se opõem na sociedade, mas que a classe dominante – e, em menor grau, os que procuram remendar a actual sociedade – procura fazer esbater ao máximo com as ideias de interclassismo, fim da luta de classes ou de cidadania, a diferenciação irreconciliável entre o Trabalho e o Capital.
    Isto, a massa dos trabalhadores, partindo da sua própria experiência, poderá cada vez mais compreender.
    A experiência do movimento operário e revolucionário não nos permite afirmar que os sovietes caíram dos céus, mas surgiram como a expressão organizativa de uma consciência que se foi formando através do debate/acção das correntes políticas e sociais da Rússia de então.
    Creio que Mudar de Vida é também procurar na ação o debate que nos faz falta para rearmar os trabalhadores e em particular os jovens trabalhadores, para uma acção consciente anti-capitalista e, na minha opinião, genuinamente socialista.

  18. Hugo Ferraz disse:

    Sr José Mário Branco, dirijo-me a si deste modo porque para mim voce é um senhor!!! Concordo plenamente que o tempo urge e temos de nos unir e fazer algo rapidamente. Ouvi falar do jornal e vim pesquisar sobre o mesmo e estou interessado em subscrever e divuldar o Mudar de Vida, porque a mim parece-me mais centrado nos problemas reais do que os noticiários televisivos.
    Para mim um dos muitos problemas é que neste país só existe um José Mario Branco e as pessoas infelizmente estão mais preocupadas em comprar telemóveis e consumir do que lutar pelos seus direitos. Não me considero de esquerda ou de direita porque isso em Portugal já não quer dizer nada!! Estou do lado do povo, daqueles que sofrem com os aumentos de impostos, dos hospitais precários, de uma segurança social à beira do colapso, etc… Tou farto das Maddies, dos Apitos Dourados, do Vale e Azevedo, da Casa Pia e de toda esta dita “justiça” portuguesa que só funciona para o zé povinho, porque qualquer um com poder safa-se da justiça como uma lebre de uma tartaruga polícia! Desde que ouvi o FMI (obra prima) e o ajustei aos tempos de hoje e me apercebi como apenas 5% não é actual notei que o problema não é de hoje, o tempo urge e muito tempo já passou… Eu acho que precisamos de uma revolução a sério! Temo mais o conformismo do povo português do que uma bala, mas estou determinado a lutar com as armas que possuo, a palavra e as minhas acções.
    Estou aqui para a luta!

  19. António Alvão disse:

    A ideia de ter que ser uma oligarquia de “iluminados” a ditar e a orientar os povos, é uma concepção religiosa que aparece no início da Idade Média e mais tarde chega também à política, até aos dias de hoje.

    Se dissermos a um crente para o deixar de ser e que a criação de Deus foi obra do Homem, ele não acredita nem deixa de ser crente; mas se for inteligente vai pensar no assunto e começará a investigar o caso por conta própria e descobrirá, através dos meios científicos e filosóficos, que outros homens como ele o andaram a atrofiar com dogmas e mentiras, em vez de o ajudarem a crescer como homem. Na política passa-se a mesma coisa! Portanto, nós somos o fruto de meio onde nos inserimos, do que lemos e do que não lemos.

    O meu amigo não é aquele que procura em mim uma dupla, que imita os meus tiques, que anda na minha sombra ou vice-versa; o meu amigo é aquele que me critica construtivamente, que me sacode a mente, que me ajuda a pensar e a crescer como homem. Nesta linha de pensamento ganhamos todos: a sociedade e a humanidade.

    Meus amigos, não se esqueçam de falar e de quererem, como eu, a revolução. Ela, infelizmente, na nossa sociedade, faz falta como o pão para a boca de quem tem fome. E não é crime nem pecado pensar e fazer a revolução, desde que seja para a melhoria do bem-estar dos povos! A democracia não se come à mesa. O proletariado nunca lutou, no seu papel histórico, pela democracia, mas sim pela revolução – “Proletários de todo o mundo uni-vos!” e não democratizai-vos! A democracia é um conceito burguês que põe a ganhar sempre o mais poderosos e desvia o oprimido de construir o seu próprio caminho e que empurrou a esquerda e extrema esquerda para o situacionismo.

    Entre a direita e a esquerda a diferença não é tão acentuada como muita gente pensa: se a direita é democrática e pelo poder, a esquerda também o é. A única diferença é que a direita é mais pelo sector privado e a esquerda tem mais em conta o sector público. E à esquerda do PS também não há diferenças ideológicas – há é concorrência ao poder.

    Somos um país de não praticantes, com a excepção do capitalismo – 90% dos católicos não são praticantes ; os socialistas não praticantes; comunistas não praticantes; marxistas não praticantes, etc. Agora podem dizer: “mas eles vão votar!” Eu digo: deixem-se desse vício! O explorado, oprimido, faminto, etc. só evoluiu o que evoluiu no parlamento da rua e nunca conheceu outro. Num palácio fechado, a humanidade não pode andar para lado nenhum.
    Custa muito a quem trabalha manter um estado parasitário em pé, que a esquerda e a direita defendem com toda a ramificação de forças armadas; ramificações policiais; governo central, parlamento, governadores civis; funcionalismo público, etc.
    já alguma vez fizeram as contas ao que custa manter estas instituições a funcionarem sem produzirem riqueza?

    A análise das lutas do passado do movimento operário chega à conclusão que o projecto da Comuna de Paris é a única via revolucionária para o socialismo sem parasitismo. Digam que as reformas que eles fizeram em tão pouco tempo não se mantiveram actualizadas no campo revolucionário.

    Para finalizar pedia ajuda a Francisco de Oliveira Raposo (e desculpem a minha ignorância) gostava de saber o que é uma acção genuinamente socialista.

    “Custa muito a quem roubou dar tão pouco a quem foi roubado”_ Manuel da Fonseca

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