A maior crise financeira mundial desde 1929

Loren Goldner - Quarta-feira, 17 Setembro, 2008

domino72dpi.jpgA 7 de Setembro os mercados mundiais foram encerrados. O banco central (Reserva Federal) e o Tesouro dos Estados Unidos anunciaram que iriam disponibilizar 25 milhares de milhões de dólares para salvar “Freddie Mac” e “Fanny Mae”, duas agências que subscrevem 5,4 biliões de dólares em dívidas hipotecárias nos Estados Unidos. Ao longo de várias décadas, Freddie e Fanny têm ajudado a proceder a empréstimos a 70% das famílias norte-americanas com meios para possuir casa própria.

O colapso do preço das casas nos Estados Unidos ocorrido em 2006 implica que centenas de milhares de famílias (muitas delas formadas por pobres, negros ou hispânicos) perderam as suas casas e outras centenas de milhares viram-se obrigadas a abandonar casas cujo valor é muito inferior ao das hipotecas. Isto levou a que os próprios Freddie e Fanny perdessem, de maneiras variadas, milhares de milhões de dólares.

Nos Estados Unidos, apesar de as “nacionalizações” serem absolutamente rejeitadas, a operação de salvamento de Fanny e Freddie foi na realidade uma “nacionalização”, sem precedentes desde a Depressão da década de 1930.

A 14 de Setembro a Reserva Federal e o Tesouro tomaram de novo uma decisão histórica com a liquidação “disciplinada” dos colossais bancos de investimentos Lehman Brothers e Merrill Lynch. O Lehman Brothers declarou oficialmente falência e o Merrill Lynch foi adquirido por um dos maiores bancos mundiais, o Bank of America.
Depois da liquidação, em Março passado, do banco de investimentos Bear Stearns, esta foi a terceira operação “histórica” de gestão de crise tomada em 2008 pelo governo norte-americano. Em seis meses desapareceram três dos cinco principais bancos de investimentos dos Estados Unidos.

Estas crises particulares são o resultado − sem qualquer fim à vista − de uma crise estrutural que vem a desenvolver-se desde há várias décadas e cujos efeitos hão-de fazer-se sentir durante anos ou talvez décadas. Já o mercado de acções dos Estados Unidos registou a maior vaga de pânico desde o 11 de Setembro de 2001 e os mercados asiáticos seguiram pelo mesmo caminho.

No entanto, para nós, militantes políticos, não interessa perdermo-nos nos pormenores técnicos destes acontecimentos e o fundamental é apreendê-los no seu pleno significado histórico.

Desde 1945 que Nova Iorque tem sido o principal mercado mundial de capitais. Até à década de 1970 os aspectos financeiros do capitalismo mundial disseram sobretudo respeito aos banqueiros e aos “especialistas”. Já na década de 1960 esses especialistas começaram a ficar preocupados com a questão do valor do dólar, que não se limitava a ser a moeda dos Estados Unidos, mas era usado em todo o mundo como “moeda de reserva”, considerado pelos acordos de Bretton Woods, assinados em 1944, “tão bom como o ouro” e que era detido pelos bancos centrais no mesmo plano do ouro.

Devido a problemas (por exemplo, a inflação) surgidos na economia norte-americana, em 1973 o dólar deixara já de ser “tão bom como o ouro” e o sistema financeiro do pós-guerra entrou em colapso. O governo dos Estados Unidos pôs fim aos acordos de Bretton Woods e decretou que o mundo inteiro passasse de um sistema de “ouro-papel” para um sistema monetário assente meramente em papel, ou seja, de “ouro-papel” para “papel-papel”. O dólar continuou a ser a principal moeda de reserva mundial, usada extensivamente fora dos Estados Unidos, mas de 1973 em diante os Estados Unidos puderam obrigar o resto do mundo a apoiar-lhes sem restrições a sua própria economia interna baseada em dívidas (agora superiores a 30 biliões de dólares, tanto do governo e das empresas como dívidas individuais) e em estagnação. O resto do mundo, conduzido pela Ásia, empresta o seu excedente de dólares ao governo dos Estados Unidos, de modo a que os cidadãos norte-americanos possam continuar a usar os seus cartões de crédito. Os norte-americanos consomem, o resto do mundo produz, e em troca os Estados Unidos mandam para o estrangeiro pedacinhos de papel verde que se desvalorizam de ano para ano (desde 2002 o dólar caiu 50% relativamente ao euro). Se o resto do mundo abandonasse este sistema, arriscar-se-ia a um colapso económico mundial − que, aliás, talvez ocorra mesmo.

Desde a década de 1970 que o “neoliberalismo” tem significado o declínio económico de muitos (incluindo 80% da população norte-americana), a devastação económica de alguns (os 3 milhares de milhões de pessoas vivendo (?) com “1 a 2 dólares por dia”) e uma distribuição dos rendimentos cada vez mais desigual, em que o “valor pessoal” das 50 pessoas mais ricas do mundo é igual ao rendimento anual de 40% da população mundial. Apesar da enorme pirâmide de dívidas promovida pela política do governo norte-americano e que alastrou a todo o mundo através do “padrão dólar”, a economia “real” nunca conseguiu voltar ao dinamismo do período de 1945-1975. O resultado tem sido a criação infernal de cada vez mais “instrumentos financeiros” e de subtilezas que só os acrobatas de computador de Wall Street conseguem compreender − ou, nos últimos tempos, não conseguem.

Este sistema entrou agora em colapso e os “especialistas” do capitalismo não sabem como travá-lo. A sua miopia ideológica impede-os de comprender o problema e a sua posição social prática leva-os a fazer todo o possível por lançar os custos sobre os trabalhadores, os camponeses e os pobres marginalizados. A nossa tarefa é impedir que isto aconteça.






2 Comentários a “A maior crise financeira mundial desde 1929”

  1. mateus disse:

    Efeitos do capitalismo selvagem.

  2. Edivaldo disse:

    Bom dia.

    Estou fazendo faculdade de contabeis e esta semana meu professor de economia me pediu um trabalho sobre a crise financeira de 1929.
    Gostaria de saber mais sobre a crise financeira mundial de 1929,

    Sem mais

    Edivaldo Dias Vieira
    edv.parana@ig.com.br

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