Crise gera onda de chauvinismo

Sexta-feira, 6 Fevereiro, 2009

A crise económica está a gerar, entre os trabalhadores dos diversos países, reacções nacionalistas e de rejeição dos imigrantes. Nos EUA os alvos são sobretudo os trabalhadores de origem latina, e também crescem os ataques racistas. No Reino Unido, centenas de trabalhadores têm-se manifestado contra italianos e portugueses que trabalham nas refinarias do norte do país, exigindo prioridade de emprego para os nacionais britânicos. Na Islândia, levada à bancarrota, igualmente os estrangeiros, portugueses nomeadamente, foram hostilizados. Factos que mostram a importância de travar um combate ao nacionalismo que divide as classes trabalhadoras e que as torna instrumentos do capital em crise.






3 Comentários a “Crise gera onda de chauvinismo”

  1. Francisco d'Oliveira Raposo disse:

    Os dramáticos eventos que se estão a desenrolar pelo mundo, provocado pela crise global do capitalismo, exigem dos revolucionários um redobrado cuidado na análise a formulação adequada da intervenção possível.
    Este texto alerta para uma das potenciais características que emergem do período de profunda convulsão que atravessamos.
    Em todo o caso, creio ser de importância extrema uma leitura mais concreta e cuidadosa das notícias que circulam sobre dados eventos.
    No caso específico das greves dos trabalhadores da construção civil em centrais de energia no Reino Unido, os dados disponíveis apontam para algo de muito mais crucial para o movimento, isto é, que, pese embora no início imediato dos movimentos tenham sido afloradas posições nacionalistas e reaccionárias no movimento, nem de perto essas foram e são as características gerais do movimento.
    Com efeito, usando a frase de Gordon Brown, os trabalhadores contestavam o rebaixamento de condições de trabalho através do trabalho migrante. Aliás, durante o auge dessas movimentação, José Sócrates, no lançamento de obras no Alqueva, usou exactamente o mesmo tipo de frase, sem grande escândalo de ninguém.
    A posição da nossa esquerda oficial foi, no mínimo, decepcionante. (ver http://socialismohoje.wordpress.com/2009/02/06/decepcionante-posicao-do-bloco-de-esquerda/)
    O determinante nesta luta foi a participação consciente e organizada dos socialistas revolucionários e marxistas que auxiliaram a extirpar do movimento a potencial ameaça racista e nacionalista, tendo sido expulsos pelos trabalhadores elementos do BNP que se deslocaram aos piquetes de greve. Ao mesmo tempo, nas negociações estabelecidas, os trabalhadores forçaram os empreiteiros a pagarem o mesmo salário e a atribuirem os mesmos direitos aos trabalhadores portugueses e italianos que, segundo a Directiva de Trabalho Externo poderiam ser pagos segundo a legislação italiana ou portuguesa.
    Na prática, e na luta, os trabalhadores deste sector no Reino Unido, tornaram, mais uma vez, viva e concreta a velha consigna operária e revolucionária, “Proletários de todos os países Uni-vos!”

  2. a redacção disse:

    Nada a dizer sobre o que FR refere acerca da intervenção de elementos socialistas revolucionários e marxistas nos acontecimentos no Reino Unido. Oxalá assim seja e que o exemplo prolifere.
    Mas parece-nos que, levado por este caso particular, FR diminui os riscos de crescimento das posições nacionalistas entre os trabalhadores – porque é isso que tende a acontecer numa situação de crise como a actual. O ambiente que se vive é contrário à concretização da consigna marxista que FR enuncia dado o atraso político e organizativo do proletariado mundial. Para que os proletários de todos os países se unam é preciso que predominem no seu seio as ideias revolucionárias, que a conciliação de interesses com as classes dominantes em cada país deixe de ser a ideologia da maioria dos trabalhadores, que os operários do país deixem de ver nos operários estrangeiros seus concorrentes – e disponham dos meios de acção para que assim seja na prática. Ora, cremos estar de acordo em que falta muito para chegar a esse ponto. Por isso mesmo, o alerta principal deve ser o de denunciar o nacionalismo e o chauvinismo com que as burguesias procuram arregimentar o proletariado e não embandeirarmos com pequenas acções, como se fossem a solução do problema.
    Abril, 2009
    A redacção

