A crise – e os pretextos que a crise dá…

A parte substancial dos despedimentos atinge a classe operária

Pedro Goulart - Quinta-feira, 29 Janeiro, 2009

qimonda.jpgA parte mais significativa dos trabalhadores que estão a ficar sem emprego não são “classe média”, mas sim operários. Nem são apenas trabalhadores de fraca qualificação, como alguns pretendem, mas também em grande parte trabalhadores qualificados. Na dezena e meia de casos que abaixo apontamos, todos recentes, entre 4 500 e 5 000 trabalhadores, na maioria operários fabris, foram ou estão em risco de desemprego.

Além das consequências da crise em si, os patrões estão a aproveitar para exercerem chantagem sobre o governo, no sentido de lhes serem concedidos subsídios e facilidades. Mas não é isso que está a travar os despedimentos; pelo contrário, à sombra da crise até já há capitalistas a afirmar abertamente que despedem por que querem. Foi o caso do patrão do grupo farmacêutico Seber que, ao proceder ao despedimento colectivo de 120 trabalhadores, declarou, alto e bom som: “Estou a usar da faculdade que tenho de criar empresas e de acabar com elas quando bem entender”.

A facilitação dos despedimentos vai originar ainda mais umas dezenas de milhares de desempregados. De resto, o próprio governo corrigiu para cima as previsões de desemprego para este ano, apontando uma taxa de 8,5% (mais um ponto do que dissera há uns meses) e um valor idêntico para o ano que vem.

Diante das medidas aplicadas pelo patronato e pelo governo contra os trabalhadores, uma fraca resistência ou algum conformismo entre os explorados, só poderão contribuir para que o capitalismo a ultrapasse a crise à custa de quem trabalha, impondo-lhes fortes sacrifícios.

Alguns exemplos do que vai pelo país, neste início de 2009.

Tyco Electronics
Em Dezembro de 2008, a administração da multinacional Tyco Electronics, fábrica (em Évora) de componentes para a indústria automóvel, decidiu parar duas semanas. A atitude da administração da fábrica, que empregava cerca de 1600 trabalhadores e com bastantes encomendas em carteira, surpreendeu então os trabalhadores, pensando alguns que a administração estava a fazer pressão para receber parte do apoio dos 900 milhões de euros que o governo reservou para o sector automóvel. Isto, a juntar aos 23 milhões de euros de apoios que a empresa já havia recebido. Já em Janeiro, a administração da fábrica decidiu avançar com um processo de lay-off, suspendendo durante 6 meses os contratos de trabalho a mais de 500 operários. Ora, estes ficam apenas com 2/3 de um salário já de si bastante baixo.

Autoeuropa
Esta empresa da indústria automóvel, em Setúbal, que também já recorreu em Dezembro a uma paragem na produção, dispensou mais de 250 trabalhadores temporários, isto é, mais de 8% da força de trabalho da unidade fabril. A empresa exemplar, pelos vistos…

PSA
Sabe-se agora que esta fábrica de automóveis, do grupo Peugeot/Citroen, localizada em Mangualde, que emprega cerca de 1500 trabalhadores, vai despedir entre 400 e 600 (cerca de 1/3 da sua força de trabalho) entre os meses de Fevereiro e Março, justificando a medida com a crise no sector automóvel.

Sector têxtil
Em 2009 já encerraram diversas fábricas do sector têxtil, como a Silva & Sistelo, em Rio Tinto, que empregava 150 trabalhadores, e a António João, na Guarda.
A Borgstena, de Nelas, fábrica de componentes têxteis para automóveis, vai despedir cerca de 100 trabalhadores.
Os quase 200 trabalhadores da fábrica têxtil Intipor, de Amares, montaram vigília junto à empresa para evitar que de lá saia a mercadoria sem lhes pagarem os salários em atraso. Perante o protesto dos trabalhadores, apareceu a GNR a proteger a saída do gestor da empresa. Os trabalhadores correm risco de desemprego.

Calçado
A Aerosoles, o maior grupo de calçado português, em Aveiro, que emprega mais de 600 trabalhadores (só em Portugal), diz estar sem dinheiro para adquirir a matéria-prima de forma a assegurar as encomendas. E já começou o despedimento de 130 trabalhadores.
A Eccolete, em Santa Maria da Feira, ramo de uma multinacional dinamarquesa, acaba de despedir 180 trabalhadores.

Electrónica
Na Quimonda, sedeada em Vila do Conde, foi aberto um processo de falência que põe em risco 1 800 empregos. Trata-se de uma fábrica de chips para computadores, filial de uma multinacional alemã que é das maiores empresas europeias do ramo.

CPK
A fábrica de papel, em Cacia, despediu 44 trabalhadores, alegando falta de encomendas.

Cerâmica
Na fábrica de loiça Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, com salários em atraso e em perigo de encerramento, os trabalhadores estão em luta “em defesa dos postos de trabalho e pela manutenção da empresa”.
Na Obrarte, em Alcobaça, com salários em atraso e já encerrada, os trabalhadores protestaram em frente aos Paços do Concelho.
Nas duas empresas, há a possibilidade de cerca de 200 trabalhadores perderem os seus empregos.

Controlinveste
Em Janeiro, este grupo de comunicação social fez um despedimento colectivo envolvendo 122 trabalhadores. O Jornal de Notícias, com 27 trabalhadores despedidos e o Diário de Notícias, com 22, foram dos mais atingidos. Os patrões justificam os despedimentos com a crise no mercado dos média e a quebra de receitas.

Seber
Empresa do sector farmacêutico, com fábrica em Póvoa de Santo Adrião e armazéns em Porto e Coimbra. Encerrou as suas actividades em Portugal, recorrendo ao despedimento colectivo dos 120 trabalhadores, porque o patrão assim o quis – por “desencanto político”.






2 Comentários a “A crise – e os pretextos que a crise dá…”

  1. Aurelio Santos disse:

    Lamento muito o encerramento da Silva & Sistelo. Trabalhei para o Corte Inglês entre 1965 e 1967. Era uma casa com muita classe e com bons alfaiates e excelentes modas e produtos. Cumprimentos desde New York:)

  2. silva disse:

    o governo corleone fartos de pedir a todos os partidos politicos uma investigação ao casino estoril devido ao despedimento de 112 familias não vão atacar o pingo doce que dá trabalho e não despede ninguem será que os corleones do governo mandam tambem nos partidos da oposição digo isto porque não se vê ninguem preocupado com o despedimento no casino estoril que com lucros despede gente.

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