Fora do poder é a crise

O chavascal no PSD é a imagem do próprio regime

Sexta-feira, 5 Outubro, 2007

chairs-on-a-cliff.gifFalar de “crise do PSD” só pelas revelações ou pelos insultos a que a zanga de comadres deu azo é ficar longe da verdadeira questão. Nada do que se viu nas últimas semanas é inédito ou exclusivo dos social-democratas.
Os barões do PSD não se entendem porque perderam os lugares do poder mais rendosos. Administrar os negócios das classes dominantes paga e paga bem. Fora do poder é a crise. O CDS está em crise pelas mesmas razões e o PS passou pelo mesmo quando foi a vez dele de estar de fora (lembre-se a sucessão ineficaz de secretários gerais, de Constâncio a Sampaio, até que lá chegou a hora com Guterres).
Acresce agora um factor novo: o PS fez uma deslocação à direita que ocupou praticamente o campo político tradicional do PSD e do CDS. Isso torna mais distante a oportunidade de voltarem a S. Bento.
Os patrões deste país estão tão contentes com a prestação de Sócrates que se mudaram de armas e bagagens para a banda do PS. E vão manter-se assim enquanto puderem, para tirarem o máximo lucro da maioria absoluta.
Preteridos pelos seus financiadores de ontem, PSD e CDS vêem a mesada reduzir-se drasticamente e não conseguem dar emprego condigno aos seus quadros, que se impacientam. “Durante quanto tempo vamos ter de fazer o frete de políticos da oposição antes de chegarem os dividendos?”
Esta falta de liquidez é dramática. Basta lembrar os financiamentos do PSD pela Somague, ou do CDS pelo BES a troco de favores ministeriais para se avaliar quanto estarão a perder. Qual é o capitalista com juízo que vai investir milhões em forças políticas que não detêm alavancas do poder? Financiamentos úteis são agora os que correm para os cofres do PS, como o dos mafiosos brasileiros do Bingo que deram uma ajudinha ao êxito eleitoral de Sócrates…
Eis, portanto, o fulcro da crise. Mendes, Menezes ou Portas (tão silencioso que ele anda…) bem podem inventar linhas políticas “alternativas”. Só quando o PS correr o risco de perder as eleições é que os senhores do poder deitarão mão de novo às rodas suplentes.

A realidade, por breves instantes

Jorge Coelho, dirigente do PS, lamentou o chavascal no PSD, dizendo, compungido, que “a democracia sai prejudicada”. Não. A demo-cracia dos partidos do poder revela-se nestes momentos: a compra de votos, as chapeladas, o apelo “às bases” só para decidir contendas de caciques, a escolha de líderes sem programa e a realização de congressos sem poder de decisão, a promessa de medidas populares para rasgar mal fecham as urnas. É durante todo o resto do tempo que esta realidade fica escondida, sob uma aparência de ordem, de seriedade e de dedicação ao bem comum inteiramente falsa.






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