  3. a redacção disse:

    Na sequência da discussão travada no MV n.º 15 (ver textos acima), Francisco Raposo enviou seguinte comentário:

    Seguramente que é de saudar a determinação com que o MV denuncia o nacionalismo chauvinismo, expressa no comentário da Redacção, no seu n.º 15, ao meu contributo online sobre a onda de greves no sector da construção civil na Grã-Bretanha e que toda a classe dominante europeia se apressou a apelidar de racista e xenófoba. O mesmo, noutro grau, fez a nossa esquerda.
    Vai, contudo, conceder que os bons exemplos são salutares e devem divulgar-se o mais possível. Creio que é, contudo, um método conhecido, mas nem por isso curioso, o “embandeiramento em arco” dos ângulos de visão aparentemente não coincidentes como espécie de “bizarria”.
    É que conscientemente, peguei num caso particular para projectar um aspecto que me parece fundamental na acção dos socialistas revolucionários e marxistas, hoje.
    Partindo de condições fortemente desfavoráveis, com a apresentação da ideologia nacionalista, chauvinista e racista no seio da classe, saber propor um programa de acção que auxilie a combater, na prática, essas ideias no seio da classe é, do meu ponto de vista, essencial.
    No caso particular de Portugal, essa tarefa é, a meu ver, particularmente difícil porque a esquerda revolucionária e marxista tende a desvalorizar a propaganda geral e ampla de uma alternativa socialista ao capitalismo.
    É também isso que permite que um dos governos mais consequentes na aplicação do neoliberalismo se possa apelidar de “socialista”, que a massa de activistas de esquerda tenha conceitos vagos e de distorcidos de “democracia avançada para o século XIX” que o reformismo socialdemocrata se mascare de “socialismo popular”.
    No apontamento que vos enviei procurei, modestamente, valorizar um aspecto positivo da intervenção revolucionária que contribuiu para aumentar a consciência de um sector operário. No caso concreto, a influência nacionalista e chauvinista foi neutralizada com a denúncia da Directiva de Trabalho da União Europeia do Capital que procura rebaixar os padrões de trabalho usando migrantes como “arma de arremesso”. Ao reivindicar salários e condições de trabalho iguais para todos os operários, independentemente da sua nacionalidade, este sector de trabalhadores levou, efectivamente, à prática a consiga “Proletários de todos os Países, uní-vos!”. Provavelmente, direi mais, certamente que este episódio dá-se em condições particulares e específicas que não se podem reproduzir noutros contextos. Mas certamente que pode ser usado para ilustrar alguns aspectos importantes da luta polícia e social que travamos.
    Não quero, não posso – e a redacção do “Mudar de Vida” sabe isso bem – não tomo a arvore pela floresta nas dificuldades e perigos inerentes à época que atravessamos.
    É com o presente estado de consciência de classe que temos que intervir, não com um ideal e ideologicamente 100% puro. Mas, afinal, não foi isso que os revolucionários sempre fizeram?
    Francisco d’Oliveira Raposo

    Resposta da redacção:

    A réplica de FR não acrescenta argumentos novos.
    Como dissemos no MV15, saudamos as posições revolucionárias que contrariaram a onda de chauvinismo e desejamos que proliferem. Mas o que nos levou a responder a FR não foi isso: foi o facto de vermos na sua posição uma desvalorização dos riscos de chauvinismo entre a massa trabalhadora (FR recomendava-nos uma “leitura mais concreta e cuidadosa” dos acontecimentos). A questão, portanto, está na avaliação que se faz do estado actual da consciência política da massa dos trabalhadores no mundo – não apenas dos sectores mais esclarecidos nem apenas no Reino Unido. Só uma apreciação rigorosa desse estado de consciência global permite mudar a situação; que a nosso ver continua para já a ser desfavorável às ideias revolucionárias.
    A redacção

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